Viagens na minha terra

António Bagão Félix. Campo, mar e Lisboa

Mais do que um roteiro, António Bagão Félix fala dos sítios dos verões da sua infância e dos locais que, nos dias de hoje, o acolhem na época estival. Ou vice-versa.


1. Campo e mar. Alto Alentejo e Costa-Nova. E Lisboa, a cidade que me acolhe há muitos anos. Assim construí este texto de ‘Viagens na minha terra’. Representando a minha própria viagem. 

Neste ano, tão insolitamente diferente, transformei os fins-de-semana em que viajava para Almadafe, no concelho de Sousel, em semanas completas e lá tenho fixado a minha habitação permanente por uns tempos. Por causa da pandemia, mas também porque gosto da liberdade que o campo me dá, gosto de sentir a cadência de um tempo fora do asfalto da cidade, gosto de transformar o torpor urbano em energia rural e a ida à janela diante do trânsito citadino em estar fora da casa na frescura do nascer do sol. 

O meu primeiro local do quotidiano fora de casa é a Casa Branca, não a de Washington, mas a da freguesia a que agora, alentejanando, pertenço. Entro num dos cafés, por sinal o Oásis, onde participo em conversas simples de pessoas simples. Estou a 30 quilómetros de Estremoz, a 60 de Évora, a pouco mais de 50 de Portalegre, a 40 de Arraiolos, a 70 de Marvão e Castelo de Vide e a 80 de Elvas. Este itinerário tem motivos bastantes para atrair gente que goste de viajar por terras de Portugal. Não tenho a pretensão de indicar aqui o que deve ser observado, visitado, escolhido. Está tudo à disposição de um dedilhar em muitos sites onde se partilha, com minúcia, essa informação. A boa cozinha alentejana e os doces conventuais estão sempre perto de nós, mas aqui apenas quero eleger o meu restaurante de há mais de 20 anos, no concelho de Avis (Santo António do Alcôrrego) a 10 quilómetros de casa. Chama-se a ‘Tasca do Montinho’ e, creiam, para mim é o restaurante ideal na simbiose entre a boa comida alentejana e a nossa comida caseira, sem esses devaneios inconsequentes de ‘nouvelle cuisine’. 

O Alentejo preserva a sua alma moldada por uma natureza paciente, por uma gente tristemente alegre, por um tempo que ainda tem uma réstia fora da imposição da circunstância. Este é, ainda, o Alentejo que, qual ritual no fim de cada dia de cada estação do ano, nos acolhe em casamento de verde trajado na Primavera esperançosa, ou numa união de um sol que adormece trajado de um amarelo-laranja inimitável e de um odor da terra ocre escoltado por aves e insectos vigilantes.

Aqui encontramos o que já não se tem na cidade do frenesim, do ruído, da ansiedade e das inquietações. O silêncio sublime e não filtrado. O ambiente rústico e acolhedor. A contagem suave da máquina do tempo. A força resistente da natureza. A graciosidade das cores e dos cheiros da heróica giesta, do manso restolho, do elegante tremoceiro, do compassivo tojo, da exuberante e violácea soagem, da humilde esteva, da sereníssima oliveira, do paciente sobreiro, do imponente girassol.

2. Com a idade, afastei-me das praias, ainda que aprecie a maresia oceânica para me arrefecer do calor do Estio. Mas continua bem vivo em mim o mês que passava todos os anos na Costa-Nova, uma inimitável estância no meu concelho natal, Ílhavo. A Costa Nova é, agora, diferente da de outrora. Continua linda, mais cosmopolita, sempre terna e humanizada. A sua marca de água continua a ser a dos palheiros de madeira, originariamente de vermelho, ocre e preto, e agora de outras cores vivas, que lhes dão uma personalidade inigualável. Boa mesa é o que lá não falta em bons restaurantes de peixe e marisco. O Verão da Costa-Nova – apesar do aquecimento global – continua a ser amenamente convidativo, ainda que já sem a frequência de, à noite, se vestirem camisolas de lã grossa e não se dispensar o cobertor para adormecer. E, ainda, há a água do mar ‘quente’ a 15 ou 16º, para homens de barba rija e ossos duros. Já não há o farol da Barra com luzes e ‘ronca’ a indicar os tão recorrentes nevoeiros, mas há a possibilidade de a ele subir e ver a imensidão de uma praia que confinada é como se estivesse desconfinada. E, por fim, há Aveiro, ali tão perto, com a sua beleza, os moliceiros trajados de interesse turístico e, claro, os ovos moles e outras iguarias e a Vista-Alegre, no meu concelho natal, convidando-nos a visitar o passado e o futuro da famosa porcelana.

3. Por fim, Lisboa, onde este ano vou passar parte das férias, no caminho inverso do que sempre fiz. Lisboa é uma cidade de todo diferente, incomparável mesmo. Na sua cor, que vista do céu é predominantemente rosácea, e observada do chão e da calçada é de uma policromia aprofundada por uma luminosidade quente. Na sua alma, feita de fado e alguma simpática displicência. Na sua diferencialidade, construída entre colinas, curvas, luzes, janelas, vielas. Na sua brisa do fim da tarde, cadenciada e temperada por um Tejo que a abraça. Na sua calçada, que nos acolhe dignamente. Na mistura do seu rosto salpicado de traços mediterrânicos e de uma arabizada pitada de sal. Na descoberta permanente do seu recheio sem fim. 

Sempre gostei de Lisboa em férias dos outros. Como é bela a cidade na maior quietude do tempo em que as pessoas dela partem para descansar. Gosto do detalhe de cada esquina da cidade. Às vezes, por descobrir, outras vezes redescobrindo com novas amplitudes dentro de mim. Gosto das cidades dentro da cidade, dos bairros tão diferentes como complementares, em que a ideia do todo é superior à soma das partes. 

Com mais de meio século a lá viver, nela penetrei e ela se entranhou em mim. Foi-me seduzindo suavemente no tempo em que, estudante, a ia conhecendo nos intervalos de estudar. Com a vantagem da proximidade que sempre nos é dada pelo palmilhar de avenidas, ruas, azinhagas, becos, pois que, nesse tempo, automóvel era assunto que não se nos colocava.

Enamoro com deleite casas, em boa hora reabilitadas, tão singulares quanto intemporais. Ando de braço dado com a variedade de árvores que o clima ameno oferece, desde as bétulas de climas mais frios até aos exuberantes jacarandás de habitat subtropical. 

Gosto da agora bem assumida fusão entre Lisboa e o Tejo.

 

Este texto, por vontade do autor, não segue o chamado Acordo Ortográfico