Politica

Confinamento foi essencial, mas houve erros

É consensual que Portugal terá agido bem ao impor fortes restrições no combate à covid-19. E todos elogiam o comportamento do povo. Mas  houve falhas – o ziguezague sobre o uso de máscaras foi umas delas.  

Manuel Alegre
Maria de Belém
Adalberto Campos Fernandes
Correia de Campos
José Ribeiro e Castro
Fernando Negrão
Henrique Neto
Guilherme Silva

Manuel Alegre alerta que «não se pode cair no excesso contrário»

Manuel Alegre considera que, ultrapassado o período de confinamento, «é preciso que agora não se caia no excesso contrário». O histórico socialista defende que este período em Portugal foi «feito a tempo» e que o país «se saiu bem» no que diz respeito às regras impostas. Além da intervenção dos portugueses, que, na opinião de Alegre, «se portaram de maneira exemplar», o histórico socialista sublinha que houve ‘boa liderança’ por parte do Presidente da República e do primeiro-ministro. O antigo dirigente do PS sublinhou ainda a importância que os profissionais do Serviço Nacional de Saúde têm tido no combate à propagação da pandemia, que, por chegar a «ricos e pobres, norte, sul e centro», é uma «pandemia democrática como muito se tem dito». «Houve, durante muito tempo, uma grande campanha contra o SNS, a favor dos privados, mas quem fez frente a esta pandemia foi o SNS, com os seus profissionais», afirma Alegre, acrescentando que a doença tornou «claro», não só a importância que o SNS tem para a vida coletiva, como a «capacidade, valor e espírito de sacrifício» de cada um dos profissionais de saúde.

Maria de Belém defende que medidas ‘duras’ foram eficazes

Maria de Belém reconhece que Portugal beneficiou do «impacto terrível da doença em países que nos são muito próximos», como foi o caso de Itália e de Espanha. «Vimos que isto era mesmo para levar a sério, não era uma brincadeira como alguns diziam», acrescenta a ex-ministra da Saúde. Considerando-se uma ‘otimista por natureza’, a socialista acredita que, face a uma segunda vaga, as pessoas não iriam desvalorizar a situação. «Acho que as pessoas tomariam ainda mais cuidado», explica, lembrando que é preciso que haja «equilíbrio» nas medidas a tomar, de forma a não haver «exageros». A socialista sublinhou que ainda antes da declaração do estado de emergência «houve muita pressão por parte das faculdades de Medicina» e de outras entidades relacionadas. «E bem», acrescentou, explicando que estas instituições viram como «as coisas podiam correr muito mal». Apesar de reconhecer que as medidas cautelares foram «duras», a ex-ministra da Saúde considera que foram «seguidas de maneira mais alargada». «Também a isso devemos os bons resultados do que aconteceu», conclui.

Campos Fernandes considera que rapidez fez a diferença

O ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes diz não ter dúvidas acerca do que fez diferença nos resultados de Portugal no combate à propagação da covid-19. «Foi termos atuado rapidamente, nomeadamente, no encerramento das escolas, até contrariando ideias que estavam a ser propaladas», explica. Sublinhando que os portugueses foram «responsáveis» durante o período de confinamento, o socialista defende que as medidas aplicadas até agora foram as mais corretas. 
«Protegemos o SNS e evitámos a procura excessiva», explica. Adalberto Campos Fernandes, que faz parte do Conselho Nacional de Saúde Pública, acrescentou que a decisão de António Costa de encerrar as escolas – mesmo depois de aconselhado pelo Conselho a não o fazer – foi uma decisão política acertada. «Muitas vezes na política nós decidimos com alguma incerteza técnica e até científica», acrescenta. Considerando que a declaração do estado de emergência foi fundamental para os resultados, Campos Fernandes lembra que «nada está ganho» e que é preciso agir com «inteligência» e com »critério regional».

Correia de Campos diz que consenso entre partidos foi essencial

Correia de Campos considera que «as medidas tomadas foram as certas com o conhecimento que existia na altura» e que a «gestão da crise nota-se nos resultados». «Isso não é ponto de discordância para ninguém», garante. O ex-ministro da Saúde realça ainda que a estratégia comunicacional adotada por Portugal «foi extremamente bem conseguida», explicando que a informação que tem sido dada diariamente faz a diferença. «As medidas tomadas têm inspirado confiança porque têm sido honestas». Além dos portugueses, «que se portaram muito bem», e do SNS, «que esteve à altura das circunstâncias», Correia de Campos aponta ainda a união das forças políticas como parte fundamental do processo. «Criou-se, efetivamente, um consenso, que foi uma das características do nosso confinamento», afirma, explicando que «seria um desastre» se não tivesse havido colaboração entre os partidos. O ex-ministro salienta ainda que outro desastre podia ter acontecido quando as escolas públicas fecharam sem autorização das autoridades, como aconteceu em Itália, quando «os jovens foram para casa dos avós, casas de férias dos pais e espalharam a epidemia».

Ribeiro e Castro lamenta falhas sobre uso de máscara

Para José Ribeiro e Castro, o confinamento em Portugal foi bem determinado «e na altura certa». «Embora pudesse ter sido uma semana mais cedo». O antigo presidente do CDS realça que Portugal foi dos países que reagiu mais depressa e, «tendo em conta as medidas jurídicas e legais» que eram necessárias tomar, os 15 dias de intervalo entre a deteção do primeiro caso e a declaração do estado de emergência não foram «tempo demais». Apesar de reconhecer que o confinamento levou a que cerca de dois meses depois o «crescimento exponencial do número de infetados» tenha sido travado, o centrista sublinha que houve «algumas falhas». «Houve uma falha sistemática de discurso da DGS, e também do Governo, relativamente ao uso das máscaras», aponta, explicando que foram enviadas mensagens «hesitantes». «Ainda hoje vejo pessoas em lojas que não usam máscaras», afirma. Considerando que o SNS tem sido «excecional», Ribeiro e Castro considera que outras das falhas tem a ver com a organização: «Houve uma quebra no capacidade atendimento relativamente a outras doenças. E muitas pessoas morreram».

Fernando Negrão: ‘Foram dois meses patrióticos’ 

Fernando Negrão, vice-presidente da Assembleia da República, não poupa elogios ao comportamento dos portugueses e considera que o Governo foi ‘obrigado’ a avançar com medidas restritivas para evitar a propagação da pandemia. «Quem começou a fazer confinamento e arrastou as entidades oficiais, designadamente o Governo, foram os portugueses. Tiraram os filhos das escolas É muito curioso. Dizem que Portugal tem uma sociedade civil que não é propriamente forte. Eu diria que, neste caso, a sociedade civil foi muito forte e arrastou as entidades oficiais, designadamente o Governo. O Governo foi obrigado a avançar pelos portugueses», afirma Negrão. O ex-líder parlamentar do PSD considera que o clima de unidade nacional foi importante para o sucesso das medidas aplicadas contra a pandemia. «Não aconteceu só com o PSD, mas com todos os partidos. Diria que foram dois meses patrióticos. Foram medidas consensualizadas, não só com o Presidente, mas também com os partidos da oposição. Vivemos dois meses de tréguas no combate político em nome da saúde de todos», realça o ex-líder parlamentar do PSD.

Henrique Neto lamenta lares e fala em oportunidade de ouro

O empresário Henrique Neto reconhece que o Governo «não se saiu mal» no combate à pandemia, mas, ainda assim, lembra que foram cometidos erros. O ex-deputado socialista começa por realçar que não é especialista em saúde pública, mas admite que teria sido possível atuar com mais eficácia para proteger os mais velhos. «O meu sentimento é que houve alguns erros. Poderíamos não ter sido tão rígidos no confinamento e ter dado mais atenção aos lares de idosos. Era necessário ter feito logo alguma coisa a sério nos lares de idosos. Na altura defendi que devíamos pôr os idosos em hotéis, cada um no seu quarto, para ser mais fácil controlar a pandemia», afirma. Henrique Neto defende que Portugal deve «aproveitar esta oportunidade» para alterar o modelo económico. «A economia portuguesa não tem solução sem duplicar as exportações. Temos agora uma oportunidade de colocar em prática essa estratégia com a aparente vontade das grandes multinacionais reduzirem a sua dependência da China. Portugal tem aqui uma oportunidade de ouro”, diz o empresário e antigo deputado do PS.

Guilherme Silva apoia inquérito parlamentar para esclarecer falhas

O antigo líder parlamentar do PSD Guilherme Silva considera que o Governo «esteve bem» no combate à pandemia e realça que as coisas correram melhor do que noutros países europeus, como Espanha ou Itália. O social-democrata aponta, porém, algumas falhas na atuação no Governo, como os problemas que surgiram no atendimento aos utentes com outras doenças. «A verdade é que não foi possível conciliar essa intervenção com a atenção que as restantes patologias necessitavam. Não apenas por medo, mas porque os serviços canalizaram todos os profissionais de saúde para o coronavírus e deixaram a descoberto esta situação. Isto tem sido ocultado. O Governo teve a preocupação de ocultar este lado negro», diz ao SOL o antigo vice-presidente da Assembleia da República, alertando que «houve um número de mortes muito superior ao registado pelo coronavírus». Guilherme Silva critica ainda o Governo socialista por aproveitar a pandemia para fazer «propaganda» e apoia a proposta para a criação de uma comissão parlamentar de inquérito para «apurar as falhas e insuficiências no combate à pandemia».