Viagens na minha terra

José Gameiro - De Lisboa ao Vale do Guizo

O psiquiatra José Gameiro é um apaixonado por viagens e prefere as do ar, mas por terra também se diverte bastante. Aqui fica uma sugestão de José Gameiro para fugir aos roteiros clássicos e para desfrutar da gastronomia portuguesa.

Se está farto de autoestradas, este é um itinerário em que pode desfrutar de praias, campo e até de bons restaurantes, com boa comida, sem as sofisticações e os preços da chamada nova cozinha.

Se sair de Lisboa, atravesse a Ponte 25 de Abril e saia logo, em Coina, da auto estrada. Siga pela N10 até Setúbal e Águas de Moura. Faça uma paragem em Azeitão para tomar um café.

Depois entre no IC1 e continue até Alcácer do Sal. Pode optar por entrar na cidade e percorrer a sua parte velha, com ruelas estreitas, ou passar ao lado e virar à direita na estrada que vai para a Comporta.

Pouco antes de chegar, saia, para a Carrasqueira.

Aqui encontra uma obra de arte popular, única na Europa. O Cais Palafítico.

Nos anos cinquenta, um grupo de pescadores, da Reserva do Estuário do Sado, tinha dificuldade em acederem aos seus barcos, pelo lodo, na maré baixa. Tiverem a ideia de fazer um passadiço de madeira. Foram sendo acrescentadas novas estacas e hoje são umas dezenas, com os barcos ancorados e, quando a maré vaza, assentes no lodo.

Fique por aqui uns minutos, tente conversar com um pescador e oiça histórias duras da faina. Tire umas fotografias, para mais tarde recordar.

Por esta hora deve ser tempo para almoçar. Na rua principal da Carrasqueira existem vários restaurantes com peixe fresco. Aconselho o arroz de lingueirão, excelente e a metade do preço dos restaurantes da moda, na Comporta.

Mais quatro quilómetros e está na famosa vila. Percorra a pé as suas ruas e espreite as montras das boutiques, com roupa de marca a preços proibitivos... Mas não perca uma visita à Mercearia Gomes, com cento e quinze anos, onde encontra excelentes produtos gourmet, num labirinto de expositores.

Está na altura de escolher a praia. Conduza para sul, pela N261, afaste-se o mais possível da Comporta para fugir aos mosquitos do fim de tarde, que vivem perto das zonas húmidas dos arrozais.

Tem várias escolhas possíveis. As praias do Pêgo e do Carvalhal fazem parte do extenso areal que vai até Sines. Têm bom estacionamento, pago, mas ainda com bastante gente, bons restaurantes de praia, muito caros.

Continue para sul e vai encontrar uma praia, menos conhecida, a Aberta Nova. Espaço não lhe falta, aos fins de semana pode ser difícil estacionar, mas não se paga. Mar batido, mas sem perigo, leve o seu chapéu de sol, este ano os toldos estão a preços proibitivos.

Se ficar a dormir uma noite na zona, tem várias opções, mas nenhuma, que seja agradável, barata.

Experimentei a Serenada Enoturismo e o Spatia Comporta. O primeiro é mais económico, sem ser barato. Tem quartos espaçosos e uma excelente produção de vinho que acompanha uma refeição alentejana típica. O Spatia é mais sofisticado, mais moderno, uma excelente piscina e um pequeno-almoço, servido no exterior, muito bom.

Depois de uma noite tranquila, conduza até Grândola, onde pode tomar um café e prossiga pelo IC1 para Alcácer. Cerca de dez quilómetros depois, vire à direita, na N382, para Arez.

Perto desta aldeia começa a ver, de um e de outro lado da estrada arrozais, magníficos no seu verde forte. Se fôr de manhã cedo, a luz para fotografar é a melhor.

Está cada vez mais perto do Rio Sado. Continue até ao Vale do Guizo. Pequena aldeia na margem do rio, onde se comem umas enguias divinais. Peça a um dos pescadores para atravessar de barco e estará na margem direita do Sado, onde pode admirar arrozais a perder de vista.

Se continuar pela mesma estrada e depois pela M343 vai dar à Aldeia de São Romão, onde pode atravessar para a margem direita. Continue a fotografar, à medida que o sol fica mais forte, o verde vai mudando. Aproveite e pare uns minutos para ver as cegonhas nos seus ninhos a protegerem as crias.

Regresse a Lisboa por Pegões, Infantado e a velha Ponte de Vila Franca.

Poupou muitos euros em portagens e visitou sítios fora dos clássicos roteiros turísticos.