Pátio das Cantigas

O tabu desfeito em roda livre…

Ao tirar este ‘coelho da cartola’, Costa apoderou-se da candidatura de Marcelo, deixando Rui Rio apeado.

O tabu de Marcelo Rebelo de Sousa, se alguma vez existiu, ‘morreu na praia’ em Palmela, durante a visita ‘tradicional’ que fez à Autoeuropa na companhia de António Costa.

Ao ouvir-se o primeiro-ministro ‘patrocinar’ a candidatura de Marcelo ao segundo mandato presidencial numa fábrica de automóveis e num cenário aparentemente menos propício a tal desiderato, confirma-se a vocação de António Costa para privilegiar o mundo a ‘quatro rodas’.

Primeiro, foi em 2015, quando apresentou como solução de governo a ‘geringonça’, pronta a usar – livrando-se de previsíveis sarilhos na ressaca do desaire eleitoral. Agora, ei-lo que volta às ‘boxes’, já com ‘corredor’ escolhido, antes ainda de saber-se quem alinhará na ‘grelha’ de partida para Belém.

Habituados à austera sobriedade germânica, os gestores da Autoeuropa têm razões de sobra para se congratularem com estas empenhadas visitas oficiais, de protocolo aliviado.

Falta saber se a originalidade fará escola. Não é todos os dias que o ambiente fabril serve de ‘rampa de lançamento’ de um segundo mandato presidencial, graças ao medido ‘deslize’ de António Costa – que Marcelo, aliás, amparou, em jeito cúmplice, ‘retribuindo’ com a vergasta em Mário Centeno, de ‘candeias às avessas’ com o primeiro-ministro por causa do Novo Banco. Foi um dia em grande na Autoeuropa…

(A propósito do Novo Banco, herdeiro do colapso do BES, alguém saberá explicar quando tenciona a Justiça portuguesa sentar no ‘banco dos réus’ os responsáveis por essa hecatombe financeira que os contribuintes continuam a pagar, direta ou indiretamente? Ou iremos assistir a mais expedientes dilatórios, como na Operação Marquês, cujo debate instrutório ainda não terminou, faltando saber se José Sócrates e mais de duas dezenas de arguidos irão ou não a julgamento?).

A relação política entre Marcelo e Costa, que já era pautada por um notório espírito de entreajuda e de ‘pronto-socorro mútuo, ganhou nova dimensão, embora a ‘parceria’ tenha antecedentes.

Por alguma razão, com a coerência que o caracteriza (bem demonstrada no episódio das máscaras no Parlamento, ora tira, ora põe…), Eduardo Ferro Rodrigues concluiu que há entre as figuras de Estado «um trio que funciona bem», incluindo-se como parte, depois de recordar que, há um ano, já tinha afirmado que «se [as eleições] fossem amanhã, não tinha dúvidas» em votar em Marcelo.

É um voto tão incondicional que ‘arrasa’ qualquer outra alternativa, para desespero de Francisco Assis – rendido a Ana Gomes, vá lá perceber-se porquê, e empenhado em recolher apoios no interior do PS.

Os ressentimentos nunca foram bons conselheiros, e Assis tem experimentado esse fel, em ‘rota de colisão’ com António Costa. Perdeu o lugar de eurodeputado e nem sequer foi tido nem achado nas listas para S. Bento.

Não parece estar fadado para ter melhor sorte com a ideia de Ana Gomes, porquanto, como enfatizou Costa ao contextualizar o seu gesto na Autoeuropa, «não é preciso ser vidente» para saber quem vencerá as próximas presidenciais.

Uma evidência que caiu mal ao histórico Manuel Alegre, pouco afeito a ‘ler’ estes sinais, porventura ainda não refeito da derrota sofrida em 2011 perante Cavaco Silva, que lhe custou cara. Em contramão, achou que o apoio de Costa a Marcelo «foi um jogo político, uma brincadeira…».

O certo é que, com este ‘golpe de asa’, Costa travou qualquer veleidade do PS em discutir o perfil de um candidato próprio, quando tem outro, por acaso distanciado da direita e da sua família partidária original, com popularidade imbatível – a julgar pelas sondagens – e que acolhe de bom grado o companheirismo socialista.

Ou seja: basta ao PS rubricar o consenso pré-existente, por muito que custe a Assis, a Alegre e a outros. Ferro tem razão: o ‘trio’ funciona…

Ao tirar este ‘coelho da cartola’, Costa apoderou-se da candidatura de Marcelo, deixando Rui Rio apeado. Este, ou inventa outro candidato presidencial para o PSD garantir ‘tempo de antena’ – adotando a prática seguida pelo PCP ou Bloco de Esquerda – ou marcha ao lado de Costa, limitando-se a segurar no andor de Marcelo.

Depois de se ter ausentado da oposição, a pretexto de que criticar o Governo em tempo de pandemia «não é patriótico», Rio não encontrou melhor do que reprovar as magras vitualhas concedidas à comunicação social em dificuldades.

O líder do PSD tem um problema não resolvido com os jornalistas, desde que foi presidente da Câmara do Porto. Nunca ‘emendou a mão’ e, sempre que pode, não esconde o seu azedume.

O ‘músculo’ serve-lhe para ‘malhar’ nos media, um fraco consolo. Mas em sabedoria política não se livra da subalternidade, errático na oposição, por feitio ou falta de arte. É um vazio antigo.