Internacional

Crise global não poupará Pequim e Washington

A troca de acusações entre os dois países não cessa, mas num mercado globalizado nenhum dos países se fica a rir.

A ‘guerra fria’ que o século XXI tem vindo a conhecer trava-se nos tabuleiros tecnológicos e económicos. O ‘braço de ferro’ entre Estados Unidos e China pelo domínio dos mercados e da informação conquistou um novo capítulo com a pandemia da covid-19, com repercussões (ainda) imprevisíveis. As tensões entre os dois países fazem-se notar, para já, nas trocas de acusações entre os representantes de cada Governo. A designação do novo coronavírus pela Organização Mundial de Saúde é  clara: SARS-CoV-2. Do qual resulta a doença covid-19. Mas Donald Trump insiste em designá-lo, a cada declaração, como o «vírus de Wuhan», numa referência à cidade chinesa onde tudo começou, ou «vírus chinês». A provocação é acompanhada de acusações da Administração norte-americana de uma alegada deficiente resposta inicial perante o surto por parte do rival. Por outro lado, a China continua a insinuar que os Estados Unidos estão diretamente implicados no surgimento da covid-19 no seu território. «As forças armadas dos Estados Unidos podem ter levado a epidemia para Wuhan», defendeu o porta-voz da diplomacia chinesa Zhao Lijian no Twitter. Pequim continua a insinuar que tudo poderá fazer parte de um plano de Trump iniciado com a ‘guerra’ tecnológica lançada contra a chinesa Huawei. 

 Pese a retórica, a verdade é que a economia global já não fugirá a um extraordinário impacto, a que China e os Estados Unidos também não vão escapar. O cenário remete para 2008, ano em que o PIB mundial caiu 2%. 

Paulo Rosa, economista do Banco Carregosa, alerta: «A projeção para o crescimento mundial este ano de 3,2% tem sido constantemente revista em baixa perante a escalada exponencial» do surto. «Este ano, o cenário de comportamento para as ações pode ser muito diferentes do que se esperava no início de 2020», diz ao SOL.

 Para Paulo Rosa, a crise que se adivinha vai ter o condão de «arrefecer» a ‘batalha’ entre os dois países, mas apenas por um curto período. «A globalização veio para ficar e as exportações chinesas,  já afetadas pelo conflito comercial com os Estados Unidos, ficaram ainda mais fragilizadas; por outro lado, «as empresas americanas (como a Apple), produzem significativamente na China e escoam quase toda a sua produção no mercado chinês». «É uma simbiose que se vive hoje a nível mundial, que esta crise pode arrefecer pontualmente, mas que daqui a alguns meses virá com mais força», anteve o analista.