Cultura

José Cutileiro. O diplomata que não ia em balelas

Desapareceu, no melhor dia para se morrer, aos 85 anos, o embaixador, antropólogo e escritor José Cutileiro. Um homem que tinha a sua colher de pau no tacho em que a História da Europa e do mundo das últimas décadas borbulhavam. Ele ia mexendo e provando e, fosse nas suas crónicas, fosse no terreno global enquanto diplomata, dava-nos o benefício de uma leitura desiludida e cética, mas lúcida, permitindo a Portugal figurar o seu papel nessa grande corrente que coze eternamente ao lume onde os destinos comuns se ligam aos movimentos transformações no plano político.

 

Talvez seja possível encontrá-lo algures ainda afundado num sofá, entre dois goles de whisky, sem saber a notícia, essa que ele mesmo ajudou a aveludar quando se tratava dos outros, e o fazia com uma delicadeza apressada, encavalitando factos, nesse gosto da pena que corre, preferindo a vírgula ao ponto, até para esquivar-se a ter de reforçar essa enormidade que se exprime de forma tão sucinta. José Cutileiro se calhar não foi informado ainda de que morreu. Não é da nossa cultura, como ele bem viu, ter esse livro de ponto em dia, fazer o registo de uma forma sóbria mas atenta, com margem para a justiça dessas precisões que fazem sobressair algum contributo especialmente notável. Da década e meia que passou em Inglaterra, habituou-se a ler as colunas de óbitos, e percebeu como funcionava como uma espécie de registo notarial a favor da memória. Antropólogo, diplomata, escritor, José Cutileiro morreu no dia 17 de maio, aos 85 anos, em Bruxelas. Fora hospitalizado há uns dias, e, ao anunciar a sua morte, a mulher, Myriam, adiantou que vinha sendo tratado a doença prolongada. Há quase meio século, publicara no suplemento A Mosca, do Diário de Lisboa, uma crónica que se intitulava Morrer ao Domingo. Nela contava como escutou certa vez, num restaurante, a conversa entre dois ingleses, em que um deles explicava que o melhor dia para morrer é o domingo, «porque se você morrer num domingo as ações que fizerem parte do seu espólio, para efeitos de direitos de transmissão, podem ser avaliadas pela cotação de sexta-feira ou pela cotação de segunda-feira». E o cronista apreciou esta forma de encarar a morte “como simples estratagema fiscal” e aquela outra que se nos impõe, de forma mais ou menos persistente, como uma mosca, uma forma de acosso, a lembrar-nos do «grande, do horrível absurdo». Cutileiro afirmava, então, que «esbracejando, à procura de consolações e de certezas, as metafísicas e as religiões do mundo dispõem-se entre estes dois extremos». Talvez já nem se lembrasse da crónica, mas ao desembarcar a um domingo, este homem que sempre apreciou a forma como o recorte literário aguça os aspetos irónicos numa existência tantas vezes desprovida de outro balanço, talvez ainda se risse disto. Ele que apreciava Eça, que o considerava o melhor dos cultores desta língua, e que, como ele terá gastado noites preparando frases, dessas que tem a dose certa de profundidade e beleza, sem provocarem, no entanto, excessivo alvoroço. E se a sua carreira como embaixador mereceu já a justa atenção, há na sua intervenção pública uma marcada relação com o detalhe, esse que aprendeu a ler e tornear enquanto escritor. Miguel Esteves Cardoso fez questão de o homenagear nesse aspeto, notando que «só escrevendo é que ele pôde partilhar o que viveu, pensou e sentiu». O sucesso do seu desempenho enquanto diplomata também terá ficado a dever alguma coisa a essa capacidade crítica. De resto, como vincou o primeiro-ministro António Costa, além de ter acompanhado de perto transformações importantes que ocorreram no plano político e social nas últimas décadas, «José Cutileiro ajudou-nos sempre a compreender, com grande lucidez, o movimento da História e o papel de Portugal». E para isso é útil esse cuidado que se tem em burilar e repolir a frase de modo a que a forma chegue a sugerir «um mármore divino com estremecimentos humanos». «Em Portugal todos nós opinamos e intervimos e dizemos o que pensamos. Cutileiro conta», assume Esteves Cardoso. «Conta tratando a vida dele como uma arca da qual só tira os melhores bocados. Tem uma memória deliciosa que junta verdades e prazeres, pormenores e pensamentos, poesia e prosa, observações e arroubos». Em declarações ao Público, Bernardo Futscher Pereira, atual embaixador em Rabat e chefe de gabinete nos três anos em que Cutileiro foi secretário-geral da União da Europa Ocidental (UEO), lembra como ele «tinha uma atenção particular aos pormenores e à psicologia» e «um sentido de análise agudo, penetrante e cético - dissecava as situações como se tivesse um bisturi: era um diplomata de no bullshit, não era de circunlóquios, às vezes com uma certa brutalidade». Futscher Pereira adianta que nesses anos na UEO, assistiu «com prazer» ao seu «estilo ‘let’s cut the crap’, um estilo incisivo, irónico, cortante, de pôr as pessoas no devido lugar». É um pouco o método que se ensaia no convívio literário, onde é preciso olhar a frase na cara, ver se o aguenta ou se se desfaz. Se os olhos lhe fogem, se piscam nervosamente. Há que tê-la experimentado ainda na armação da boca, a ver o incómodo que causa, e comparar, depois, com a forma como canta cá fora. A isto associava uma memória prodigiosa, «uma memória que até a ele próprio espantava», assegura Fernando Andresen Guimarães, embaixador reformado que se cruzou com ele em Londres. «Era capaz de citar tudo o que tinha lido, sabe Deus quando, em inglês, francês ou português», acrescenta em entrevista ao Público.

O Presidente da República não deixou de integrar o coro que seguiu a despedida do «magnífico diplomata». Para Marcelo Rebelo de Sousa, havia nele, apesar de tudo, aquela marca da inconformidade que uma visão de largo espetro, bem amarrada culturalmente, sempre anima. E elogiou a mordacidade da escrita de Cutileiro, referindo-se à sua capacidade para «contar a sua vida e a vida dos outros e analisá-las de forma, por vezes impiedosa, mas lúcida e inteligente».

 Também Durão Barroso, que o teve como seu conselheiro político quando, em 2005, assumiu a presidência da Comissão Europeia, destacou a vertente intelectual na forma como se ocupava das funções diplomáticas, e descreveu-o como «um cético e pessimista antropológico», deixando, no entanto, a ressalva de que a sua visão desiludida sobre Portugal, a Europa ou o mundo foi muitas vezes uma leitura para o era empurrado pelo exame sério do desenrolar dos acontecimentos. Vale a pena, de resto, recordar um balanço da sua experiência enquanto diplomata, publicado em junho do ano passado, no seu Bloco-Notas, no blogue Retrovisor: «lembro-me de ter achado de vez em quando que quem mandava em nós - os nossos chefes políticos - abundava nesses atributos pelintras porventura impostos pela miséria da pátria (várias bancarrotas desde o liberalismo monárquico até à república de Abril, sempre vistas como pecaminosas por protestantes do Norte). A visão do saguão e o instinto da porta de serviço não são manhas de pobre - essas também por cá as temos - são, por assim dizer, coordenadas cartesianas do modo subalterno de viver».

Nascido em Pavia, distrito de Évora, a 20 de novembro de 1934, era irmão do escultor João Cutileiro, três anos mais novo. O pai era médico, um homem educado, com opiniões fortes, republicano e laico, não tinha como engolir o regime salazarista, essa forma aberrante de sujeição, e, porque no país estava como numa «terra inimiga», tendo sido impedido de ensinar na Faculdade, optou por deixar o país para integrar a Organização Mundial de Saúde (OMS), levando mulher e filhos. Assim, depois de, com três anos, Cutileiro ter deixado o Alentejo pela capital, na sua adolescência passou três meses na Suíça, esteve algum tempo na Índia, e seis meses no Afeganistão, onde o pai foi colocado como professor na Faculdade de Medicina de Cabul pela OMS. Isto levou a que, em 1952, tenham sido os primeiros cidadãos portugueses, de que há registo, a viver no Afeganistão. Depois voltaram para Portugal, de onde José Cutileiro voltaria a sair com vinte e poucos anos, para estudar Antropologia Social em Oxford. Antes, tinha-se inscrito e abandonado os cursos de Arquitetura e Medicina em Lisboa, e foi só em Inglaterra que encontrou um rumo, atribuindo à já referida universidade essa influência decisiva, tendo-o ensinado a pensar. 

Jorge Sampaio, seu amigo desde os tempos de infância, também lhe prestou homenagem, notando que «José Cutileiro teve um percurso intelectual extremamente original, aliando uma formação científica e humanística, que o definia de forma muito particular, com uma imensa cultura, grande independência de análise e juízo, um apurado sentido de humor e uma exigência de rigor que estava presente em tudo o que fazia ou dizia». Para o ex-presidente da República, foram essas qualidades que levaram, depois, Mário Soares a encorajá-lo «a abraçar a diplomacia», «na certeza de que esta e Portugal sairiam enriquecidos com o contributo de Cutileiro».

Entretanto, em 1971, surge o seu principal contributo como antropólogo, tendo publicado a tese que depois seria condensada no livro Ricos e Pobres no Alentejo, uma obra de referência que continua a ser estudada nos cursos de Antropologia. Depois de concluir o doutoramento, Cutileiro deu aulas na London School of Economics (1971-1974), até que, com a revolução do 25 de Abril, chegou o convite de Soares para assumir funções diplomáticas, tendo começado como adido cultural da embaixada de Portugal em Londres. Depois de, inicialmente, ter encontrado a resistência dos diplomatas de carreira, por ter passado à frente da fila ao ser contratado como escolha política, e sem se submeter ao concurso de admissão ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, rapidamente foi promovido a embaixador. E, no entanto, acabou por conquistar a estima e a admiração dos colegas, sendo que, como sublinhava Bárbara Reis no Público, foi como «exemplo da profissão» que foi lembrado na hora da sua morte, tanto à esquerda como à direita e por diferentes gerações. É de notar, aliás, que talvez seja o facto de ter sido escolhido, em atenção às características pessoais que o tornavam indicado para a função, que o distinguiu de tantos desses que trepam, e se sustentam à custa de pequenos cálculos. Havia nele o desassombro de quem pode dar-se ao luxo de se estar nas tintas, ou de, pelo menos, e como indicou Futscher Pereira, ser aquele diplomata que «não se deixa impressionar», que tem até uma frieza aristocrática, uma temperatura de sangue bastante regular e que não gela por tudo e por nada. E, assim, numa entrevista ao SOL, em novembro de 2017, citava Cyrano de Bergerac: ‘Grimper par ruse au lieu de s’élever par force? Non, merci!’ [‘Escalar à custa de enganos em vez de ascender pela força? Não obrigado!’]

Cutileiro entendia a tarefa confiada aos diplomatas é de uma importância decisiva, pois, como lembrava naquela mesma entrevista, «a alternativa à diplomacia é a guerra». Tendo acedido ao cargo de embaixador em 1978, a sua primeira representação é no Conselho da Europa, passa depois por Maputo, mas foi a sua transferência para Pretória (África do Sul), em abril de 1989, que pela primeira vez o põe diante de um quadro de convulsão que lhe permitiu dar provas do seu faro político, tendo chegado ao posto nove meses antes da libertação de Nelson Mandela, quando a oposição ao regime que impôs o apartheid ainda era perseguida. A sua proposta foi que a diplomacia portuguesa se antecipasse ao desfecho que já se previa, e falasse com os líderes negros. Isso possibilitou que, 17 dias após a libertação de Mandela, Cutileiro tenha sido dos primeiros embaixadores a ser recebido pelo futuro Presidente da África do Sul. Mas se Cutileiro é tido como uma das figuras centrais da diplomacia portuguesa isso deve-se sobretudo por ter coordenado a Conferência de Paz para a ex-Jugoslávia, em 1992, e por ter sido secretário-geral da UEO, em 1994, a aliança militar europeia para a qual Portugal entrou quatro ano antes, com Cutileiro a negociar os termos da adesão. São apenas dois momentos que se destacam numa longa carreira diplomática, que fizeram dele um dos mais sagazes intérpretes da situação internacional. Mas, por mais largos que fossem os seus horizontes, Portugal era ainda onde gostaria de ter acabado os seus dias. Quanto a Bruxelas, onde vivia há anos, porque a mulher trabalhava na Comissão Europeia, como redatora de discursos para Jean-Claude Juncker, falou da cidade na entrevista ao SOL numa mostra de apreço que diz mais sobre o seu rasgo, a sua franqueza apaixonante, afirmando que se trata de «um sítio admirável para todos os gostos». E explicava: «Aquilo foi inventado para se viver bem. Você quer um bom encadernador, tem um bom encadernador. Quer boa música, tem boa música. Aquilo tem tudo. Não tenho taras especiais, mas presumo que se gostasse de sodomizar pavões arranjaria um senhor que trataria disso».