Opiniao

Um tinto para o Buldogue Branco

Vencedor da primeira Volta à França, Maurice Garin. nasceu tão pobre que os pais o trocaram por uma arroba de queijo

Maurice Garin era aquilo que os franceses gostam de chamar de mignon. E, já agora, um mignon rigolo. Um malandrim, se quiserem. Tão baixote que parecia estar a aprender a ser anão. Algo que não o impediu de se tornar no primeiro vencedor da Volta a França, em 1903. Natural de Arvier, no Vale de Aosta, era o quarto de uma ninhada de nove irmãos de uma família tão numerosa e tão pobre que acabou por ser trocado por uma arroba de queijo comté e levado para a zona de Saboia por um magarefe que usava crianças diminutas como ele para limpar chaminés, usando e abusando das suas estaturas enfezadas. Não se deu mal de todo. Era desenvolto e expedito e não tardou a ganhar dinheiro suficiente para mandar às malvas o patrão explorador e se fixar por conta própria. Instalou-se primeiro em Reims e, em seguida, na Bélgica. Foi aí que se deixou encantar pelos velocípedes. Comprou uma bicicleta e foi premiado com a sua primeira alcunha: Le Fou. Um esgrouviado que pedalava loucamente por entre os transeuntes, pondo em risco de vida não apenas os pobres incautos como até ele próprio. Descobriu que podia ganhar mais dinheiro com essa brincadeira espinoteada do que a trepar por colunas fuliginosas de chaminés alheias. Na sua estreia competitiva, uma prova que ligava Maubeuge a Hirson, embolsou 850 francos e, pela primeira vez, sentiu-se aburguesado. O pequerrucho de um metro e sessenta e um crescia a olhos vistos. 

À moda de Lisboa, Maurice podia ser considerado um manguela. Tendo sofrido um furo a meio da então célebre Namur-Dinant-Givet e volta, não foi de cerimónias e roubou a bicicleta a um papalvo que observava o esforço dos competidores, lançando-se numa tirada vitoriosa com a frustrada vítima correndo atrás dele gritando como um bezerro. Cruzou a meta com uns confortáveis dez minutos de avanço sobre o segundo, devolveu a máquina ao extenuado infeliz, e ficou marcado para o resto da vida como um cara-de-pau sem escrúpulos, embora sempre de sorriso aberto de orelha a orelha. Pudera!

Maurice cometeu façanhas de fazer inveja às diatribes de Lemuel Gulliver. Quando o jornal Le Vélo resolveu organizar as 24 Heures des Arts Libéraux, apresentou-se com a habitual desfaçatez. A prova, em circuito fechado, teve lugar em Fevereiro de 1895, um dos mais gélidos da história meteorológica da França. Os concorrentes foram tombando como tordos, incapazes de resistirem a tiradas medonhas com temperturas negativas. Garin era imune ao frio. Percorreu mais de 700 quilómetros sem parar e deixou o segundo classificado, o inglês Williams, a 49 quilómetros de distância. De todos os que se enfileiraram à partida, foram os únicos dois que chegaram ao fim. Maurice acabaria por confessar o segredo da sua resistência inumana: vinho tinto. Trazia presa à cintura uma garrafa e ia-se abastecendo de cada vez que o pundonor dava sinais de quebra. Luís Fernando Veríssimo deve tê-lo compreendido bem: «Beba vinho para o espírito/e para a boa digestão/Beba vinho na festa/e beba vinho na solidão/Beba vinho por cultura/ou por boa educação/Beba vinho porque.../Bem, você encontrará uma razão».

Não se pode afirmar que Maurice Garin era um bêbado irremediável, alcoólico de pai e mãe, mas nunca recusava um cordial. A sua fama de corredor espalhou-se por toda a França e no primeiro Tour deram-lhe a braçadeira n.º 1. Nessa altura os números não se exibiam nas costas e sim num pedaço de pano preso à manga da camisola com um alfinete-de-dama. Vestia de branco, a farda da equipa que representava, La Française-Diamant, e cerrou os dentes logo na primeira etapa, Paris-Lyon, devorando os 467 quilómetros do percurso de uma forma tão autoritária e feroz que alguém se lembrou de o alcunhar de Buldogue Branco. O seu principal rival era Hippolyte Aucouturier, um calmeirão de bigodes imponentes como os do Kaizer Guilherme. Mas, ao quilómetro 320, Hippolyte abandonou queixando-se de tremendas dores de estômago. Resolvera aplicar a receita de Maurice e bebera quase dois litros de vinho ao longo da estrada. Valeu-lhe que as regras permitiam que os desistentes de uma etapa pudessem iniciar a seguinte. Aucouturier ganhou as duas rondas posteriores, mas não passaria do segundo lugar final a 2 horas, 59 minutos e 21 segundos do Buldogue. Não restavam mais dúvidas de que o vinho deste era de qualidade superior.

Em finais de 1956, Maurice Garin estava a morrer. Os pulmões manchados pela fuligem provocavam-lhe ataques cavernosos de tosse. Vagueava pelas ruas de Lens, onde vivia, perguntando aos passantes pelo lugar do controlo no qual devia apresentar-se. No centro de toda a confusão que se instalara na sua cabeça, continuava a pedalar no vazio com um medo-pânico de ser desqualificado. Levavam-no à esquadra, apresentava-se pelo nome, e saía feliz. Regressava à estrada. Havia sempre uma meta à sua espera.

afonso.melo@newsplex.pt