Desporto

Sarre. Estranha aventura

O Saarbrücken chegou às meias-finais da Taça da Alemanha. Memórias de um tempo em que o clube foi também seleção e até defrontou Portugal.

Se o estado atual das coisas, que tornou o mundo num lugar mais difícil para viver, o permitir, no próximo dia 21 de abril o Hermann Neuberger Stadion, em Saarbrücken, viverá um dia especial como poucos, recebendo a visita do Bayer Leverkusen para uma das meias-finais da Taça da Alemanha. A disputar a Regionalliga Südwest o 1. Fußball-Club Saarbrücken repete pela quarta vez esta proeza, tal como sucedeu nas épocas de 1956–57, 1957–58 e 1984–85, agora depois de ter batido o Fortuna Düsseldorf nos quartos-de-final através do desempate por grandes penalidades (7-6, com 1-1 no fim do prolongamento).

Saarbrücken é, decidamente, uma cidade especial dentro de um estado especial da Alemanha, o Sarre, o mais pequeno da federação alemã se excluirmos os Estados-Cidade deBerlim, Bremen e Hamburgo, apenas 2750 quilómetros quadrados e 990 mil habitantes, mas com uma história de raízes profundas e muitas vezes confusa. Nascida em 1909, após a fusão de Saarbrücken, St. Johann e Malstatt-Burbach, é a sede de um clube que já foi herói de uma aventura rebelde quando, em 1947, se recusou a participar na Ehrenliga, um campeonato-fantoche que pretendia afastar os clubes da região do campeonato alemão. A partir do armistício que se seguiu à II Grande Guerra, o Sarre passou a ser um protetorado sob administração francesa. Orgulhosamente, o 1. Fußball-Club Saarbrücken decidiu disputar a IIDivisão em França, embora nessa altura o seu nome se tenha grandemente confundido com a seleção local que chegou a participar na qualificação para o Mundial de 1954, cuja fase final teve lugar na Suíça. Mas um mistério rodeia essa fase da vida do clube: os registos oficiais da Federação Francesa não imprimem o nome do Saarbrücken ao longo das 38 jornadas da prova e a tabela final só apresenta 19 participantes. Já as contas feitas pela Federação doSarre indica que o seu representante cumpriu 38 jogos, com 26 vitórias, sete empates e cinco derrotas, tendo chegado ao fim com 59 pontos. Subiram de divisão o Lens e o Bordéus, com 53. Pelos vistos os franceses não estiveram dispostos a ter um estranho a competir no seu principal campeonato. 

Foi também com um orgulho muito particular que os jogadores do Sarre se recusaram a representar a França. AFIFA, sempre disposta a compromissos, por bizarros que sejam (basta pensar como Israel é, no mundo do pontapé na bola, um país europeu) autorizou-os a ter uma equipa própria. Fenómeno que passou pelo futebol mundial como um cometa. Mas deixou rasto. 

Na Taça dos Campeões!
A importância económica do Sarre, com as suas grandes produções de carvão, foi motivo de desavenças entre franceses e alemães desde o tempo de Napoleão. Sofreu o clube terríveis pressões no período das duas guerras. Fundado em 1903, mesmo antes da nova nomenclatura da cidade que lhe deu berço, teve, por outro lado, momentos inesquecíveis como aquele em que foi convidado pela UEFA a participar na primeira edição da Taça dos Clubes Campeões Europeus, na época de 1955-56. Não poderia ter tido montra melhor: ficou-se pela primeira eliminatória (o Stade de Reims representou a França e Rot-Weiss Essen a Alemanha Ocidental), mas bateu-se bravamente contra os italianos do Milan, tendo conseguido, logo de entrada, uma estupenda vitória em San Siro, por 4-3. Werner Otto, um dos mais sonantes nomes do Saarbrücken de então, comentaria mais tarde: «Foi um período estranho. Eu jogava pelo clube e pela seleção doSarre e nem me questionava se me considerava um sarrebrucker ou um alemão. A política não me dizia nada. Queria era o futebol».

No dia 23 de novembro de 1955, os milaneses teriam a sua vingança, ganhando a segunda mão por 4-1. «Acho que eles nos subestimaram muito no primeiro jogo. Afinal tratava-se de uma equipa incrível, com os suecos Nordhal e Liedholm, mais oSchiaffino. Tínhamos qualidade mas, na verdade, éramos uns amadores com muito em que pensar. Eu era funcionário público, trabalhava na área das pensões. Precisava de autorização para jogar. Claro que o governo nos facilitava a vida. Afinal representávamos uma região e havia um orgulho especial a despeito de o poder estar basicamente nas mãos dos franceses. Davam-nos dias de férias a mais. Mas atenção: no mesmo ano recebemos o Real Madrid num encontro amigável e vencemos por 4-0!». Um resultado retumbante que trazia para as primeiras páginas o pequeno país que nem verdadeiramente país era.

Não é de espantar que o Saarbrücken fosse confundido frequentemente com a própria seleção do Sarre. Afinal do habitual onze titular que estava às ordens de Helmut Schön, uma figura ímpar do futebol germânico, treinador campeão do mundo em 1974 e vice-campeão em 1966, era composto em mais de 99% por jogadores do principal clube do Sarre, com os restantes a pertencerem aos desconhecidos SV Saar e Borussia Neuenkirchen. 

No dia 1 de maio de 1955, o Sarre estava em Lisboa. No Estádio Nacional, mais de vinte mil pessoas aproveitaram o feriado para verem um jogo muito especial. Portugal apresentou uma equipa B, tendo em conta a debilidade do adversário. José Pereira, Artur Santos, Mário Wilson, João Galaz, Monteiro da Costa, Vicente, Juca, José Pedro Biléu, Dimas, Francisco André e António Fernandes ficaram para a posteridade como alguns dos jogadores que defrontaram a seleção nacional do Sarre que só contou com 19 desafios durante a sua curta existência.

Tavares da Silva, um dos maiores jornalistas portugueses, esteve nessa tarde do Jamor. E escreveu sobre a equipa visitante: «Se o guarda-redes Strempel nos pareceu excelente, defendendo com segurança, houve alguns elementos que se destacaram. Assim, o médio-direito Bey, apesar dos seus 35 anos, o centro-dianteiro Binkert, o extremo-esquerdo Clemens, mostraram-se bons praticantes».

O resultado não deixou grandes dúvidas: 6-1 para os rapazes das camisolas dos cinco escudos azuis. Golos do portista Monteiro da Costa (aos 24 e 72 minutos), de José Pedro, avançado do Lusitano de Évora (32 e 41), do setubalense António Fernandes (66) e de André, do Belenenses (80). Binkert (27) fez o golo do Sarre.
Seis meses mais tarde, um plebiscito decidiu o o fim do protetorado. No dia 1 de janeiro de 1957, a aventura acabou. OSarre voltou ao seio da mãe Alemanha. Até hoje.