Opiniao

Sinais dos Tempos

por Alberto Fial
Médico

“O Homem é o homem e a sua circunstância” 
O.G.

 

Pouco tempo depois de ser aliviada a “clausura viral”, as pessoas começaram a contactar de novo com a sociedade, e as notícias passaram a afastar-se dos hospitais e das morgues. Se até agora os meios de comunicação estavam monopolizados pela informação de mais algum doente em fim de vida que sucumbia ao peso de um virus, desta vez centraram-se no desaparecimento de alguém muito saudável, e no princípio da vida, mas que sucumbiu às mãos de quem a deveria proteger 

 

Como pode isto acontecer?

Fazendo uma analogia com a WW2 (um genocídio ocorrido há 75 anos), e reportando-me a alguns casos recentes, começa a ser preocupante a seguinte constatação: as pessoas mais normais são capazes dos crimes mais hediondos

-ao analizar a vida de alguns ditadores (entre os quais Hitler), verifica-se que até se transformarem naquilo que foram, não passavam de pessoas aparentemente normais. Por aquilo que eram antes não havia forma de prever o que vieram a ser depois pelo que apenas se poderá imaginar que seja alguma circunstância na sua vida que lhes tenha facilitado essa mudança de comportamento

-o mesmo se terá passado com as jovens que recentemente mataram, decapitaram e “semearam” o corpo de um pacato engenheiro informático no Algarve (não foi um acto precipitado como no caso do outro engenheiro informático do Caleidoscópio), nem sequer foi obra de abuso do mais forte sobre o mais fraco. Eram raparigas simples e aparentemente normais

-a filha adoptiva que matou a mãe, e “chorava” copiosamente o desaparecimento daquela que a salvou (não daquela que a abandonou), até parecia ter sentimentos normais de perda (algo que a mãe que afogou as filhas em Caxias não conseguiu fingir). Mas existem muitos outros cidadãos insuspeitos que mostram ser capazes de matar friamente, desde estranhos que não conhecem até aqueles a quem devem toda a vida, sem antes denunciar que poderiam fazer mal até a uma mosca

Desta vez foi alguém, também considerado normal na opinião da comunidade local, que decidiu praticar 3 actos que são totalmente conscientes e macabros, e que até causarão arrepio a muitos dos criminosos que enchem as prisões

-afogar ou asfixiar alguém não acontece de um golpe, como quem deixa cair uma faca ou toca no gatilho de uma arma sem querer. Requer persistência, força e muita crueldade

-abandonar um corpo, ainda por cima de uma filha, ao ar livre para ser comido pelos animais selvagens, revela total ausência de sensibilidade ou humanismo. Nem sequer permitiria à pobre criança a possibilidade de um funeral, se não a tivessem encontrado

-mentir à sociedade e à polícia, obrigando ao gasto de milhares de euros e a dias de trabalho da parte de agentes que deveriam estar noutras tarefas, é uma grande falta de respeito. É próprio de alguém que se diverte ridicularizando a sociedade que o protege

Se qualquer das pessoas que comete friamente crimes destes, viesse a conquistar por acidente a Oportunidade e o Poder que tiveram alguns dos ditadores ao longo dos tempos, talvez fosse capaz de fazer pior que eles. Por tudo isto deveria a sociedade fazer algumas reflexões:

-o que andarão as pessoas a consumir (meios de comunicação incluídos), que possa provocar esta ruptura mental com a noção de humanismo e responsabilidade. Isto resume-se unicamente a um acto isolado de alguém que nasceu louco, ou terá o meio social alguma “pequena” influência na macabra transformação destas pessoas (que nascem aparentemente normais)?

-merece este tipo de gente ser protegida pelos mesmos direitos que negam aos outros (inclusive aos mais frágeis e indefesos), e será que a existência duma Justiça “mole” é a melhor motivação para evitar crimes hediondos? Estas pessoas são capazes de cometer a loucura de pisar o risco da vida por uma insignificância qualquer, mas não deixam de ser capazes de pensar (e ser racionais), pois quando o fazem sabem que se forem apanhados a Justiça nunca irá pisar esse mesmo o risco

-quantas crianças de hoje (normais por enquanto) virão a transformar-se em cruéis assassinos no dia de amanhã, e o que terá de acontecer na sociedade para que cenários destes se repitam? Haverá forma de evitar que alguém simpático e popular, uma vez legitimado pelo Poder e controlo da Comunicação, volte a cometer as maiores loucuras com o ar mais normal deste mundo.

 

A Intolerância é só um sintoma

Há muitas coisas condenáveis na sociedade (apesar de insignificantes face a situações destas), mas às quais se dá demasiada atenção, alimentando muitos medos e receios, em nada comparáveis a estes “extremos” da falta de humanismo aos quais se deveria dar muito mais prioridade.

-há quem discrimine uma pessoa por ser diferente (seja mulher, cigano, muçulmano, alguém com mais melanina ou com preferências sexuais de cor diferente). Nem é preciso que mate, mutile ou agrida com base nessa diferença, basta que se vislumbre nele um indício discriminatório para que alguém o queira queimar na fogueira dos bons costumes, condenação pública que é apoiada pelos grupos que defendem as minorias, incitando nelas o ódio contra a sociedade em geral

-essa mesma sociedade é “contaminada” com o preconceito de que a humanidade pode estar em risco por causa destes pequenos delitos de intolerância, que até são transversais pois existem em todas as cores, raças ou géneros e por vezes dentro da própria família. Ignorando-se que a grande maioria dos cidadãos até convive bem com a diferença, embora não seja politicamente rentável valorizar mais a tolerância do que o seu contrário (o escândalo parece valer mais que o exemplo)

-mas quando alguém igual, comete uma barbaridade destas a um ser que descende do seu próprio sangue, então essa pessoa é capaz de todas as intolerâncias (por mais pequenas que sejam as suas diferenças), ou seja poderá matar quem quiser e lhe apetecer por “dá cá aquela palha”. E isto não é exclusivo de uma raça, côr, religião ou género sexual, pois acontece em todas elas como sinal de que a degradação dos valores humanos tem mais a ver com factores ambientais do que genéticos

No ar fica uma questão crucial, se a intolerância fosse sempre uma consequência das pequenas diferenças entre seres da mesma espécie (humana), então os crimes hediondos nunca deveriam existir entre seres iguais e do próprio sangue, pelo que o problema terá de estar mais centrado na doença do que no doente. E a sociedade tem de estar ela própria doente para que actos deste tipo sejam possíveis e frequentes, e tudo o que exista daí para baixo não constituirá admiração

 

As circunstâncias também transformam o Homem

O Homem (conceito genérico para ser humano) é um “animal social”, e tanto pode transformar-se num “monstro” por influência do meio que o rodeia, como pode regredir ao posto de “homem das cavernas” se for obrigado a estar fechado (em isolamento). Alguém que é capaz de matar a sua própria descendência, não é testemunho de que a intolerância seja causada pela diferença ou de que o “crime” de discriminação é consequência do contacto social entre pessoas diferentes

-há etnias que se desentendem aos tiros enquanto outras é à navalhada, mas esses incidentes só são valorizados mediáticamente quando existe uma diferença racial, forçando a suposição de que os conflitos nascem da diferença e de que não existem entre iguais

-há mulheres e crianças que são sujeitas a violações ou maus tratos dentro dos mesmos grupos culturais, mas em que se omite essa coincidência pelo mesmo motivo com que se fariam grandes manchetes de racismo e xenofobia, se tal acontecesse entre grupos diferentes

-há pares de pessoas do mesmo género sexual que se eliminam de forma macabra e antropófaga, mas ao qual não se dá a mesma cobertura que se daria para acentuar um crime menor com base numa rejeição ou intolerância sexual

 

A Sociedade estará a criar “monstros”?

Como conclusão, e analisando esta universalidade dos crimes, creio que é tempo de deixarmos de nos “isolar” nas pequenas diferenças (os maus são os outros), e assumir que a sociedade pode ter um grande problema, que é transversal e pode ultrapassar todos os limites, até o da intolerância. Todas as raças, credos ou géneros sexuais, deveriam unir-se e considerar que algo vai mal na mesma sociedade multicultural em que vivem, e todos são vítimas disso. Quem faz isto ao seu semelhante, também o fará a quem é diferente e isso não prova que é a diferença que causa os males que existem na humanidade, embora possa servir de desculpa para os justificar

Os grupos político-partidários que pretendem promover-se defendendo minorias, através do exagero de incidentes de intolerância entre cidadãos diferentes, ignoram aquilo que está na base dos comportamentos anti-sociais. O mundo em que vivemos, a educação que recebemos ou até a cultura que nos envolve (sobretudo a televisionada), exercem influências que podem originar com muita “normalidade” comportamentos de aniquilação, nem que seja por um desgosto amoroso ou um ajuste de contas conjugal. Essa “normalidade” é comum a todos os grupos sociais e todos se deveriam unir para a evitar (em vez de querer tirar dividendos da luta pela defesa das minorias), pois se a sociedade estiver doente isso irá traduzir-se a todos os níveis, desde as maiorias até às minorias, e a intolerância será apenas um pequeno“sintoma” de uma grande doença

É bom que os seres humanos façam alguma coisa pelo seu semelhante, apesar das diferenças que nos unem (somos todos da raça humana afinal), para evitar que tenhamos medo de conviver uns com os outros. Começa a ser preocupante que nas sociedades supostamente modernas e muito desenvolvidas, com partidos e movimentos de todas as cores, o ser humano comece a preferir partilhar a sua vida com um animal diferente, do que com alguém da sua própria espécie (ainda que da mesma cor, raça ou género). Em vez de nos unirmos em torno das pequenas diferenças que rodeiam o “umbigo” dos nossos interesses, deveríamos pensar nas grandes soluções para as causas que “contaminam” o ambiente em que todos vivemos. A sociedade está cada vez mais centrada no sucesso pessoal do que no conceito de família ou de comunidade (multi-cultural há muitos séculos em Portugal), e alguma “pandemia social” estará a infectar-nos a todos, para que fenómenos destes vão crescendo e criando repulsa pelo nosso próximo.

É na cultura (que é mutável) e não nas diferenças físicas (que são sempre as mesmas), que se tem de encontrar a solução para o mal que está a mudar a sociedade, levando-a a criar “monstros” de todas as cores e feitios. E esse mal não entra pelas mãos (como as viroses), mas por aquilo que “vemos ouvimos e lemos” na escola, na rua ou em casa.

O isolamento não ajudará muito, mas a televisão ou a comunicação virtual em exagero também não são boa companhia e podem até actuar como uma “droga” que nos transporta para realidades alienígenas, que nos fazem ver os outros seres como peças descartáveis da nossa “circunstância”, ainda que sejam iguais a nós. Nada do que esta criança tenha feito (ou testemunhado) seria motivo para um silenciamento, pois a vida de alguém não é um jogo onde se possa fazer “reset” e voltar ao início, só uma mente muito deturpada poderá pensar assim. Espero que a Justiça normal não faça descontos por esse motivo, permitindo a possibilidade duma segunda série, para que outros não sonhem com o que este fez.