Internacional

Bielorrússia. Uma ditadura em agonia

Muitos não acharam piada à sugestão de tratar a covid-19 com vodca. Os protestos crescem e surgiram misteriosos mercenários russos.


Após mais de 26 anos no poder, Alexander Lukashenko enfrenta o maior pesadelo de qualquer ditador: o seu povo tem cada vez menos medo. Por mais que a temida polícia secreta, ainda chamada de KGB, espanque manifestantes e jornalistas, que os enfie em carrinhas e os detenha às centenas, cada vez mais pessoas saem à rua contra Presidente da Bielorrússia, que prometeu curar a covid-19 com vodca e banhos de sauna. Aproximam-se as eleições presidenciais – que deverão ser tão fraudulentas como as anteriores – e mais de 60 mil pessoas manifestaram-se na capital, Minsk, esta quinta-feira, um ato de desafio sem precedentes. Apoiavam a candidatura de Svetlana Tikhanovskaya, uma dona de casa e mãe de dois filhos, forçada a entrar na política após o marido, Sergei Tikhonovsky, ter sido detido quando tentava candidatar-se.

A vida não está nada fácil para Lukashenko, considerado o último ditador da Europa, que foi infetado pela covid-19 aos 65 anos. Mesmo assim, é um caso «assintomático», gabou-se o Presidente, que nunca foi visto de máscara e falou com uma voz estranhamente áspera. «Perdão, tive de dar muitos discursos ultimamente», justificou, em conferência de imprensa, na terça-feira.

Para muitos, o facto de Lukashenko ter ignorado tão olimpicamente a pandemia foi a gota de água. O país tem mais de 67 mil infeções registadas, quase 600 mortes, e receio que muitas outras tenham ficado por registar.
«Quando o coronavírus se começou a espalhar, ele ia à televisão dizer que estava tudo bem», disse uma idosa moradora de um bairro tipicamente apoiante de Lukashenko, à BBC. A sua vizinha Olga também não está satisfeita. «Tive coronavírus. Gastei a minha reforma inteira em medicamentos», lamentou. «Pessoas que conheço morreram, mas não escreveram que o coronavírus era a causa de morte». A pergunta que ia na cabeça de Olga é a mesma que na de muitos outros bielorrussos. «Durante quanto mais tempo vão mentir às pessoas?».

Comportamento suspeito
Cada vez mais isolado, o ditador até já é criticado pelos seus aliados do costume. Agentes da brutal polícia bielorrussa divulgam fotos com slogans como «Lukashenko não é o meu Presidente», avançou a Reuters. Apresentadores da televisão estatal lançam diatribes contra a repressão e até atletas de alta competição tão apreciados por Lukashenko como o basquetebolista Nikita Meshcheryakov, acusam-no de silenciar dissidentes e governar o país como num «jogo sem regras» – o post de Instagram rapidamente foi apagado.

Mesmo o Kremlin, historicamente apoiante do regime bielorrusso, não está nada satisfeito. Lukashenko, cada vez mais desesperado, dispara para todos os lados: na quarta-feira foi anunciada que o KGB deteve 32 mercenários russos da Wagner, uma empresa conhecida por fazer o trabalho sujo de Vladimir Putin, nos arredores de Minsk. São acusados de terrorismo, como parte de um grupo de cerca de 200 mercenários que terão sido enviados para a Bielorrússia para destabilizar as eleições de 9 de agosto.

Os homens terão chamado a atenção dos serviços secretos devido ao comportamento «pouco característico para turistas russos», dado que «não bebiam álcool» e usavam uniforme militar, escreveu a agência noticiosa estatal Bela. Já um porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, salientou à agência TASS: «Na Rússia há um grande número bielorrussos que usam roupas semelhantes, que também se comportam de forma pouco característica e não bebem álcool», o que não significa que «estivessem a fazer algo ilegal».

Conspiração?
Pode haver um fundo de verdade nas acusações do regime bielorrusso, que divulgou os nomes dos detidos. «A nossa própria pesquisa independente mostra que são de facto são combatentes da Wagner», disse ao Moscow Times Denis Korotkov, um jornalista da Novaya Gazeta. No entanto, há grandes dúvidas que o alvo dos mercenários fosse a Bielorrússia. «Claro que Lukashenko estava consciente de porque é que os combatentes da Wagner estavam em Minsk e onde se dirigiam», escreveu o conhecido correspondente de guerra russo Semyon Pegov, no Telegram.
É que, enquanto o resto do mundo entra e saí de confinamento, na Bielorrússia não há quaisquer medidas contra a covid-19, as fronteiras estão abertas e os voos internacionais sem restrições. Nos últimos tempos, o país foi usado como rampa de lançamento dos mercenários da Wagner – «maioritariamente para África», segundo Pegov. A empresa atua em cenários como a Síria, Líbia, Ucrânia, Cabo Delgado ou Sudão.

O incidente pode ser uma desculpa para visar a candidatura de Tikhanovskaya, que ganhou uma tração com que ninguém sonhava. «As forças de segurança disseram que 200 homens entraram no país, o que significa que alguns estão à solta e que algum tipo de incidente violento pode acontecer na Bielorrússia nos próximos dias», lembrou à Newsweek Alex Kokcharov, analista da IHS Markit. Qualquer incidente desse género «pode ser apontado como culpa desses homens e ligado à campanha de Tikhanovskaya, para a desacredita-la aos olhos do eleitorado ou para a afastar».