Opinião

A última mensagem

Vai fazer um mês no próximo dia 12 que o cónego Luís Manuel Pereira da Silva nos deixou.

Vai fazer um mês no próximo dia 12 que o cónego Luís Manuel Pereira da Silva nos deixou. Conceituado teólogo, diretor do departamento de Liturgia do Patriarcado de Lisboa e pároco da Sé, acabou por se tornar mais conhecido dos portugueses por outra particularidade: era o ‘padre dos casamentos de Santo António’, tradição que manteve durante muitos anos em colaboração com a autarquia. 

Para os que o conheceram bem, era um homem alegre, simples, acolhedor e dedicado, que desenvolveu um trabalho de excelência nas funções que lhe foram confiadas. Para mim, guardo na memória as recordações de uma pessoa vertical, amiga, muito humana, sempre preocupada com os outros, sobretudo com os mais desfavorecidos. Contudo, o principal testemunho que posso dar é de ordem clínica, por ter acompanhado de perto a sua situação como seu médico de família e por ter vivido com ele episódios que não esqueço e que, à sua memória, venho hoje partilhar.
 
No princípio de 2016, num vulgar dia de trabalho no centro de saúde, recebo um telefonema seu a pedir-me se o podia receber com a máxima urgência. Estava com voz de aflição, como que a pedir socorro. Alterei de imediato os meus planos e disse-lhe: «Venha imediatamente. Cá o espero». 

Pouco tempo depois apareceu-me com ar assustado e ansioso: «Doutor, tive agora mesmo a confirmação. Tenho uma doença grave. É o primeiro a saber. Vim para lhe dar conhecimento e para lhe pedir…». Interrompi-o e comecei eu a falar, tentando desviar o assunto para o acalmar. Ouviu-me como que a ‘beber com sofreguidão’ cada palavra que saía da minha boca. Aos poucos lá foi ficando mais calmo e confiante, até que finalmente conseguiu revelar o motivo da sua vinda tão apressada: «Vim para lhe pedir que reze por mim». 

Para aliviar o ambiente – e sendo ele padre e eu médico – ainda ‘brinquei’ com a situação, fazendo um trocadilho: «É a primeira vez que um doente que é padre me pede a mim, que sou o médico, para rezar por ele». Sorriu, mas insistiu com o pedido, o que me deixou inquieto e pensativo. Disse-lhe então com ar mais sério: «Se é isso que quer de mim, pode contar comigo».

Era o princípio de um penoso calvário que só viria a terminar no dia 12 de junho de 2020 ao início da noite, curiosamente, a noite de Santo António!

As vindas às consultas sucederam-se, intercaladas com internamentos hospitalares de curta e média duração, passando depois para os telefonemas e por fim para as mensagens de acordo com o que sempre me pedia: «Se eu não atender o telefone, não se esqueça de deixar mensagem».

Conforme se vê, na vida de um médico de família tem de haver sempre espaço para estes casos imprevistos e uma disponibilidade permanente para os acolher. Por outro lado, a confiança a incutir no doente é essencial; e mais: há que estar preparado para tudo o que nos for pedido, mesmo que a ajuda solicitada não coincida com a nossa maneira de pensar (o que não era o caso).

O processo ia seguindo o seu percurso e eu acompanhando à distância a sua evolução, adivinhando-se mais tarde ou mais cedo o desfecho inevitável. Senti alguma ‘dificuldade’ a meio do caminho. Não podia falar com ninguém, e eram muitos os que me procuravam para saber dele. Deixámos de falar no princípio do ano e só por mensagens continuámos a manter viva uma relação médico-doente cada vez mais afastada, visto necessitar já de outro tipo de cuidados. Contudo, o pedido que me fizera desde o início mantinha-se. 

Por fim, chegou a notícia esperada: no dia 12 de junho, ao cair da noite, o cónego Luís Manuel partira para a eternidade. Estava ‘tudo consumado’. Acabava o sofrimento. Terminavam as mensagens, mas faltava uma. A última, a que lhe havia de dizer se pudesse entrar na Sé para me despedir, por sinal, a que mais me custou a ‘escrever’ por ter sido escrita com o coração: «Caro Amigo: agora que está na Casa do Pai sei que dará outro valor às palavras que, a muito custo, lhe quero dizer. Não calcula como lhe estou grato pela confiança que depositou em mim, para ser o primeiro a analisar e a gerir a sua complexa situação. Procurei corresponder ao seu pedido inicial e não o abandonei um só instante. Apreciei a sua coragem, a confiança nos médicos e a sua Fé em Deus. A História lembrá-lo-á como ‘um justo na cidade’, onde fez tanta gente feliz. Obrigado pela lição de vida que nos deixou e, no meu caso, por me ter feito ver o lado mais belo da Medicina. Olhe por nós, até chegar a nossa vez de irmos ao seu encontro. Tenho a certeza que nos receberá de braços abertos, com a sua alegria contagiante. Até sempre, Luís Manuel!».

P.S. – Uma palavra de gratidão ao Sr. cónego Tito e ao Dr. Luís Alves que me permitiram escrever esta última mensagem.