Sociedade

Emigrantes portugueses na Áustria indignados com discriminação nos corredores turísticos

O Reino Unido mantém Portugal na lista de restrições e só este sábado passa a exigir quarentena a quem viaja da Bélgica, que nas últimas duas semanas teve quase duas vezes mais novos casos por habitante.Também na Áustria os portugueses não conseguem perceber os critérios para as restrições em vigor. 

A exclusão de Portugal da lista de países seguros para viajar continua a motivar o protesto de emigrantes no Reino Unido, mas também na Áustria os portugueses não conseguem perceber os critérios para as restrições em vigor. E lamentam a ausência de respostas concretas quer das autoridades locais quer da embaixada portuguesa.

Tal como no caso de Inglaterra, que neste momento tem outros países europeus na lista de destinos dispensados de quarentena que nas últimas semanas registaram mais novos casos do que em Portugal, uma emigrante portuguesa em Viena chamou a atenção para o facto de na Áustria se estar a passar o mesmo. Ao contrário do que se passa no Reino Unido, que nunca tornou públicos os patamares usados na avaliação, o critério austríaco é conhecido: caso os países apresentem mais de 20 novos casos por 100 mil habitantes nos 14 dias anteriores, são considerados destinos de risco e não recomendados. A incidência de novos casos em Portugal baixou nas últimas semanas, resultado do abrandamento da epidemia em Lisboa, mas o país ainda registava ontem uma incidência de 26,1 novos casos por 100 mil habitantes. Se o patamar pode justificar a decisão austríaca, o problema é que há outros países acima dos 20 casos por 100 mil habitantes, alguns agora pior do que Portugal, aos quais a Áustria não está a impor restrições. É o caso da Bélgica, República Checa e Espanha, que só esta semana a Áustria anunciou que passará a fazer parte de destinos não recomendados a partir da próxima segunda-feira, 10 de agosto. Mas a Bélgica, por exemplo, continua na lista de destinos seguros, apesar de esta sexta-feira a incidência nos últimos 14 dias a ajustada a cada 100 mil habitantes ter subido para os 52.9 (em Portugal está nos 26.2).

A emigrante portuguesa, a viver há cinco anos em Viena, diz ter contactado a Embaixada de Portugal em Viena, que não se quis pronunciar sobre os critérios do país anfitrião. E lamentou a ausência de explicações por parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros. No caso austríaco, não é exigida de imediato quarentena obrigatória, mas é preciso um teste negativo feito 72 horas antes para voltar a entrar no país, custeado pelo viajante. 
E sendo um destino não recomendado, considerado de risco, os emigrantes temem que possam ser responsabilizados no caso de acontecer algum problema, por terem viajado para onde não deviam. «Segundo os dados oficiais de 2020, residem na Áustria cerca de 4000 cidadãos de nacionalidade portuguesa. Somos realmente muito poucos sim (muito menos que o Reino Unido), mas temos os mesmos direitos de representação, a mesma voz, e a mesma vontade de poder visitar o nosso país e as nossas famílias. Tenho contacto com vários portugueses que se encontram igualmente descontentes», disse ao i esta emigrante portuguesa.

Questionado pelo SOL sobre esta situação e sobre que diligências estão a ser feitas, o Ministério dos Negócios indicou que «Portugal tem enviado, aos outros países europeus, informação atualizada sobre a situação epidemiológica no país, de modo a procurar demonstrar que Portugal é um país seguro e que compara bastante bem nos diversos indicadores passíveis de serem tidos em consideração em qualquer avaliação», não fazendo considerações particulares sobre a situação austríaca e a aparente discrepância de critérios.

Durante esta semana, o ministro dos Negócios Estrangeiros revelou que Portugal iria enviar ao Reino Unido um relatório epidemiológico usando os critérios explicitados entretanto ao país pelas autoridades britânicas e que não foram tornados públicos. «Nós tínhamos solicitado formalmente que o Reino Unido apresentasse o relatório sobre o qual diz basear a sua decisão e recebemos hoje resposta a esse pedido», afirmou Augusto Santos Silva na quarta-feira. Recorde-se que o Reino Unido anunciou a 24 de julho que iria manter o país de fora da lista de países dispensados de quarentena, remetendo uma nova avaliação para dali a 28 dias, prazo que vence a 21 de agosto. No entanto, o Governo britânico admite fazer diariamente atualizações nesta lista e Augusto Santos Silva deixou essa expectativa, recordando que Espanha, por exemplo, deixou de ser considerada segura por Inglaterra dois dias depois de ter tido luz verde para continuar na lista de países dispensados de quarentena. «Espero que uma próxima revisão da parte das autoridades britânicas signifique finalmente o reconhecimento dos factos, porque, na minha opinião, não há nenhum facto em Portugal que justifique que passageiros oriundos de Portugal sejam sujeitos a quarentena em Inglaterra», afirmou Santos Silva.  «O que as autoridades britânicas têm dito é que procedem regularmente a essa revisão, mas que a qualquer momento podem fazer isso», acrescentou. «É verdade já que impuseram quarentena a Espanha dois dias depois de terem publicado a nova lista», lembrou Santos Silva.

Já esta sexta-feira, o Reino Unido fez de facto uma dessas atualizações não programadas da sua lista de países seguros, passando a excluir Bélgica, Andorra e Bahamas, medidas que entram em vigor este sábado. Ou seja, qualquer pessoa que viaje destes países para o Reino Unido a partir deste fim de semana terá de fazer quarentena, o que tinha acontecido também com os ingleses que estavam em Espanha e foram apanhados de surpresa pela decisão de passar a ter de fazer quarentena no final de julho. Se a Bélgica era agora o exemplo mais gritante de um país europeu com uma situação epidemiológica nacional pior que a portuguesa e que continuava na lista de países seguros do Reino Unido, não fazendo por exemplo mais testes que Portugal (outro indicador que é tido em conta pelas autoridades inglesas), Malta e República Checa, ambas com indicadores ligeiramente piores do que os portugueses, continuam sem ser classificadas de destinos não seguros.