Sociedade

Ovar isolada para conter transmissão. “É preciso alargar testes”

Governo decretou calamidade pública em Ovar e avançou para cerca sanitária por haver risco de transmissão comunitária. Último cordão sanitário aconteceu há 120 anos, no combate à peste no Porto. 

O cenário que até aqui se tinha visto apenas fora de portas na resposta à Covid-19 tornou-se esta terça-feira realidade em Ovar. Com 30 casos confirmados no município, o Governo decretou o estado de calamidade pública e avançou para uma “cerca sanitária” em torno do município. Só estão permitidas as entradas de profissionais essenciais bem como o transporte de bens essenciais. E só poderão manter-se abertos ao público supermercados, padarias, farmácias, bancos e postos de abastecimento, mas também com as limitações de acesso que têm vindo a ser implementadas no resto do país. A população é aconselhada a permanecer em casa, mas não está proibida a circulação.
O anúncio deixou os ovarenses apreensivos mas há dias que os receios iam aumentando. Um dos primeiros casos confirmados na região Norte foi de uma jovem residente no concelho, seguiu-se o fecho de uma escola e de duas unidades de saúde, onde houve pelo menos sete profissionais de saúde infetados. No sábado Ovar tinha 10 casos confirmados e os números triplicaram desde então. “O que nos vai chegando é que há famílias inteiras infetadas”, disse ao i uma professora. 

A ministra da Saúde adiantou que há 440 contactos em vigilância. O Governo justificou a decisão, inédita na história recente do país, com o risco de transmissão comunitária e necessidade de combinar uma estratégia de contenção com mitigação, reduzindo os contágios também para proteger os serviços de saúde para o atendimento de casos mais graves.

Remontam ao final do século XIX os últimos “cordões sanitários”, o último no Porto, em 1899, para conter a peste bubónica. Uma medida que surpreendeu o mundo em Wuhan e que na semana passada foi recomendada pelo Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças como um dos cenários de resposta à Covid-19, para tentar conter a progressão do vírus. António Costa sublinhou que as medidas serão tomadas em função das necessidades e sublinhou que a decisão em Ovar resulta do facto de se estar perante a primeira localidade onde existe suspeita de transmissão comunitária. Nos últimos dias tem havido no entanto alertas para que sejam feitos mais testes no país para perceber se não existirão outras cadeias de transmissão ativas. Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, reiterou hoje o apelo. “Quando começarmos a testar de forma mais abrangente a população provavelmente iremos identificar mais casos”, disse.

Os planos para uma maior realização de testes já estão em marcha. A partir desta quarta-feira passa a funcionar no Queimódromo do Porto um ponto de recolha de análises para rastreio à covid-19. Só poderá deslocar-se a este local quem tenha sido referenciado pelas autoridades de saúde. Entradas e saídas serão controladas pela polícia e está prevista capacidade para realização de 400 testes por dia. Já Cascais vai ter um ponto de rastreio no centro de congressos de Cascais e outro na Cerci (Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas) da Rana . A informação sobre estes serviços tem sido definida localmente, não estando centralizada a informação geral à população sobre como vai passar a funcionar a resposta à doença. Mantém-se no entanto a recomendação para que o contacto inicial seja feito através do SNS24. O avanço para a instalação de pontos de rastreio tem motivado algumas críticas e levanta também questões sobre se será possível acompanhar a evolução da epidemia com diferentes modelos para a realização de análises. 

Esta terça-feira subiu para 448 o número de casos confirmados de Covid-19 em Portugal, dados referentes à meia-noite do dia anterior. Havia 323 pessoas a aguardar o resultado de análises e 6852 em vigilância por parte das autoridades, estando identificadas 19 cadeias de transmissão ativas. Dos 323 casos diagnosticados no país, 61 são pessoas que estiveram no estrangeiro, os chamados casos importados, um número que também tem estado a aumentar nos últimos dias. A maioria são casos ligados a Espanha (18), Itália (17) e França (13). Na sexta-feira, quando foi decretado estado de alerta, estavam confirmados 33 casos importados. O Governo decidiu o fecho de fronteiras com Espanha e os voos estão suspensos desde esta terça-feira. Os voos de Itália estão suspensos desde 10 de março. A União Europeia avançou hoje com a suspensão de voos de e para países fora do espaço da UE.

O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro, que adiantou que Portugal vai continuar a ter voos para países extracomunitários com forte presença das comunidades portuguesas, incluindo Estados Unidos, Canadá, África do Sul e Venezuela. O país mantém também ligações com os PALOP e duas rotas para o Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo). Até ao momento já foram repatriados 408 portugueses.