Tautologias

A ‘rainha africana’ (ou a ‘arte de pescar peixinhos inexistentes num aquário sem água’)

De um Pacheco Pereira – Zeus enfastiado e condescendente a explicar a verdade aos pobres mortais – a um Sá Fernandes como nunca o imaginei – reproduzindo uma argumentação sem sentido, a roçar o acéfalo, no debate lúgubre na TVI contra um André Ventura pescador de votos –, aqui estamos todos (também eu…) a cair no logro e no delírio que nós próprios alimentamos para consumo de nós mesmos.

1. E eis o país que escreve e fala, os partidos (exceto a Iniciativa Liberal), a Assembleia da República, a legião de comentadores, a nossa querida comunicação social, o joio e o trigo (que também surge) das redes sociais, defensores e críticos, tudo e nós todos aos pés de... Joacine Katar Moreira!

De um Pacheco Pereira – Zeus enfastiado e condescendente a explicar a verdade aos pobres mortais – a um Sá Fernandes como nunca o imaginei – reproduzindo uma argumentação sem sentido, a roçar o acéfalo, no debate lúgubre na TVI contra um André Ventura pescador de votos –, aqui estamos todos (também eu…) a cair no logro e no delírio que nós próprios alimentamos para consumo de nós mesmos.

Aqui estamos a discutir um problema que não existe – se existisse, era irresolúvel – fabricado por uma parlamentar inexistente, eleita por um partido que não faz sentido existir.

2. Quando era miúdo, o meu Pai levou-me algumas vezes ao Mosteiro da Batalha, perto da minha terra, para me contar algumas das páginas mais admiráveis da história de Portugal, ali inscritas em pedra. Referência veemente e habitual era a violação dos túmulos joaninos pelas tropas invasoras francesas – ditas ‘libertadoras’* – à procura de tesouros supostamente neles escondidos.

Nunca tive notícia de que alguma das nossas grandes (ou pequenas) figuras políticas, designadamente republicanas, tenha sequer considerado a possibilidade de se exigir à França a devolução do que quer que tenha sido saqueado. Nem sei sequer se alguma coisa poderia ser inventariada ou localizada...

Mas, se houver nalgum dos nossos museus património com significado imaterial para alguma das ex-colónias – salvo e preservado, seguramente, por portugueses esclarecidos ou humildes –, defendo que, por nossa iniciativa, se encontre um dos vários modos de também poder estar presente nesses países.

3. E lá estou de novo a pescar o peixinho inexistente no tal aquário sem água, que nem tenho, aos pés de uma ‘rainha africana’...

Mas o que têm ‘joacine katar moreira’ e as cabeças dos ‘ruis tavares’ a ver com um cisco de pó no Mosteiro da Batalha, um relâmpago de luz numa pedra do Parténon, um brilho de porcelana nos Song, um fulgor breve no Taj Mahal, um apelo das Cordobas enterradas no deserto, um silêncio de Angkor Wat, um grão de areia de Gisé?

* Supostamente libertadoras. Leia-se, a propósito das elites e do povo que de algum modo se erguerá, A Legenda do Cidadão Miguel Lino, de Miguel Franco, uma admirável peça de teatro de mais um autor injustamente esquecido.