Internacional

Rússia. As vítimas do Kremlin

Alexei Navalny, um dos principais opositores de Putin, foi envenenado. Recordamos mais casos semelhantes.

 


Existem muitos estereótipos sobre a Rússia e os seus habitantes, a frieza da sua personalidade foi disseminada até à exaustão na cultura popular com vilões icónicos que vão desde o cinema, com Ivan Drago do Rocky IV, à banda desenhada, como Kraven o caçador, um dos vilões mais implacáveis de Homem Aranha.

Mas deixando a ficção de lado, a própria história deste país está repleta de intrigas, traições e mortes suspeitas. Podemos apontar para o séc. XIX, para a figura do místico Grigori Rasputin, que depois de uma tentativa de envenenamento falhada apenas morreu após ser baleado no peito, ou para o caso que aconteceu esta semana. Alexei Navalny, o principal opositor de Putin há uma década, foi hospitalizado na quinta-feira por suspeitas de envenenamento.

Muitas destas vítimas foram causadas pelos "laboratórios de veneno secretos criados por Vladimir Lenin, em 1921", nota o The Guadian, referindo Stepan Bandera, líder nacionalista ucraniano, envenenado com cianeto, por ordem de Alexander Shelepin, líder da KGB, e Nikita Khrushchev, Secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, e o dissidente búlgaro, Georgi Markov, assassinado por um guarda-chuva com a ponta envenenada.
Contudo, a repressão política não terminou com o final da União Soviética e, na Rússia, diversos opositores do Presidente russo, Vladimir Putin, foram encontrados mortos, a grande maioria envenenados.

 

Duplo assassinato 

O primeiro cargo ocupado pelo ex-agente da KGB, organização de serviços secretos da antiga União Soviética, foi como primeiro-ministro da Rússia, em 1999, cargo que ocupou até 2000, ano em que se tornou pela primeira vez Presidente. Neste primeiro mandato, as primeiras vítimas podem ser delineadas em 2003, ano em que o jornalista investigador Yuri Shchekochikhin e o político Sergei Yushenkov, depois de investigarem os atentados contra apartamentos russos em 1999 com ligações a Putin, surgiram mortos. O jornalista morreu 16 dias depois de contrair uma misteriosa doença (os documentos deste caso foram considerados como classificados pelo Governo russo), e o político foi baleado perto de sua casa.

 

Chá envenenado

Também foi um agente da KGB, mas assim que abandonou a agência, Alexander Litvinenko, tornou-se um dos maiores críticos de Putin e do Governo russo. Entre várias acusações, disse que o Presidente estava envolvido no atentado dos apartamentos russos e as forças militares russas de estarem envolvidas no tiroteio no Parlamento da Arménia, em 1999. Litvinenko exilou-se, em 2000, no Reino Unido, onde continuou a criticar o Kremlin, e, seis anos depois, morreu após ingerir um chá envenenado. Os homicídios foram atribuídos a Andrei Lugovoi e Dmitry Kovtun, o primeiro chegou a receber uma medalha de honra "pelos serviços prestados à terra mãe". 
Litvinenko também acusou Putin de estar envolvido no assassinato da jornalista Anna Politkovskaya, que, no seu livro Putin’s Russia, acusou o político de transformar o "país num estado policial", cita o Washington Post, e do abuso de poder na Chechénia. A jornalista foi assassinada no elevador da sua casa em 2006.

 

Tentativas falhadas

Sergei Skripal era um agente duplo que enganou as forças secretas russas para vender segredos ao Reino Unido. Foi preso, em dezembro de 2004, pelo Serviço Federal de Segurança da Rússia e condenado a 13 anos de prisão por alta traição. Em 2010, após uma troca de espiões do Programa Ilegais, refugiou-se no Reino Unido. Apesar de estar aposentado desde que trocou de país, em março de 2018, Sergei e a sua filha Yulia foram envenenados com um agente nervoso novichok, em Salisbury, Reino Unido, e internados de urgência. Apesar de terem ficado em estado grave, sobreviveram ao ataque e, em maio, Sergei abandonou o hospital. 

Depois deste ataque, vários países e organizações expulsaram os diplomatas russos como forma de demonstração de solidariedade com o Reino Unido, no que foi chamado de "a maior expulsão coletiva de oficiais de inteligência russa da história". Portugal, apesar de não ter expulsado o diplomata russo, chamou de regresso a Portugal o seu embaixador na Rússia.

Apesar da Rússia ter negado o ataque, o Telegraph, em janeiro de 2019, noticiou que as autoridades britânicas apontam que este caso foi uma tentativa de homicídio com ordens de Putin.

Vladimir Kara-Murza, opositor de Putin, foi alvo não de um, mas de dois envenenamentos. Os ataques a Kara-Murza, com ligações a Boris Nemtsov, outro político crítico de Putin, morto perto do Kremlin, em 2015, aconteceram em 2015 e 2017, onde passou por dois envenenamentos semelhantes. Em ambos os casos, o advogado do político tentou abrir uma queixa crime, mas os pedidos foram revogados sem explicação.

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