Internacional

George Floyd, já não é só George Floyd

Foi asfixiado por um polícia branco durante 8 minutos e 46 segundos. O seu assassínio desencadeou uma onda de protestos nos Estados Unidos e o seu nome agora não lhe pertence só a si: tornou-se um símbolo contra a brutalidade policial e o racismo sistémico, um pouco por todo o mundo.

Demasiadas vezes um negro é brutalmente assassinado pela polícia nos Estados Unidos, abrindo os olhos de muita gente para o racismo institucional e socioeconómico que domina a sociedade norte-americana há centenas de anos. George Floyd já não é George Floyd, como Michael Brown já não é Michael Brown, como Eric Gardner já não é Eric Gardner. São símbolos da violência policial contra negros, entre tantos, e numa altura que já não deviam ser: há demasiado tempo.

Comecemos por Mineápolis, no Minnesota, onde o homem negro de 46 anos foi asfixiado durante 8 minutos e 46 segundos, segundo a queixa contra Derek Chauvin, o polícia branco que o assassinou. Apesar de a população negra constituir apenas 20% da cidade, foi alvo de quase de 60% do uso da força por parte da polícia desde 2015: tasers; pontapés; métodos de estrangulamento, como o mata leão; socos e outras formas de agressão, segundo dados citados pelo New York Times.

A violência policial contra negros não é apenas culpa de Donald Trump, o Presidente dos Estados Unidos que esta semana saiu pela porta da frente da Casa Branca para se dirigir a uma igreja e tirar uma fotografia com uma Bíblia na mão. Foi preciso as autoridades atirarem gás lacrimogéneo contra os manifestantes pacíficos da capital para Trump fazer o seu vídeo de campanha e posar como homem forte, quando dois dias antes se tinha refugiado num bunker da Casa Branca. Rejeita-se a criticar a sua base de extrema-direita, supremacista branca, e o seu discurso racista legitimou, banalizou e normalizou muita da violência contra negros, hispânicos e imigrantes. Isto para muitos é um facto.

Só que a brutalidade contra negros é transversal na sociedade norte-americana, tanto em estados ou cidades governadas pelo Partido Democrata como naqueles detidos pelo Partido Republicano. Barack Obama e Hillary Clinton vieram a público pedir que se acalmem os protestos e apelaram ao voto, ao voto azul. Mas o movimento Black Lives Matter surgiu quando Obama comandava a Casa Branca há cinco anos, em 2014, depois do assassínio de Michael Brown por parte da polícia, em Ferguson, no Missouri (Black Lives Matter iniciou-se como um hashtag nas redes sociais, em 2013). E acontece que o Governador de Minnesota é do Partido Democrata, o presidente da Câmara de Mineápolis é do Partido Democrata e o Conselho Municipal é constituído por 12 democratas e um deputado do Partido Verde.

A brutalidade diária que sofrem os afro-americanos não se cinge à violência policial. É institucional e socioeconómica e agudizou-se perante esta crise imensa provocada pela pandemia do novo coronavírus. Em Nova Iorque, a cidade mais afetada pela covid-19, 46% da população é negra. Mas 76% dos que morreram com covid-19 eram afro-americanos, quando a população branca, que constitui 37% dos residentes, totalizou apenas 11% das mortes, segundo uma análise do Washington Post. A disparidade é ainda maior noutros sítios, como no estado do Michigan: 40% das mortes, embora componham apenas 14% da população, diz o mesmo diário. 

«Temos esta nova geração de diferentes cores, géneros e orientações sexuais a dizer: ‘não vamos arcar mais com isto», disse à CNN Cornel West, negro e professor de Filosofia da Universidade Harvard, argumentando não parecer ser possível que o sistema se reforme. «Tentámos rostos negros em lugares de destaque. Demasiadas vezes os nossos políticos negros, a classe profissional e de classe média tornaram-se demasiado acomodados com o sistema capitalista, ao estado militarizado, à cultura da economia de mercado, ligada ao estatuto de celebridade, poder e fama».
Os Estados Unidos vivem neste paradoxo desde a sua criação, desde que Thomas Jefferson escreveu na Declaração de Independência, em 1776, que os fundadores acreditavam que havia «verdades auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais». A trágica ironia é que o próprio Jefferson tinha uma quinta com escravos.

Por todos os cantos dos Estados Unidos, as mães de jovens negros vivem em constante agonia, temendo um dia receber uma chamada das autoridades e receber a notícia de que o seu filho faleceu pelas suas mãos. E isso vai da mulher a dias, à presidente-executiva de uma empresa. Em 2019, quase um quarto das 1099 pessoas que a polícia matou eram negras, apesar de representarem apenas 13% da população, segundo um relatório da organização Mapping Police Violence.

É três vezes mais provável um negro ser morto pelas autoridades e não é porque têm mais armas. Esta realidade letal agrava-se nas cidades e estados com maior população afro-americana. Na Geórgia e no Oklahoma um negro corre um risco seis vezes maior de ser morto pela polícia, em relação a um branco norte-americano, diz o mesmo relatório. Pior: em oito das 100 maior cidades do país, os departamentos policiais matam negros a uma taxa oito vezes maior do que a taxa de homicídios em todos os Estados Unidos.

Os gritos de desespero de negros, brancos e hispânicos que saíram à rua para protestar contra a violência policial aumentam quando confrontados com outro dado: entre 2013 e 2019, em 99% dos incidentes em que as autoridades mataram alguém não resultou numa acusação criminal a um agente.

«Há uma maneira fácil de parar isto. Detenham os polícias. Acusem os polícias, acusem todos os polícias. Não só alguns, não só aqui em Mineápolis. Acusem-nos em todas as cidades pela América fora onde o nosso povo está a ser assassinado», exigiu a ativista Tamika Mallory, numa poderosa conferência em Mineápolis. «Façam o vosso trabalho.

Façam o que vocês dizem sobre o que este país é suposto ser, sobre ‘a terra dos livres’. Não tem sido livre para os negros e nós estamos cansados. Não nos venham falar de pilhagens: vocês é que são os saqueadores. A América tem saqueado os negros, a América pilhou os nativo-americanos quando cá vieram pela primeira vez, por isso, pilhar é o que vocês fazem. Nós aprendemos isto convosco».