Internacional

Twitter não apaga mentiras do Presidente dos EUA sobre "Joe Psicopata"

Trump difunde acusações infundadas de homicídio e, depois de apelos, Twitter não apaga publicações. Chefe da Casa Branca ameaça encerrar redes sociais depois de o Twitter ter assinalado uma publicação sua com uma ligação para verificar a veracidade das suas afirmações. 

 

Nada como carregar a fundo no acelerador da desinformação e das teorias da conspiração numa rede social para desviar as atenções das quase 100 mil mortes causadas pelo novo coronavírus nos Estados Unidos, o maior registo do mundo. O chefe da Casa Branca, Donald Trump, está a ultrapassar os seus próprios patamares e o Twitter vê-se envolto na polémica.

Após imensas críticas, à empresa de Silicon Valley, de nada fazer para impedir a propagação de informação falsa por parte de líderes políticos, o Twitter fez uma coisa inédita na noite de terça-feira: assinalou uma publicação do Presidente norte-americano, incitando os utilizadores a verificarem a veracidade das suas afirmações. 

Tratava-se de uma publicação em que Trump afirmara que o voto por correio ia ser “substancialmente fraudulento” e o Twitter encorajou os seguidores do homem que ocupa a Sala Oval a clicarem num link que levava a artigos do Washington PostCNN The Hill que verificavam as suas declarações.

Trump ripostou e ameaçou encerrar o Twitter, continuando o azedume dos últimos dias com Silicon Valley, uma região a sul de São Francisco onde estão sediadas muitas empresas tecnológicas (nomeadamente, as redes sociais), conhecida por ser o centro global do empreendedorismo e do capital de risco. 

“Os republicanos sentem que as plataformas das redes sociais silenciam as vozes conservadoras. Vamos regulá-las fortemente, ou mesmo encerrá-las, antes que possamos permitir que isto aconteça”, escreveu o Presidente. “O Twitter está a agora a interferir nas eleições presidenciais de 2020”, acusou Trump noutro tweet, acusando ao mesmo tempo a CNN e o Washington Post “da Amazon” (Jeff Bezos é dono do diário) de propagarem fake news. 

A polémica está a descer ainda mais fundo devido a outras acusações infundadas de Trump na mesma rede social: atirou para o ar insinuações de homicídio durante o último fim de semana. O alvo foi Joe Scarborough, republicano crítico do Presidente que tem um programa na estação MSNBC, Morning Joe. 

“Quando é que abrem um Cold Case ao Joe Psicopata pelo que aconteceu na Florida? Será que conseguiu ficar impune? Algumas pessoas acham que sim”, foi uma de várias acusações que o homem que dirige o país mais poderoso do planeta lançou contra Scarborough no Twitter. “Cold Case” refere-se à série norte-americana Casos Arquivados, que retratava dois detetives que reabriam casos antigos. Em relação às acusações de assassínio, Joe Scarborough foi congressista da Florida. Em 2001, uma assistente sua de 28 anos, Lori Klausutis, morreu no escritório enquanto trabalhava. 

Na altura não existiram indicações de um comportamento violento contra Klausutis que pudesse ter resultado na sua morte. Segundo uma verificação de factos da Associated Press, “a autópsia revelou que Klausutis tinha um problema” cardiovascular “não identificado”, tendo desmaiado e batido com a cabeça quando caiu - “não foi atingida por outra pessoa”, cita a agência norte-americana.

O marido da assistente falecida, Timothy Klausutis, escreveu uma carta diretamente para o presidente executivo do Twitter, Jack Dorsey, a pedir que fossem removidas as publicações de Trump. “Como marido, sinto que uma das minhas obrigações conjugais é proteger a sua memória”, confidenciou Timothy, hoje com 52 anos, na carta publicada pelo New York Times. “O meu pedido é simples: apague estas publicações”, continuou, referindo que um “utilizador vulgar” como ele “seria banido da plataforma” por causa de um tweet daquela natureza e a dor que isto está a causar à família: “Estou apenas a pedir que estes tweets sejam removidos”. 

Mesmo já conhecendo esta missiva, Trump não recuou nas acusações e amplificou-as numa conferência de imprensa, quando um repórter lhe colocou uma questão sobre o assunto. 

A resposta do Twitter? Não. “Lamentamos profundamente a dor e a atenção provocada por estas declarações”, disse um porta-voz da empresa, prometendo estarem a trabalhar em políticas que possam tratar estes conteúdos.

Trata-se de uma escolha, pois a gigante tecnológica tem uma série de regras que regulam conteúdos, incluindo políticas que proíbem o incitamento à violência e o “assédio direcionado”. Essas regras preveem a eliminação de tais publicações e a suspensão permanente de contas que propaguem estes conteúdos.