Política a Sério

Dr. Morte

Depois do derrube de várias barreiras – liberalização do aborto, liberalização de drogas leves e criação de salas de chuto, ataque ao casamento-instituição com a aprovação do casamento gay, adoção por homossexuais, instigação à guerra entre os sexos (através de um feminismo radical) e ataque à família tradicional – o BE quer dar mais um passo na relativização da vida, com a liberalização da eutanásia.

Causa muita estranheza a rapidez com que foi agendada pelo Parlamento a questão da eutanásia.

Será que, depois do Orçamento do Estado, é o problema mais importante que o país tem para resolver?

Manuela Ferreira Leite levantou uma suspeita: a eutanásia pode ter sido a moeda de troca que o PS usou no negócio com o BE para este não chumbar o Orçamento.

Vocês deixam passar o Orçamento, nós apoiamos o agendamento da eutanásia e garantimos a sua aprovação.

Isto explicaria a urgência.

Mas se assim foi, trata-se de um facto muito grave: é a política a descer ao grau zero.

Já se fazem negócios evolvendo questões ligadas à vida e à morte.

Nesta hipótese, o BE seria o responsável pelo ‘crime’ e o PS seria o seu cúmplice – com a ajuda de alguns ‘idiotas úteis’ do PSD.

Mas, se estes ‘idiotas’ existirão sempre, já o comportamento do PS é menos compreensível.

Ou melhor: só é compreensível a partir do momento em que se entenda que o PS de António Costa já tem muito pouco que ver com o PS de Mário Soares.

Este nunca transpôs a linha vermelha de acordos políticos com a extrema-esquerda, preferindo sempre em momentos cruciais voltar-se para o centro.

Costa, pelo contrário, cortou praticamente relações com o centro e todas as suas negociações são com a esquerda, seja com o PCP, com o BE ou com o PAN.

Ora a extrema-esquerda, para aguentar o Governo, vai sempre exigindo mais – e o PS vai dando, porque deixou de ser um partido com princípios para ser um partido que admite que tudo é negociável.

A razão por que o Bloco de esquerda defende tão encarniçadamente a eutanásia tem que ver com o seu programa de demolição daquilo a que chama ‘democracia burguesa’.

Depois do derrube de várias barreiras – liberalização do aborto, liberalização de drogas leves e criação de salas de chuto, ataque ao casamento-instituição com a aprovação do casamento gay, adoção por homossexuais, instigação à guerra entre os sexos (através de um feminismo radical) e ataque à família tradicional – o BE quer dar mais um passo na relativização da vida, com a liberalização da eutanásia.

A nossa civilização pôs o homem no centro e consagrou a inviolabilidade da vida humana.

Ora, é esse nó central que o BE quer destruir definitivamente.

Até há pouco, a vida humana não admitia ‘ses’.

Era inviolável, ponto final.

Quando se dizia que era ‘sagrada’, isso não correspondia a nenhuma manifestação religiosa – mas sim a um princípio civilizacional.

A vida humana não se discutia, não admitia ‘ses’ nem ‘talvez’.

Por isso não era permitido o aborto, nem o suicídio, e o crime de morte era o mais grave de todos.

Por isso, também, foi abolida a pena de morte.

Mas com a liberalização do aborto, essa linha vermelha foi transposta.

Foi o primeiro passo para a relativização da vida.

A vida deixou de ser inviolável para poder ser violada ‘em certas circunstâncias’.

Repare-se que, neste processo do aborto, houve um passo a que quase ninguém deu importância mas foi fundamental.

E que foi este: começou pela ‘despenalização do aborto’ (ou seja, as mulheres que abortassem não serem condenadas) e acabou na ‘legalização do aborto’ (ou seja, o aborto passar a ser uma coisa normal, e até feito gratuitamente em hospitais públicos).

Começou por ‘desculpar-se’ o aborto e acabou a ‘apoiar-se’ o aborto.

Claro que, transporta a linha vermelha, violado o princípio, tudo passou a ser mais fácil.

Tudo o que respeita à vida pode ser discutido.

Agora é a eutanásia.

E o caminho também tem sido insidioso.

A propaganda iniciou-se pela apresentação de exemplos extremos: pessoas acamadas há anos, sem a menor autonomia, que pediam pelo amor de Deus para as matarem.

E os incautos concordaram: de facto, era justo que se autorizasse a morte naquelas circunstâncias.

Era um ato piedoso.

Conquistado esse ‘direito’, veio o passo seguinte: e por que não alargá-lo a outros casos, a pessoas com doenças incuráveis, por exemplo?

Dado mais este passo, perguntou-se: e pessoas com depressões graves também não deveriam ser autorizadas a acabar com a vida?

E de passo em passo, qualquer dia estarão à venda nas farmácias pílulas para as pessoas ‘cansadas de viver’ porem termo à vida ‘dignamente’.

Por que não?

Por que não hão de ter esse direito?

Para já não falar naquelas pessoas que irão a espernear para o ‘matadouro’ porque pediram que as matassem em certas circunstâncias – e, mesmo que se arrependam, já não serve de nada.

Nisto, como em tudo o que respeita a princípios e valores, o problema foi entreabrir a porta.

Aí, o ‘diabo’ meteu o pé e já não permitiu que a porta se fechasse.

E cada vez a vai abrindo mais.

Como se disse atrás, nestas iniciativas existe a vontade mórbida de destruir esta civilização.

Há países em que existem médicos conhecidos como ‘Dr. Morte’, porque se especializaram em acabar com vidas humanas.

Se calhar, estes movimentos defensores da eutanásia são uns ‘doutores morte’ em ponto grande.

Querem acabar com uma civilização que, possivelmente, começa a estar cansada de viver.

Demasiados sinais apontam nessa direção…