Sociedade

Há risco de confinamento no Natal

Dois modelos mostram como poderá evoluir a epidemia. Redução contactos dentro e fora das escolas pode travar segunda onda, mas atual mobilidade sugere subida de casos. 

A incerteza em torno dos próximos meses mantém-se, mas são agora conhecidos dois modelos que mostram como poderá evoluir a epidemia de covid-19. Os comportamentos são determinantes, mas nas projeções da Universidade de Washington não se exclui a necessidade de um novo confinamento. Em Portugal, apontam dezembro como o mês crítico.

A receita tem sido afastada por vários países e António Costa reiterou esta semana que o país não pode voltar a parar como em março. O foco é agora um regresso às aulas e ao trabalho sem aglomerações. A equipa do epidemiologista Manuel Carmo Gomes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, apresentou ao Governo um modelo baseado na rede de contactos da população e na dinâmica da epidemia no país – nomeadamente resultados do inquérito serológico que mostrou que houve seis vezes mais infeções do que as que foram diagnosticadas. A equipa prevê que a redução de contactos será vital para achatar ou mesmo evitar uma segunda onda, o que requer uma redução de contactos nas escolas e que os contactos em geral na sociedade sejam pelo menos metade do que existia antes da covid-19. «A segunda onda não é uma fatalidade», sublinhou Carmo Gomes na reunião de peritos na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, explicando que a vantagem do modelo é mostrar como se pode travar a subida de hospitalizações. Por exemplo se as escolas reabrissem com o contacto entre alunos pré-covid, a segunda vaga poderia ser maior que a primeira.

Já Ali Mokdad, um dos autores das projeções da Universidade de Washington, que apontam para 2,7 milhões de mortes em todo o mundo no início de 2021 – que poderão ser reduzidas em um terço com o uso massivo de máscaras –, sublinha a importância de todos os comportamentos, mas mantém medidas como o fecho de escolas e de serviços não essenciais no horizonte. Para Portugal, o modelo desenvolvido pela Universidade de Washington, que tem por base relatórios de mobilidade das operadoras de telemóveis e um inquérito sobre o uso de máscara feito a nível global no Facebook, mostra um aumento dos casos sobretudo a partir de novembro. Para definir em que momento os países reporiam medidas de confinamento, utilizam o patamar de 8 mortes por milhão de habitante, o que na projeção atual se atinge no início de dezembro. Com uso alargado de máscaras, se a população a usar sempre, pode ocorrer no fim do ano. «Não lhe chamamos segunda onda, porque isso implicava termos descido a zero casos e começar tudo de novo, o que não aconteceu. Ainda estamos na primeira onda. Se é evitável [a evolução]? Quando se reduz mobilidade, se utiliza sempre máscara, se mantém a distância, se lava com frequências as mãos, se as pessoas não baixarem a guarda, conseguiremos prevenir muitos dos casos», afirmou Mokdad ao SOL, chamando no entanto a atenção de que deverá existir um efeito de sazonalidade com maior circulação de vírus e o mau tempo vai condicionar soluções como esplanadas e alternativas ao ar livre. Ao mesmo tempo, a subida dos casos também poderá levar a população a adotar comportamentos mais seguros.

O modelo, com base na atual mobilidade, prevê até ao final do ano 4 mil mortes por covid-19 no cenário mais favorável, com uso massivo de máscara, e 8 mil com o uso atual, que situam em 65%. Em ambos os cenários, que serão atualizados com a evolução da mobilidade das próximas semanas, estima-se a esta altura que se chegue ao patamar crítico para confinamento em dezembro. Estimam 11 mil mortes se tal não ocorrer e um aumento exponencial de casos, que em dezembro poderão estar entre as 15 mil e 20 mil infeções diárias, não havendo outras medidas. «Podemos adiar um confinamento, se as pessoas usarem máscaras e se for reduzida a mobilidade, a curva será achatada. O problema é que não conseguimos imaginar que um país atinja um número de oito mortes por milhão de habitantes ao dia e não entre em lockdown, para impedir que o vírus se espalhe de forma exponencial. Vemos a Indonésia, onde se disse que não voltaria o confinamento e hoje [quarta-feira] foi anunciado em Jacarta. Se em Portugal se chegar a um ponto em que os hospitais estão a 80% da capacidade, não há outra forma que não decretar um confinamento para não sobrecarregar os hospitais e poder admitir outros doentes. Quando isso acontecer, só um confinamento poderá desacelerar a epidemia.»

Mokdad afirma que o critério de oito óbitos por milhão de habitantes foi o seguido pela maioria dos países para decretar o primeiro confinamento. Em Portugal, estava-se longe disso – quando o país entrou em estado de emergência, perante o colapso do sistema de saúde em Itália e Espanha, registavam-se no país cerca de 100 novos casos/dia e o RT era crescente, tendo atingindo o máximo de 2,07, o valor quando o país confinou. A epidemia tinha feito as duas primeiras vítimas.

 

As linhas vermelhas

António Costa considerou esta semana que o confinamento é um não-cenário, mas apontou linhas vermelhas. A primeira será a evolução dos óbitos. «Não há bem maior que a vida e esse é essencial», disse. «Em segundo lugar, a nossa capacidade de cuidados intensivos. Nunca estivemos em situação limite, tem vindo a haver um reforço constante da nossa capacidade de cuidados intensivos. Mas se de repente todos ficarmos a precisar de cuidados intensivos, esse é um indicador importante. A terceira é a necessidade de internamentos no sistema hospitalar e ter em conta que o sistema hospitalar e o SNS não se podem dedicar em exclusivo ao covid-19», continuou, reiterando ao mesmo tempo que o objetivo é não encerrar escolas nem voltar a parar a economia.

O SOL questionou o Ministério da Saúde sobre se estão definidos patamares a partir dos quais poderão ser apertadas medidas, quer em termos de evolução de óbitos quer de hospitalizações, mas não teve resposta até ao fecho de edição. Na conferência de imprensa sobre a covid-19, a ministra da Saúde sublinhou que a situação epidemiológica atual exige um redobrar dos esforços de todos e admitiu que o resultado será decisivo para que o país possa funcionar: «As medidas adotadas procuraram o melhor equilíbrio entre os valores em presença, como é evidente, procuramos oferecer um regresso seguro às escolas, proteger os mais vulneráveis, nomeadamente os mais idosos e residentes em instituições e procuramos garantir que o trabalho e a economia se mantêm a funcionar. Isso só será possível se equilibrarmos os contactos. O número de contactos e também a proteção usada nesses mesmos contactos são decisivos.»

Apesar de as regras do Governo seguirem a lógica de redução de contactos, não foi tornado público se medidas como a redução de ajuntamentos a 10 pessoas, limites de quatro pessoas em estabelecimentos num raio de 300 metros das escolas ou a obrigatoriedade de turnos rotativos e equipas em espelho nas empresas das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto visam atingir os objetivos de algum dos cenários traçados pela equipa de Carmo Gomes.

Na apresentação ao Governo e partidos, o investigador apresentou quatro cenários para a evolução das hospitalizações, sem detalhar números globais. Se as escolas reabrissem a 14 de setembro com os contactos entre alunos iguais ao que havia antes da covid-19 – e no pressuposto de que a sociedade os contactos se mantêm reduzidos a metade – a segunda vaga de aumento de hospitalizações seria superior à do início da epidemia, em que houve um pico de 1302 doentes internados a 16 de abril, que depois começou a cair (as escolas fecharam a 15 de março e a 18 de março foi decretado o estado de emergência). Num cenário de redução de contactos nas escolas a 70%, a equipa de Carmo Gomes aponta para uma média de hospitalizações idêntica à da primeira vaga, sendo que uma redução dos contactos a 50% permitiria um achatamento da curva para níveis menores do que os da primeira vaga. E a redução a 30%, evitaria com mais segurança uma segunda onda._«É exigente mas é possível», afirmou o especialista.

Durante a semana, o investigador afirmou que o aumento de casos que se regista nesta altura no país só era esperado no final de setembro. «Não temos visto um correspondente aumento nos hospitais e espero que assim continue, mas agora não há dúvida que é pena que comecemos as aulas a 14 de setembro nesta situação», afirmou à Renascença. «A minha recomendação é que reforcem já as equipas de saúde pública», disse.

 

Epidemia acelera

A semana fechou com um nítido aumento de casos face à semana passada. O RT sitou-se em 1,14 na primeira semana de setembro e acentua-se agora a tendência crescente da epidemia. De segunda-feira até ontem registaram-se no país 3356 novos casos de covid-19, o que compara com 2383 na semana anterior. O número de casos ativos supera agora as 17 mil pessoas infetadas em acompanhamento, das quais 404 internadas.

Quando o país entrou em estado de emergência havia 637 casos ativos no país. Na altura faziam-se menos testes, pelo que as comparações não são lineares. O pico de casos ativos registou-se a 15 de maio, quando havia 24 mil doentes infetados. Mais de metade das infeções com ligação conhecida têm ocorrido em contexto familiar mas neste momento é conhecida a ligação em apenas 60% dos casos, revelou a ministra da Saúde. Começa uma nova etapa, em que o objetivo volta a ser «achatar a curva», expressão que durante algum tempo não se ouviu, e que Marta Temido tornou ontem a usar.

 

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