Cultura

Ocidente: Da superioridade à autoflagelação

Por que se comprazem tanto os ocidentais com o auto-amesquinhamento? Alexandre del Valle procura as causas e as consequências deste comportamento num ensaio corajoso e provocador.

Devemos pedir desculpa por quem somos? Devemos carregar aos ombros o peso dos pecados dos nossos antepassados ou dos nossos semelhantes? Devemos envergonhar-nos ou penitenciar-nos pelo curso da História?
Jean-Paul Sartre acreditava que sim. O filósofo francês considerava-se «tão profundamente responsável pela guerra como se eu mesmo a tivesse declarado [...]. Carrego sozinho o peso do mundo».

A frase é citada por Alexandre del Valle no seu livro O Complexo Ocidental – Pequeno Tratado de Desculpabilização, recentemente editado em Portugal pela Casa das Letras. Del Valle apresenta o teórico do existencialismo como um dos «pessimistas profissionais» que contribuíram para minar a autoestima europeia. No prefácio que escreveu para o romance anticolonialista de Frantz Fanon Les Damnés de la Terre, Sartre ia ainda mais longe: «Abater um europeu é matar dois coelhos de uma cajadada, é suprimir ao mesmo tempo um opressor e um oprimido; sobra um homem morto e um homem livre». Mas será necessário, para respeitar e dignificar o Outro, proceder a este ritual de auto-humilhação?

Em O Complexo Ocidental, Del Valle tenta – à imagem do que faria um psicanalista civilizacional, acaso essa especialidade existisse – sentar o Ocidente no divã para identificar as causas deste mal-estar insidioso. A sua tese é apresentada logo nas primeiras linhas:«Verdadeiras patologias sociais, a ideologia do ódio de si e a depressão coletiva que daí decorre são bem mais perigosas para o Ocidente do que qualquer outro tipo de perigo, interior ou exterior, pois acabam por fazer com que este perca progressivamente as suas defesas imunitárias. A autoflagelação que leva a censurar sistematicamente o seu próprio campo – apresentado como culpado e mau por natureza –, para em seguida defender o campo adversário – ornado de todas as virtudes ou apresentado como vítima –, assemelha-se a uma verdadeira guerra psicológica contra a sua própria coletividade».

De facto, os complexos de superioridade de outrora, quando o homem branco se julgava o vértice da Criação, transformaram-se muito rapidamente em declarações convictas de inferioridade. Del Valle cita o advogado franco-israelita Gilles-William Goldwell, para quem «a obsessão do antirracismo dos anos 2000 substituiu muito simplesmente a obsessão da raça de 1930». E do outro lado do Atlântico, o realizador militante Michael Moore consagrou, com o seu filme homónimo, a expressão ‘stupid white man’.

Os inimigos de Del Valle
Jornalista e comentador franco-italiano nascido em Marselha em 1968, Alexandre del Valle não é uma figura consensual. A sua área de especialização é a defesa e a segurança, mas derivou os seus comentários para a geoestratégia, a ameça islâmica, a ‘cristianofobia’ e o politicamente correto.

As suas posições conservadoras granjearam-lhe numerosos inimigos e detratores. Um antigo professor descreveu-o como «incontrolável». Em 2002, um artigo no Le Monde dizia que Del Valle tinha aparecido «do nada» – o próprio refere-se a esse episódio como «um linchamento mediático» que envolveu também o Canal +.

Após a apresentação da sua tese – a que junta uma reflexão sobre como as instituições europeias, ao invés de constituírem um fator de coesão, contribuem para sabotar as fundações sobre as quais assenta a própria sociedade do Velho Continente –, Del Valle propõe uma incursão pela história, começando pelas conquistas muçulmanas no século VII e as cruzadas. Como um advogado, tenta refutar como ‘mitos’ muitos dos crimes de que o homem branco é acusado. «Esses principais mitos são os seguintes: O Ocidente é ‘racista’, ‘esclavagista’, ‘islamófobo; ‘destroi o planeta’, é ‘imperialista’, ‘humilhou’ os árabes, os muçulmanos e todo o terceiro mundo com as cruzadas e a colonização. A sua Igreja, por excelência católica romana, ‘oprimiu os povos indígenas ‘convertidos à força’, de África às Américas passando pela Ásia. Instaurou a ‘tortura’ e matou obstinadamente em nome do Cristo através da Inquisição»... Nem sempre é convincente na sua tentativa de relativizar, desculpabilizar ou ‘branquear’ – se a palavra é permitida – erros e atrocidades comprovados. Aqui, porventura seria mais proveitoso elencar as virtudes ao lado dos vícios, as qualidades e os defeitos, pesar as boas e as más ações, e chamar a atenção para uma tendência perniciosa para selecionar cuidadosamente os segundos (vícios, defeitos, más ações) e esquecer ou ocultar os primeiros. Como dizia um conhecido intelectual português:«A areia é composta por grãos pretos e grãos brancos. Se eu selecionar só os pretos e os for mostrar a alguém, posso convencer essa pessoa de que a areia é preta».

O veneno da crítica extrema
A reflexão de Del Valle sobre o Ocidente aplica-se especialmente ao caso português, onde ano após ano o Presidente é criticado por não pedir desculpa pelo esclavagismo e pela violência da Expansão no discurso do 10 de Junho. Não é por acaso que, numa das páginas iniciais, o autor cita uma entrevista ao Expresso em que Eduardo Lourenço dizia que «levamos a crítica ao extremo».

«Quando uma nação se condena pela boca dos seus próprios filhos, é difícil, se não impossível, descortinar o futuro de quem perdeu por tal forma a consciência da dignidade coletiva», escreveu o historiador Oliveira Martins. 

 A dúvida sistemática, a capacidade para colocar-se em causa, a autocrítica, têm raízes profundas na nossa cultura. E constituem precisamente uma das razões por que temos tanta sorte em viver numa democracia de tipo ocidental. É graças a isso que uma figura como Michael Moore pode criticar o Presidente americano em público sem sofrer consequências.

Mas, em excesso, esta consciência crítica funciona como um veneno que, em vez de produzir o aperfeiçoamento, conduz lentamente à desistência, à depressão, ao masoquismo, no limite, ao suicídio coletivo. Ou talvez não tão lentamente assim.