Cultura

O brilho intenso e duradouro do metal amarelo

Em tempos de crise, a cotação do ouro está em alta. Mas, vendo bem, não esteve sempre? Desde uma necrópole no Mar Negro a uma retrete que esteve a uso no Museu Guggenheim de Nova Iorque, passando pela máscara de um jovem faraó e pelos manuscritos medievais, propomos um périplo de 6500 anos sobre a presença do ouro na arte.

Usado pelos faraós egípcios, acumulado pelos romanos, cobiçado pelos conquistadores espanhóis, almejado pelos alquimistas, roubado pelos nazis, ostentado por rappers. Conhecido e apreciado desde a Pré-História, o ouro manteve ao longo dos séculos o seu poder de atração e o seu alto valor, o que faz dele, em tempos de crise, o ativo de refúgio por excelência. Nos últimos quinze anos – muito às custas da crise financeira de 2007-2008 – quase quadruplicou de valor e, com o início da pandemia, mesmo conhecendo oscilações, voltou a estar em alta, valorizando cerca de 25%.

Desde os tempos mais recuados que o ouro é sinónimo de riqueza material, mas também de pureza, perfeição e imortalidade. Considerado incorruptível – uma vez que não oxida nem envelhece –, presta-se às mais variadas associações. As mais evidentes são com o sol e a luz, por causa do seu brilho intenso, simbolizando assim a iluminação espiritual. Mas, dadas as suas conotações solares, é também associado ao poder real. Na Bíblia, a imensa riqueza e a sabedoria do Rei Salomão – de cujas minas, segundo algumas estimativas, teriam saído 500 toneladas deste metal – representam as duas faces da mesma moeda. No Egito antigo, acreditava-se que o ouro era a carne dos faraós.

O ouro não é apenas o mais nobre dos metais – é um elemento do outro mundo. Pensa-se que tenha sido trazido para a Terra por asteroides que com ela colidiram há 4 mil milhões de anos, mais ou menos pela mesma altura em que surgiu a vida no nosso planeta.

Se nos tempos mais recuados – e não só – era conotado com a pureza, aos poucos essa reputação foi-se alterando. Em Roma, onde tudo estava à venda, incluindo votos, favores e cargos políticos, começou a estabelecer-se uma relação direta entre o ouro e a corrupção moral. Como nota o químico João Paulo André em Poções e Paixões – Química e Ópera, o sábio Plínio o Velho, que redigiu uma espécie de súmula do saber da sua época, foi dos primeiros a alertar para estes perigos. «Plínio, no primeiro século da era cristã, na sua História Natural referiu o seu efeito tóxico e corruptor, condenando tanto os que o usavam como os que o vendiam», escreve João Paulo André. «Segundo o naturalista romano, depois de fundido, o ouro tornava-se ‘um símbolo de perversão e de exaltação dos desejos mais impuros’».

Hoje, passados cerca de dois mil anos, o ouro continua a revestir-se de todas essas diferentes conotações. É usado como enfeite por rappers na forma de grossos cordões ao pescoço, como símbolo de estatuto e de riqueza recém-adquirida. Éusado em circuitos de computadores e telemóveis, pelas suas propriedades de excelente condutor de eletricidade. E, sob a forma de finíssimas folhas, é até usado para dar um encanto especial a bifes e hambúrgueres em restaurantes de luxo. Em pequenas quantidades, pode ser consumido sem riscos para o organismo.

Mas o requinte supremo, reservado a muito poucos, será talvez comer em serviço de ouro. O Rei D. José I encomendou o seu ao famoso ourives parisiense François-Thomas Germain em 1764. Oimperador francês Napoleão III também tinha o seu. Mas conta-se que possuía um que considerava ainda mais precioso e que reservava para os seus convidados especiais. De que material era feito? De alumínio!

Necrópole de Varna: o ouro mais antigo do mundo

Datado de cerca de 4500 a.C., o conjunto de objetos em ouro encontrados na necrópole de Varna (atual Bulgária)é considerado o mais antigo tesouro da Humanidade. A necrópole, situada nas margens do Mar Negro, foi descoberta por acaso em 1972 durante as obras para fazer uma fábrica de conservas – e só por milagre não foi destruída. Um operador de escavadora, de apenas 22 anos, apercebeu-se da presença dos artefactos, que recolheu numa caixa de sapatos, e avisou os arqueólogos do museu da cidade.

Até ao momento foram identificadas no local perto de 300 sepulturas, que continham cerca de três mil objetos em ouro, perfazendo um peso total de aproximadamente seis quilos. 

Entre estes há pendentes, braceletes, anéis, peitorais, broches, contas, diademas, etc. Mas há também um artefacto mais invulgar na sepultura do que se pensa ter sido um importante guerreiro: uma espécie de preservativo de ouro.
Tudo isto são vestígios da mais antiga cultura europeia, uma civilização que se estendia pelo Mar Negro, Balcãs e vale do Danúbio, e que exibe um surpreendente grau de sofisticação. Além dos objetos de ouro, as escavações revelaram também artefactos de cerâmica, de cobre e de pedras e minerais.

Tutankhamon e o vértice da pirâmide

A descoberta do túmulo do faraó Tutankhamon pelo arqueólogo inglês Howard Carter, em 1925, causou sensação. «Nunca, sem dúvida, em toda a história da arqueologia egípcia, foi dado a alguém contemplar um espetáculo tão espantoso», escreveria Carter. «É preciso imaginar como os objetos nos surgiram, à luz da nossa lanterna – a primeira claridade a penetrar a obscuridade do hipogeu desde há três mil anos. O efeito era inaudito, perturbador [...] nunca tínhamos sonhado com nada parecido:uma sala repleta de objetos dos quais uns nos pareciam familiares, outros desconhecidos, empilhados uns sobre os outros com uma profusão aparentemente inesgotável».

Pesando cerca de dez quilos (só a longa barba pesa mais de dois), a máscara funerária de Tutankhamon é apenas o mais famoso e emblemático de milhares de objetos de ouro deixados pelos egípcios. Menos conhecidos, mas igualmente representativos, são os piramídios: os vértices de pirâmides e obeliscos. Eles próprios pirâmides em miniatura, eram normalmente feitos de granito preto polido, coberto com folha de ouro, para refletir os raios solares. A maior coleção destas pedras (com quatro exemplares)encontra-se no museu egípcio do Cairo.

Midas, Agamemnon e o ouro grego

Se na arte egípcia o ouro (proveniente das minas na Núbia) resplandece por toda a parte, na arte grega ele tem uma presença mais discreta. Aliás, a opinião ambivalente dos gregos em relação ao metal precioso está bem expressa no mito de Midas, Rei da Frígia, que, sequioso de riqueza, pediu o dom de transformar em ouro tudo aquilo em que tocasse. E foi-lhe concedido. Mas rapidamente se apercebeu de que, em vez de lhe trazer benefício, aquilo constituía uma maldição –tendo chegado a transformar a própria filha numa estátua de ouro...

De facto, os gregos nunca usaram o ouro com a profusão – ou a mestria – dos egípcios. Ainda assim, existe também um objeto icónico de ouro na arte grega: a máscara de Agamemnon.

Em agosto de 1876, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann, seguindo a intuição de que até aí todos tinham interpretado mal uma passagem do geógrafo grego Pausânias, partiu à descoberta da cidade de Micenas, primeiro com 63, depois com 125 trabalhadores. Os seus esforços foram recompensados: a seis de dezembro anotou no seu diário a descoberta da primeira sepultura. Tinha encontrado aquele que ficou conhecido por Tesouro do Atreu, uma grande estrutura abobadada com cerca de três mil anos. Ao deparar-se com uma máscara de ouro, identificou-a como pertencendo a Agamemnon, Rei de Micenas, uma das personagens de Homero. Hoje sabemos que, provavelmente, estava enganado.
 

Crasso e Marco Aurélio

Os romanos tinham um grande respeito pelos ricos – e um correspondente desprezo pelos pobres, que transparece no facto de egens (a palavra latina para pobre) se ter tornado um insulto comum. Chefe militar, político, cônsul, governador da província da Síria, Marco Licínio Crasso nasceu numa família abastada e continuou a acumular fortuna, tornando-se o homem mais rico do seu tempo e um dos mais ricos de sempre. Acabaria por perder a vida numa campanha contra o Império dos Partos, a Oriente. Caindo numa armadilha montada pelo chefe adversário, sucumbiu numa escaramuça no ano 53 a.C. Segundo o historiador Dião Cássio, «os Partos, como dizem alguns, derramaram ouro derretido na sua boca, como troça».

Ofascínio dos romanos pelo ouro é também testemunhado pelo busto do imperador-filósofo Marco Aurélio, que reinou entre os anos 161 e 180 da nossa era e que ficou conhecido pelos seus escritos estoicos. Este é apenas um dos três bustos de ouro de imperadores que chegaram até nós. Pensa-se que seguiam à cabeça das legiões que combatiam no estrangeiro. Este foi encontrado em 1939 num esgoto na pequena localidade suíça de Avenches. Depois da descoberta, passou décadas em cofres de bancos, tendo regressado a Avenches em 2006.

Os manuscritos iluminados da Idade Média

Longe vão os tempos em que a Idade Média era vista como um período de ignorância e obscurantismo. Os fabulosos manuscritos iluminados que nos legou, de que Les Très Riches Heures du Duc de Berry, da autoria dos Irmãos de Limburgo, são um dos expoentes máximos, estão aí para nos mostrar a sua faceta mais luminosa e requintada. Nestes livros preciosos, só ao alcance dos muito ricos, os materiais mais caros e mais raros eram postos ao serviço do talento dos artistas. A folha de ouro (que resulta de um processo de martelamento do metal até este ficar com uma espessura mínima) foi abundantemente usada pelos iluminadores, cujos desenhos delicados acompanhavam os textos. Fosse nas páginas desses livros, nos ícones bizantinos, nos mosaicos paleocristãos ou nas pinturas religiosas de Giotto e Fra Angelico, o ouro representava a pureza do mundo celeste, um tempo fora do tempo, ou um espaço fora do espaço. Com o dourado a assumir estas conotações positivas, a cor amarela, sua vizinha, «fica apenas com os aspetos negativos – a avareza, a inveja, a mentira, a traição. Torna-se uma cor negativa em parte por causa do ouro, e na pintura, a partir do século XVI, há cada vez menos amarelo, por causa do ouro», notou o historiador das cores Michel Pastoureau.

A Custódia de Belém e o sultanato de Quíloa

Um dos ícones absolutos do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, a Custódia de Belém mostra o requinte e opulência da ourivesaria portuguesa de cerca de 1500. Além do ouro trabalhado com esmero, inclui esmalte, pérolas e pedras preciosas.

A sua autoria é atribuída a Gil Vicente, não havendo a certeza absoluta de se tratar do genial dramaturgo que viveu naquele tempo, e toda a composição, montada como uma obra de arquitetura, apresenta grandes semelhanças com o Portal Sul do Mosteiro dos Jerónimos.

Na base, pode ler-se: «O muito alto príncipe e poderoso senhor rei D. Manuel I a mandou fazer do ouro das párias de Quíloa. Acabou em 1506». Aquela ilha do Índico, próxima da atual Dar es Salaam (Tanzânia), tinha sido invadida em 1502 por Vasco da Gama. Pouco depois, tendo o sultão deixado de pagar o seu tributo ao Rei de Portugal, D. Francisco de Almeida, o primeiro vice-rei da Índia, submeteu-a e ali mandou erguer o primeiro forte português de pedra na África Oriental. A Custódia é pois a materialização do poderio do império português e da riqueza por ele gerada. Teve uma existência atribulada:aquando das invasões napoleónicas foi levada para França e posteriormente devolvida. E conta-se, embora sem certezas, que o Rei D. Fernando II, patrono das artes, a terá resgatado da Casa da Moeda, onde se encontraria pronta a ser desmantelada e fundida.


Hernán Cortés e o presente de Montezuma

Com apenas 19 anos, o conquistador espanhol Hernán Cortés partiu para o novo mundo com a missão de encontrar ouro. Quinze anos depois, em 1519, protagonizaria um célebre encontro no México com Montezuma II(ou Moctezuma), o penúltimo imperador azteza.

«Quando uma armada espanhola apareceu em Vera Cruz, e um homem branco de barba pisou a praia, com estranhos animais (cavalos) e cingido por uma armadura, pensava-se que seria o lendário homem-deus azteca que tinha morrido há 300 anos com a promessa de voltar – o misterioso Quetzalcoatl», relata o historiador Howard Zinn em A People’s History of theUnited States. «Na mente de Montezuma, o rei dos Aztezas, deve ter havido alguma dúvida se Cortés seria de facto Quetzalcoatl, pois enviou-lhe uma centena de mensageiros, levando enormes tesouros, ouro e prata transformados em objetos de fantástica beleza, mas ao mesmo tempo suplicando-lhe que regressasse para de onde viera. (Alguns anos mais tarde o pintor Dürer descreveu o que tinha visto acabado de chegar a Espanha dessa expedição – um sol de ouro, uma lua de prata, que valiam uma fortuna.)». Mas nem assim Cortés ficou satisfeito: acabaria por provocar a morte de Montezuma, bem como do seu sucessor, e o fim do império azteca, o que permitiria, nos séculos subsequentes, transferir fabulosas quantidades de ouro e de prata para Espanha.

O Buda tailandês de cinco toneladas

A maior estátua do mundo em ouro maciço encontra-se no pequeno templo budista de Wat Traimit, no distrito de Samphanthawong, Banguecoque, capital da Tailândia. Mede cerca de três metros de altura e pesa pelo menos cinco toneladas – pela atual cotação do ouro, valeria, sem ter em conta a importância histórica e o trabalho artístico, 250 milhões de euros.

Apesar disso, o seu valor foi desconhecido durante um longo período. Pensa-se que a estátua terá sido realizada algures entre 1238 e 1438, tendo permanecido num wat (templo budista) da cidade histórica de Ayutthaya até 1765. Quando a cidade foi sitiada pelos invasores birmaneses, a estátua foi coberta com uma camada de estuque para dissimular o seu alto valor. Graças a esse expediente sobreviveu ao saque.

Em meados do século seguinte seria levada para um templo em Banguecoque, permanecendo o seu verdadeiro valor ignorado. Já no século XX, devido à demolição do templo, ficou num pátio, sob uma construção precária, durante duas décadas. Só em 1955, quando um acidente provocou a sua queda e aqueles que a transportavam a abandonaram à chuva, foi revelado o material de que a estátua era feita.

A retrete de ouro maciço de Maurizio Cattelan

«Thomas More, na sua Utopia (1506) chegou a dizer que o ouro não deveria ser usado para fazer adornos, mas sim penicos», escreve João Paulo André em Poções e Paixões – Química e Ópera. Se, com Merda d’Artista (1961) Piero Manzoni vendeu os seus próprios excrementos, dentro de uma latinha, ao preço do ouro (e se Fonte, o urinol ready-made de Duchamp, se tornou uma das obras de arte mais célebres e valiosas do século XX), o iconoclasta Maurizio Cattelan criou uma retrete de ouro de 18 quilates perfeitamente funcional. Provocatoriamente, chamou-lhe America. A obra, que evoca ainda as torneiras de ouro muito apreciadas por ditadores como Ceausescu, esteve a uso numa casa de banho do museu Solomon R. Guggenheim em 2016, o ano em que Donald Trump foi eleito (o artista ter-se-á, porventura, inspirado nas grandes letras douradas da Trump Tower). Segundo o museu nova-iorquino, terá sido usada, ou pelo menos vista, por 100 mil pessoas. Um guarda à porta do cubículo certificava-se de que a retrete não era roubada nem vandalizada. A 14 de setembro de 2019, porém, depois de ter viajado para o Palácio de Blenheim (onde nasceu Winston Churchill), a obra do artista italiano, que tem mais de cem quilos em ouro, foi roubada do local. Houve quem avançasse que o roubo poderá ter constituído mais uma partida do artista.