Conta-me como vai ser

Resposta ao Pe. Anselmo Borges

As afirmações do Pe. Anselmo Borges são contrárias à doutrina católica. Decorrem de uma conceção como que desencarnada de catolicismo.

Para os cristãos, o mundo sensível é uma manifestação da bondade de Deus; no Génesis diz-se, depois de cada gesto criador de Deus: Deus viu que era bom. Justamente porque a criação é a expressão gloriosa de um Pai.

O catolicismo é a coroa desta conceção, a assunção plena do mundo sensível, da corporeidade. Assim, Deus encarnou, assumiu um corpo sensível – deixando-nos entrever que a criação é não apenas boa, mas que tem tal dignidade que Deus pode encarnar e viver sensivelmente. Por isso, talvez a maior glória do catolicismo seja a magnífica coerência entre interior e exterior, entre espírito, alma e corpo.

Não assim num artigo do Pe. Anselmo Borges (Missas ‘virtuais’: não juntos, mas unidos, 4.4.2020).

De forma explícita, devemos dizer que as afirmações do Pe. Anselmo Borges são contrárias à doutrina católica. Decorrem de uma conceção como que desencarnada de catolicismo, isto é, de uma conceção em que a religião aparece como uma ‘espiritualidade’ sem esqueleto, em que o Espírito não penetra irradiantemente a carne, numa glorificação heroica, transfigurante do mundo sensível; em que os Evangelhos ficam sem o sentido literal, para expressarem um sentido vagamente simbólico ou alegórico, como uma alma sem corpo. Retira a literalidade dos Evangelhos, retira a substancialidade da Eucaristia.

Não podemos neste espaço rebater ponto por ponto a argumentação do Pe. Anselmo. Por isso, vamos aonde trata da Eucaristia, coração do catolicismo, pois aí vem a desaguar o percurso do seu texto, como lança de Longino.

O Pe. Anselmo rejeita que a hóstia consagrada seja realmente Corpo de Deus, afirmando que Jesus, na Última Ceia, quis apenas dizer «isto sou eu, a minha pessoa, a minha vida entregue por vós», explicando que é esse o significado em hebraico da expressão «este é o meu corpo, este é o meu sangue». No entanto, se assim fosse, como poderiam os discípulos ter ficado chocados ao ponto de abandonarem o Mestre ao ouvi-Lo afirmar expressamente (Jo, VI, 22.69): «Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós», «a Minha carne é, em verdade, uma comida e o Meu sangue é, em verdade, uma bebida». Explica o Evangelista que, depois disto, os discípulos comentavam: «Como pode Ele dar-nos a comer da Sua carne?», «Duras são estas palavras! Quem pode escutá-las?» Este episódio não se entende, a não ser que as palavras de Cristo sejam o que são de facto, e não uma vaga alegoria que os judeus teriam achado natural… Até porque só aquelas palavras cumprem a promessa de Jesus de que ficaria connosco até ao fim dos tempos plenamente, pois está connosco em cada sacrário, em cada Eucaristia, em toda a Sua Realidade inseparável de Corpo, Sangue, Alma e Divindade, porque não foi sem corpo que Jesus ascendeu aos Céus, mas em Seu corpo glorioso, em Sua carne glorificada, transfigurada. Assim, no pão e no vinho consagrados, Jesus permanece exatamente o mesmo que nasceu num pobre casebre de Belém, viveu humildemente em Nazaré, anunciou o Reino de Deus, foi condenado, morreu e ressuscitou. Nunca nos abandonou em Sua plena realidade, embora escondido na aparência das espécies.

Dou a palavra ao Papa S. Paulo VI e ao Papa Francisco para refutarem eles mesmos aquela falsa conceção de Eucaristia:

«Esta presença chama-se ‘real’ […] por antonomásia, porque é substancial, quer dizer, por ela, está presente, de facto, Cristo completo, Deus e homem. Erro seria, portanto, explicar esta maneira de presença […], reduzindo a presença a puro simbolismo» (Mysterium Fidei, 41).

Por sua vez, o Papa Francisco, no início do seu pontificado, explicou a um grupo de crianças que ia receber a primeira comunhão: «Com a comunhão, [Jesus] dá-nos a força», «Ele vem a nós. Mas um pedaço de pão dá-nos tanta força?». «Nãaao», responderam as crianças, negando que se trate de um simples pedaço de pão: «É o Corpo de Cristo». O Papa Francisco explicou depois que o que está sobre o altar parece «pão, mas não é propriamente pão, é o Corpo de Jesus» (Paróquia Santa Isabel e São Zacarias, 26 de maio de 2013). Isto é fácil de ensinar aos ‘pequeninos’, mas muito difícil de ensinar aos ‘sábios’, a menos que, como ensina o Senhor, nos façamos crianças. E, então, como será depois da pandemia? Um católico que ame o Senhor realmente, como uma criança, correrá ao Sacrário, à Eucaristia, e não ficará em casa a assistir virtualmente ou a concelebrar de forma fantasiosa, pois:

 

Como o Veado suspira pelas
correntes das águas,
assim a minha alma suspira
por Vós, ó meu Deus.
A minha alma tem sede do Senhor, do Deus vivo.
Quando poderei eu chegar, para contemplar a Face de Deus?

Salmos, 42(41), 2-3

 

Pedro Sinde
Bibliotecário