Desporto

Clássico Toma lá 10! Toma lá 9!

No espaço de cerca de um ano (10 de janeiro de 1936/4 de abril de 1937) Sporting e FC Porto trataram de se esmagar um ao outro (10-1 e 9-1).

Ainda está para se saber quantos almudes de bílis amarela se acumularam nas vesículas de jogadores de FC Porto e Sporting para resolverem despedaçar-se uns aos outros no espaço de pouco mais de um ano. Dizia a velha Teoria Humoral Hipocrática que a vida se equlibrava entre quatro humores: o sangue, procedente do coração, a fleuma, produzida pelo sistema respiratório, a bílis amarela, fabricada pelo fígado e a bílis negra, saída do baço. Para os gregos, que a espalharam pelo mundo, a palavra ‘kholé’ significava bile: fel ou suco biliar, que hoje se sabe perfeitamente ser produzido pelo fígado e armazenado pela vesícula à ordem de cerca de um litro por dia. Ora de ‘kholé’ saiu a palavra cólera pois acreditava-se que o excesso de bílis era responsável pela agressividade. E cólera ou fúria, frenesi, furor, ímpeto, iracúndia ou fereza, todos são termos que se aplicam ao comportamento dos jogadores do FC Porto naquela tarde de 22 de Março de 1936, quando receberam o Sporting para a 8.ª jornada do campeonato.

Convenhamos: a cólera andava no ar. Ou nos ares da Europa, melhor dizendo. A Alemanha rearmava-se à revelia do que ficara estabelecido no Tratado de Versalhes, a Áustria temia pela sua independência, os Aliados assobiavam para o lado, e a Itália, conduzida pela farronca de um ‘buffone’ chamado Benito Amilcare Andrea Mussolini, auto-intitulado Chefe de Governo, Duce do Fascismo e Fundador do Império, lançava-se numa idiota aventura africana com a invasão da Etiópia. 
A cólera andava no ar sobre a Rua Vimara Peres, no cruzamento com a Saraiva de Carvalho e, mais adiante, na Batalha. O comboio especial de Lisboa chegou pontualmente, às 13 horas, carregado de adeptos do Sporting. Voaram pedras. Muitos foram perseguidos por um grupo de facínoras inqualificáveis. Vários feridos foram conduzidos ao hospital.

Duas horas e meia de pois, a cólera mantinha-se acesa no Campo do Ameal. Os avançados portistas pareciam possuídos por uma alma maligna. Dyson, o guarda-redes dos leões, tremia como varas verdes. Lopes Carneiro, Waldemar Motta, António Santos, Artur de Sousa, o Pinga, e Nunes rondavam a sua baliza com um vigor rinocerôntico. Aos 13 minutos já Nunes e Pinga davam vantagem aos nortenhos por 2-0. 

Abelhinha é o sportinguista mais tranquilo. Procura o apoio de Pedro Pireza, de Mourão e de Possak. É este que reduz e devolve o início frenético a uma toada de equlíbrio. Por pouco tempo.

Um remate poderoso de Motta, à queima-roupa, atinge em cheio a face de Dyson. O keeper perde os sentidos. Sai de campo. Rui Carneiro faz de guarda-redes improvisado. Para o Sporting é fatal. Por mais que tente manter a bola longe da sua baliza, dois pontapés absolutamente defensáveis por um guardião competente dão golos a Pinga e Waldemar Motta. Nos dois últimos minutos da primeira parte, Carlos Pereira e António Santos põem o resultado em 6-1. Catastrófico.
Dyson não voltou ao jogo. Recuperou à custa de álcool cânforado mas mas mal se sustinha nas pernas. Rui Carneiro parece mais sereno após o intervalo. Segura alguns remates de longe, que se tinham tornado a estratégia preferida dos portistas, mas não resiste à carga de Pinga e Waldemar quando procura repor uma bola a pontapé. O golo de Carlos Nunes é fortemente protestado pelos leões mas o árbitro Henrique Rosa faz orelhas moucas. A tortura continua: Nunes marca por duas vezes (aos 70 e 85m) e Pinga fecha a conta redonda nos 10-1 aos 90. Esperem! A história que aqui conto ainda vai a meio. Haverá consequências...

Na época seguinte...

Foram muitos os jogadores de Sporting e FC Porto que se reencontraram na jornada nº 10 da época seguinte. Campo Grande, dia 4 de Abril de 1937. Pouco mais de um ano transcorrera.

Até o árbitro foi o mesmo: Henrique Rosa, de Évora. Para descontentamento dos lisboetas, ainda amofinados. Na baliza do Sporting já não estava Dyson. Estava João Azevedo, o grande Azevedo. Na do FC Porto, o espectador priveligiado dos 10 do Ameal: Soares dos Reis. Agora o inferno seria dele.

Houve muito equlíbrio durante muito tempo. Eram melhores os da casa, sem dúvidas. Manuel Marques, Mourão, Soeiro e Pireza desenham lances vistosos que alegram o público, mas Ernesto Santos e Vianinha estão sempre atentos. Ah! Vianinha: que mártir! Um ano antes estava em campo, de camisola às riscas verdes e brancas. Desta vez veste de riscas, sim, mas verticais e azuis e brancas. A humilhação desabou-lhe em cima em dose dupla.

Foi preciso esperar pelo minuto 33 para que se rompesse o dique dos golos. João Cruz marcou de cabeça. Soeiro, sete minutos depois, faz o dois-a-zero, driblando como quis o infeliz Vianinha e  enganando Soares dos Reis em seguida. Cruz fecha o resultado ao intervalo. Aplausos estralam ruidosamente. Os adeptos sportinguistas ainda não o sabem, mas saborearão a vingança como um prato suculento de carnes frias.

O FC Porto decide defender. Estranhamente, dir-se-á, para quem perdia por 0-3. Terá sentido o seu técnico, o austríaco François Gutkas, que não podia enfrentar o leão de peito aberto. Sujeitou-se. A sua cobardia foi supinamente castigada. Ainda não estavam decorridos dois minutos e Pedro Pireza marcava o quarto. Pinga, num assomo de dignidade, reduz com um pontapé de canto que fez a bola subir muito, percorrer uma elipse larga, e entrar de forma espantosa no ângulo superior contrário de Azevedo. O momento é belo mas de nada serve senão para encantar os espectadores. E talvez enraivecer os jogadores do Sporting.

Tomados pela cólera

Ei-los tomados pela cólera. E praticando um association de qualidade, vários elementos participando dos movimentos em crescendo, evoluindo com a bola em tabelinhas, em passes precisos, em repentes de técnica apurada. Os portistas afundam-se numa depressão inevitável.

Pireza faz 5-1. Cruz faz 6-1 após centro de Mourão. O leão parece sentir na boca o sangue de uma vítima indefesa. Um sabor que o torna mais selvagem, mais impiedoso.
António Santos sai, inutilizado.

Até em pormenores como este a vingança dá a sensação de ter sido planeada por algum deus menor, daqueles que dedica à bola a intensa chama das paixões.
Cabe a Soeiro fazer o 7-1.

Cabe, igualmente, a Soeiro terminar a faena, como um toureiro aclamado na arena, rabos e orelhas, flores e chapéus pelo chão. Recebe um passe de Cruz e explode por entre Guilhar e Reboredo para o oitavo golo. Faltam quatro minutos para terminar a partida, mas o Sporting quer mais e mais e mais, têm muitos dos seus jogadores a bailar-lhes no cérebro recordações amargas dos 10 sofridos no Ameal, um reflexo condicionado de que podem ainda lá chegar, devolver a goleada amarga, lancinante, tenebrosa. 

Manuel Esteves Soeiro Vasques, moço do Barreiro, assim com apelidos no plurar, é plural dentro de campo. Fecha a conta ao minuto 89 com o seu quarto golo. Felizes, os adeptos leoninos erguem-se para festejar a vitória toda ela leonina. Há também alívio no meio da alegria...