Conta-me como vai ser

O outro lado da pandemia – a esperança!

Hesitar e protelar significa, tal qual aconteceu com as medidas de combate ao vírus, que, mais tarde sairá muito mais caro, económica e socialmente e, em muitos casos, já nada haverá para salvar ou recuperar.

A circunstância de vivermos numa época em que se atingiram os maiores avanços tecnológicos e científicos de sempre, e, apesar disso, revelarmo-nos impotentes para travarmos o coronavírus, dá que pensar e obriga-nos a uma profunda reflexão coletiva.

Esta calamidade ocorre, para nós, num espaço que tem como uma das regras fundamentais – a livre circulação e num mundo crescentemente caracterizado por uma mobilidade global nunca antes atingida.

Tudo o contrário do que se imporia para uma pronta reação (ou prevenção) a um vírus super contagioso.

A UE, bem como Portugal, a Itália e a Espanha, tardaram a descolar da filosofia da normalidade institucional, atrasando os controles sanitários de entradas nos portos e aeroportos e o restabelecimento de fronteiras.

Atrasos houve, igualmente, na aquisição de material de proteção, em especial dos profissionais de saúde, como revela a abertura de processos de aquisição de tais meios, em plena pandemia, na Europa e no país.

Dizemo-lo, sem qualquer intuito crítico, mas, antes, como alerta para o futuro, tanto mais que se admite uma segunda e, até, terceira vaga epidémica.

O país, tanto a nível das suas instituições, como do comportamento popular, no acatamento das orientações sanitárias, revelou uma maturidade notável.

A unanimidade partidária de apoio ao Governo neste duro combate e a ação convergente do Presidente da República, da Assembleia da República, do Governo e do Líder da Oposição conferem aos cidadãos a tranquilidade e a confiança indispensáveis em tão grave adversidade.

A devoção, a abnegação, a dádiva total dos profissionais de saúde, não só tornam imperdoável a falta de equipamentos de proteção, como fazem deles os Heróis deste traiçoeiro combate.

Todavia, as frentes são muitas e nenhuma pode ser descurada. A assistência às vítimas do vírus e as medidas sanitárias tendentes a prevenir a sua expansão constituem a primeira de todas as frentes, mas não a única.

Para além das muitas vidas que ceifa, a pandemia vai atirar o país e o mundo para uma das mais graves recessões de sempre.

A frente das consequências económicas e sociais tem de estar, também, e desde já, na primeira linha do nosso combate.

A este propósito é preciso dizer que as medidas anunciadas pelo Governo de apoio às empresas são manifestamente insuficientes e não são as mais adequadas.

O nosso tecido económico é dominantemente constituído por pequenas e médias empresas. Ainda que com critério e controle, é necessário apoiá-las, desde já, com largos milhões de euros a fundo perdido.

Hesitar e protelar significa, tal qual aconteceu com as medidas de combate ao vírus, que, mais tarde sairá muito mais caro, económica e socialmente e, em muitos casos, já nada haverá para salvar ou recuperar.

Repare-se na prontidão das medidas adotadas, neste domínio, nos USA e na Alemanha.

A UE, mau grado o desastre do último Conselho, tem agora a oportunidade única de reafirmação, adotando, com urgência, um plano arrojado de apoio aos E. M., lançando mão dos ‘cronobonds’ (emissão de dívida pública) em montante adequado à dimensão e gravidade da situação.

O Governo reforça-se eticamente, se, no plano interno, criar apoios imediatos às Regiões Autónomas. e se evitar discussões de inconstitucionalidade, como aconteceu a propósito do encerramento atempado dos aeroportos regionais.

É preciso tudo fazer para que à pandemia não suceda uma sociedade gravemente doente, por todas as suas sequelas, desde o isolamento à perda de vidas e ao desemprego.

As várias frentes de intervenção que a situação exige, impõem que, em articulação com as Universidades, com as Ordens e Departamentos Ministeriais, se crie uma entidade ‘ad hoc’, (Taskforce) super qualificada, (restrita), com os nossos melhores especialistas e académicos, para aconselhamento permanente do PR e do Governo.

Temos uma História que nos inspira e estimula a todos, em especial nas adversidades.

Não podemos esquecer a determinação do Marquês de Pombal, nem esta qualidade única de, a um tempo, sermos capazes de passar o Cabo das Tormentas, mas, também, o Cabo da Boa Esperança!

*Guilherme Silva, ex-deputado do PSD