Opiniao

A falsa preguiça de Pedro Sousa

 ‘É verdade que sou preguiçoso fora do campo, mas para treinar estou sempre disponível...’, diz Pedro Sousa

Pedro Sousa é considerado o mais talentoso tenista português de sempre, mas só aos 30 anos entrou no top-100 do ranking mundial e só aos 31 atingiu pela primeira vez a final de um torneio do ATP Tour, no Open da Argentina.

Os outros dois portugueses que jogaram finais do ATP Tour eram mais jovens quando o fizeram pela primeira vez: João Sousa com 24 anos quando ganhou em Kuala Lumpur em 2013 (a primeira de dez finais, com três títulos), e Fred Gil com 25 anos na final perdida do Estoril Open em 2010.

A resposta correta e óbvia são as múltiplas lesões que afetaram-no e que várias vezes poderiam ter encerrado precocemente a sua carreira.

Pedro Sousa foi mentalmente muito mais forte do que a maioria dos fãs lhe reconhece para voltar sempre mais forte dessas lesões, depois de naturais períodos de dúvida.

Mas há outros fatores que explicam a sua erupção tardia.

Fred Gil e João Sousa são símbolos de trabalho, espírito de sacrifício, condição física exemplar e capacidade de luta. Já Pedro Sousa foi gozando da fama de um talento com pouco investimento sério na carreira.

Nuno Marques, outro génio do ténis nacional, sofreu das mesmas críticas. Marques pode nem sempre ter sido bem orientado, mas a sua dedicação ao trabalho era total. Testemunhei durante anos uma fama errada de que não se livrou.

Com Pedro Sousa é igual e não só em Portugal. Na final de Buenos Aires o comentador da Tennis TV, repetindo uma informação do site do ATP Tour, dizia que uma das qualidades do português é ser descontraído e um dos seus defeitos ser preguiçoso.

Ora um dos seus treinadores, Rui Machado, o coordenador do Centro de Alto Rendimento da FPT e diretor técnico nacional, garantia-me há um ano, que Pedro Sousa é «um exemplo de dedicação ao treino».

Há algo aqui de errado e nada como perguntar ao visado.

«É verdade que sou preguiçoso fora do campo, mas para treinar estou sempre disponível. Dá-me prazer treinar três ou quatro horas. As pessoas terão essa ideia errada porque viam-me no campo a lidar mal com a frustração, porque sentia-me a jogar bem nos treinos e depois chegava à competição, as coisas não me saíam tão bem e não desfrutava tanto. Mas tenho vindo a mudar isso com o tempo, até porque comecei a treinar melhor e a preocupar-me mais com tudo o que está à volta, como os períodos de descanso, de treino, de preparação física, de alimentação… para se ter bons resultados tem de ser-se um bocadinho obcecado e isso faltou-me durante grande parte da minha carreira. Mas nunca tive falta de treino».

Para a semana regresso ao Pedro Sousa.