Sociedade

Imigração. Pagar a Deus para ter onde viver

«Este é o único país onde se vai ver os cativos e os deixa lá», as críticas e a ironia às buscas do SEF são muitas na igreja evangélica Ministério do Avivamento, onde há suspeitas de crimes de tráfico de pessoas e auxílio à imigração ilegal. Os que ali vivem dizem que os 300 euros que pagam são uma ajuda.

O dono da oficina situada em frente à igreja evangélica da Amadora já não precisa de relógio: «Quando eles começam a cantar, já sei que falta uma hora para eu ir almoçar, todos os dias». Alguns «não sabem mesmo cantar e é uma chinfrineira». Os trabalhadores da rua Henrique Paiva Couceiro já perderam a conta aos anos que está ali a Assembleia de Deus Ministério do Avivamento, uma das dezenas de igrejas evangélicas que existem na zona de Lisboa. Mas as queixas só dizem respeito ao barulho dos cânticos. É que o tempo passa e «estão sempre sair pessoas e a entrar outras», diz um dos trabalhadores de outra oficina da rua. Até desconfia que «eles vivem em quartos divididos por biombos, para caberem mais, e porque há homens, mulheres e crianças».

Os vizinhos supõem tudo, porque nunca entraram lá dentro. «Eles são muito desconfiados, nunca falei com nenhum. No outro dia, um rapaz aqui da oficina entrou ali para dar a volta com o carro e veio logo lá de dentro um esbaforido a dizer que ele não podia entrar, mas ele estava só a fazer inversão de marcha», disse o responsável da oficina. É talvez por isso que mesmo quem aceita falar com o SOL assegure sempre que não vai ser identificado.

As relações com a vizinhança são poucas, mas a partir do momento em que se entra por aquele portão – que está sempre aberto – a realidade muda (só os pedidos de anonimato se mantêm). Ao lado do espaço onde há culto todos os dias, de manhã e ao final da tarde, vivem também pessoas – são cinco famílias, diz ao SOL quem lá mora. «Mas somos uma família, quem está de fora não tem noção disso, mas ajudamo-nos uns aos outros», dizem, negando qualquer das suspeitas que estiveram na origem das buscas levadas a cabo recentemente pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). E estão ali, «porque as rendas estão muito caras», diz uma das moradoras. «Experimente tentar alugar uma casa e dizer ao senhorio que é brasileira. Automaticamente, eles sobem o preço da renda, pedem fiador e três cauções. É impossível», acrescenta.

Uma denúncia anónima levou o SEF a realizar buscas domiciliárias em vários locais ligados à Assembleia de Deus Ministério do Avivamento – em Cascais, Amadora e Montijo. Segundo o SEF, foram detidos «três cidadãos, pastores numa organização religiosa, suspeitos da prática dos crimes de associação de auxílio à imigração ilegal e tráfico de pessoas». «Para além das condições de trabalho, alojamento e salubridade em que foram detetados, os cidadãos estrangeiros, entre os quais crianças, eram sujeitos ao pagamento de quantias de dinheiro para a organização religiosa», esclareceu a mesma fonte. Ao SOL, o Ministério Público avançou que, depois de presentes a juiz, «para além de termo de identidade e residência, os arguidos ficaram sujeitos à obrigação de apresentações semanais no órgão de polícia criminal da sua área de residência e à proibição de se ausentarem para o estrangeiro».

A denúncia foi anónima, mas todos dizem saber quem foi, apesar de ninguém querer avançar com nomes. «Foi uma pessoa que morou aqui, que o pastor ajudou bastante e que nunca contribuiu com nada», disse uma das pessoas que mora naquela rua, onde as oficinas se multiplicam.

 

«Não nos falta nada»

É quinta-feira. A pouco mais de meia hora do culto da noite, começam a juntar-se os crentes. As crianças que ali vivem ainda estão na rua. Jogam futebol, andam de trotinete – há espaço para isso. Os pais também andam por ali e são os mesmos que foram interrogados pelos inspetores do SEF há dias. «Nós continuamos aqui, se eles realmente encontraram pessoas a viver sem condições, então por que não nos tiraram daqui?», pergunta uma das moradoras, que chegou do Brasil há um ano e sete meses.

Esta jovem de 24 anos tem uma filha, trabalha nas limpezas e o processo para ter os documentos foi facilitado, porque o marido tem nacionalidade portuguesa. Sai todos os dias para trabalhar e, até ao próximo mês, a filha fica com a ama – depois disso vai para uma creche.

«Não é um lugar maravilhoso, toda a gente quer ter uma casa sua», diz a jovem. «Mas enquanto não se consegue arranjar melhor, é melhor estar aqui do que estar na rua». O preço das rendas é demasiado elevado para quem já cá está e para quem acaba de chegar a Portugal – é a justificação dada por todos aqueles que vivem ou que prestam culto no Ministério do Avivamento. «Nós não estamos a viver todos em cima uns dos outros, não nos falta nada, eu tenho máquina de lavar, tenho televisão, tenho forno, todo o mundo tem tudo», disse, acrescentado que o espaço tem cerca de dez casas de banho.

Para quem acaba de chegar a Portugal e dá conta de que ter uma casa não é tarefa fácil, dirigir-se à igreja evangélica pode ser uma das opções.

Uma outra moradora que o SOL encontrou está ali há apenas um mês e dez dias. Chegou com o filho que tem 17 anos e conheceu a igreja através do Instagram. «Se não fosse o pastor, eu não sei onde estaria agora», disse.

Sobre os documentos, quem ali vive assegura que não há uma única pessoa que, pelo menos, não tenha ainda tratado do agendamento. «O SEF não perguntou nada, a preocupação não somos nós, é o que os pastores fazem. Não quiseram saber se nós estávamos bem, só queriam os documentos e saber quanto é que pagamos de renda e de dízimo, mais nada», afirmou a moradora que chegou recentemente.

«Se nós fossemos escravos, a primeira coisa a fazer seria tirar os documentos, mas ninguém fez isso», disse a mulher de 24 anos, mostrando as três chaves que todas as pessoas que vivem no Ministério do Avivamento têm – uma das chaves é a de casa, outra é do portão da entrada principal e a última corresponde à porta principal da igreja.

Ao SEF, os moradores atiram  criticas em tom de ironia: «É o único país que vai ver os cativos e deixa-os no mesmo lugar».

 

«Dízimo é mandamento»

«Dou o dízimo, porque é mandamento bíblico, está escrito na bíblia. Muita gente que está na igreja não dá», explicou a mulher. Quem ali vive paga 300 euros, para ajudar a igreja a pagar a renda do pavilhão onde funciona – que são cerca de cinco mil euros mensais, «fora as despesas de água, luz e gás», explica um dos pastores.

Todos negam a obrigação de pagar aquele valor e remetem justificações para a devoção. A regra é dar um décimo daquilo que se tem. «Por exemplo, se eu encontrar dez euros no chão, vou agradecer a Deus e tirar um euro para dar à igreja como forma de agradecimento, não é obrigação», explicou um dos pastores que está na Assembleia de Deus Ministério do Avivamento há oito anos e que acredita que «Deus faz coisas que a ciência não faz».

A cerca de 30 quilómetros da igreja evangélica da Amadora, existe outra – a Assembleia de Deus Ministério do Avivamento de Cascais. Mais vazia durante o dia, porque não vive lá ninguém. «Mas já viveram aqui pessoas, sempre que alguém precisa, pode ficar aqui», disse Rodrigo, um dos crentes que tocava bateria às escuras quando o SOL apareceu. Naquela tarde, a igreja ficou sem luz, «talvez por causa da chuva», acrescentou. Quando chegou a Portugal, há dois anos, Rodrigo não conhecia esta igreja. A mulher levou-o e, a partir daí, foi presença assídua. À pergunta que todos fazem – sobre o dízimo –, este jovem dá a mesma resposta: «Só dá quem quer e quem pode». «Eu dou e o meu filho que acabou de nascer também dá, eu tiro do dinheiro que ele recebe», acrescentou.

Em Cascais, conta Rodrigo, o agora pastor da igreja chegou a viver naquele espaço quando veio para Portugal. «Provavelmente não vai morar mais ninguém aqui», disse, justificando o facto de a igreja estar agora associada ao tráfico de pessoas e auxilio à imigração ilegal. Na Amadora, têm dúvidas que isso aconteça: «Se fosse comigo, eu não ajudaria mais ninguém, ligaria talvez para o SEF quando houvesse pedidos de ajuda, mas acho que isso não vai acontecer, os pastores vão ajudar as pessoas, vão ter problemas de novo, vão voltar a ajudar e vai ser sempre assim», diz uma das moradoras.

No final do culto pastores e crentes, de mãos dadas, pedem a Deus que acabe com as coisas «ruins»: a guerra, as doenças, as injustiças. Circula o cesto para contribuir com «o que cada um pode» e, além disso, há multibanco.