Sociedade

Prostituição em tempo de pandemia

A pandemia, com o seu cortejo de gente desempregada, atirou muitas mulheres para a prostituição. Sem meios de subsistência, venderam a última coisa de que dispunham: o corpo. O SOL visitou uma ‘casa de passe’ clandestina e ouviu as razões mas também as queixas de mulheres que se dedicam a ‘satisfazer os homens’. Quanto a estes, a realidade mostra que o receio do coronavírus não lhes afetou a virilidade.

Já teve várias identidades e por vezes nem se lembra do seu nome verdadeiro. «Chame-me madame Guida, é assim que me tratam as raparigas», apresenta-se a dona do bordel clandestino, em plena Baixa lisboeta, num trejeito de coqueteria que, nos seus 68 anos muito surrados pela vida, lhe confere um ar trágico-cómico.

De roupão de seda encarnado até aos pés e o rosto coberto por uma espessa crosta de make-up e pó-de-arroz, parece um muro arruinado e prestes a desfazer-se. Sem mais, a senhora agarra a jornalista pela mão enquanto atravessam o longo e esquálido corredor da casa pombalina: «Venha, queridinha, vamos para a cozinha. Esta noite foi boa, não faltaram clientes. Desculpe recebê-la assim, mas deitei-me muito tarde e acordei agorinha. Ainda está tudo por arrumar».

São duas da tarde, mais coisa menos coisa. A casa, de janelas fechadas, está praticamente às escuras, como se se protegesse do sol que estoirou em setembro. O cheiro a intimidades, tabaco e álcool, misturado com um aroma de refogado, carregam a atmosfera de um odor enjoativo. Todos os aposentos estão meticulosamente fechados, mas uma corrente de ar quente vinda do outro extremo da casa entreabre uma das portas, que a anfitriã se apressa a fechar.

O seu humor muda repentinamente e adivinha-se nela uma intensa repulsa: «Aqui fica o bar, onde os clientes bebem um copo quando têm de esperar que um quarto ou a mulher fiquem livres. Não a deixo entrar, porque esta madrugada ia havendo aqui uma tragédia. Está tudo de pernas para o ar, vomitado e com sangue. Sabe que isto do covid tem trazido a desgraça a muita gente, mas eu cá nunca admiti faltas de respeito com as minhas raparigas».

'Nasci para isto'

A conversa fica em suspenso quando madame Guida entra na cozinha, onde outra mulher, muito mais jovem, colada ao fogão como se carregasse o inverno às costas, controla o refogado. Antes de se lhe dirigir, a anfitriã leva ao rosto a mão trémula, pejada de anéis de ouro, e pousa o dedo indicador no nariz, numa cumplicidade aparentemente tácita com a jornalista: «Então, Maria, não dizes nada? Esta é a senhora de quem te falei». A outra, como se tivesse o corpo congelado, move apenas ligeiramente o rosto onde repousa uma imensa tristeza, cumprimenta e retoma a posição inicial.

Nos momentos difíceis, madame Guida recorre às suas capacidades humorísticas. Gaba-se de ter sido uma mulher formosa, amante da paródia e de uma avidez de ventre capaz de saciar um quartel: «Nasci para isto, o que eu não queria era ficar em casa a levar com o cinto do meu pai, que era um bêbado. Comecei logo em pequena com garotos da minha idade, depois entreguei-me aos mais velhos e, aos 16, fugi da aldeia com um homem casado. Em Lisboa, troquei-o por outro também casado, muito mais velho, mas também muito mais rico!».

Madame Guida pode ser uma magnífica trapaceira, mas quando nos conta a sua vida parece ser impossível não ser verdade o que diz. Escolheu esta vida não por desespero mas depois de uma reflexão ponderada. Sabia o efeito que provocava nos homens: «Eu tinha uma grande figura, mas também os sabia levar. O homem que me deu esta casa, há 35 anos, se eu lhe dissesse em pleno dia que era noite, ele acreditava. Agora é tudo o que tenho e vai ser a minha reforma. Se não fosse a miséria que o covid tem arrastado – com o desemprego e as casas de alterne todas fechadas, o que obrigou muitas mulheres desta vida e sem ser desta vida a virem pedir-me ajuda – e já tinha vendido isto aos filhos dele que querem fazer aqui um hostel. Vou ficar rica, voltar para a terra e pôr flores todos os dias na campa do meu defunto pai, que agora já não faz mal a ninguém».

 

'Macho pensa da cintura para baixo'

A conversa corre e Madame Guida acompanha vigilante as reações de Maria que, andando de um lado para o outro a pôr a mesa para três, pisa o chão como se andasse sobre gelo estaladiço – para não darem por ela. «Cheira bem, não cheira? São ervilhas com ovos. Esta rapariga tem cá uma mãozinha para a cozinha… pudesse eu pagar-lhe para que só fizesse isto! Vá lá, senta-te, Maria, e bebe um copo que te faz bem».

Num segundo, os papéis são invertidos. E é a dona da casa quem conduz o assunto para a atualidade e modera a conversa: «Se pensa que os homens, lá por o vírus andar a matar sem olhar a quem, deixaram de recorrer aos nossos serviços, engana-se. Macho que é macho pensa da cintura para baixo!».

A mulher admira os seus próprios ditos e ninguém a suplanta na expressividade da linguagem. Entre uma ruidosa gargalhada e outra, conta que, em matéria de sexo, a maioria dos homens prefere o risco à abstinência: «Apesar de saber que os clientes se estão nas tintas para a proteção, quando entram obrigo-os a desinfetar as mãos e pergunto se querem máscara. Nem um! De início, as raparigas tinham medo e tentaram convencê-los. Houve cada cena! Uma vez, veio uma delas ter comigo à cozinha muito aflita, porque o cliente era medroso, quis usar máscara e, a dada altura, caiu de bruços, a abrir e a fechar a boca como um peixe fora de água. Quase que era preciso reanimá-lo! Nesta nossa vida, é impossível usar máscaras».
Dos seus tempos áureos, a senhora mantém os olhos felinos da cor das algas marinhas e os dentes perfeitos. Com a alma couraçada contra perigos e desânimos, prefere o lado anedótico da vida a estados de alma: «Os homens, às vezes, são muito criativos. No início deste pandemónio todo, houve um cliente que achava que, se usasse as raparigas só de costas, o vírus não o pegava. Pediu para lhe arranjar uma que também usasse máscara. Só que sempre gostou muito que lhe fizessem um bico e a dada altura não resistiu -- e pediu-lhe que lhe fizesse um broche, mas só na condição de ela usar meia máscara. Imagine! Só meia máscara, o burro!».

'As casas privadas ganharam com a pandemia'


O almoço segue, bem regado. As cores voltaram ao rosto de Maria, que se mantém em silêncio. As ervilhas com ovos estão um mimo. O refogado em lume brando e os enchidos – que o segurança da casa traz do Alentejo sempre que lá vai ver os pais, uns pequenos agricultores que fintam a ASAE, matando uns porquitos de vez em quando – fazem o resto.
Madame Guida abre um pequeno parêntesis e entra na sua vida privada, como em tudo, sem reservas: «O meu Chico foi pugilista, mas apanhou tanto soco naquela cabeça que tem de ser medicado, senão pode ser perigoso. Ainda tem uma força monumental. Conhecemo-nos noutra casa que eu tive, porque nesta só pus raparigas numa altura em que fiquei mal de finanças. Ele agora trata da segurança e de mim, que sempre gostei deles brutos e a cheirarem a cavalo, desde que seja eu a segurar as rédeas ao dinheiro».
Madame Guida retoma a anterior linha de raciocínio. Apesar do ímpeto cego com que o novo vírus entrou no mundo, nada consegue derrotar o maldito demónio do sexo: «As casas privadas só tiveram a ganhar com a pandemia. Os clubes noturnos, como o Elefante Banco ou o Gallery, fecharam e os clientes vieram para aqui. Apareceu-me gente, encaminhada por velhos amigos ou por taxistas que me conhecem, que nunca tinha visto. Até reformados. Um dia, um rapaz liga-me, muito aflito, porque o pai, com 70 e muitos anos, que estava habituado a passar as tardes com os amigos a jogar às cartas, apanhou uma depressão quando os cafés fecharam. Veio cá ainda duas vezes. Mas só de subir ao quarto andar ia morrendo. E tivemos um engenheiro informático que ficou em teletrabalho, e estava tão farto de estar fechado em casa com a mulher e os filhos que vinha cá praticamente só para desabafar. Um dia lá descontraiu e fez o que um homem deve fazer com uma mulher. Estava tão doido que começou a apertar o pescoço à rapariga. Ela lá o conseguiu controlar-se e dizia: ‘Este tipo ainda mata a família toda’».

'A vergonha de Maria'

Madame Guida navega sem problemas morais no trilho frio da realidade. Conhece-a por dentro e de forma desapaixonada. Não anda desatenta aos rumores crescentes sobre a gravidade da pandemia e, questionada sobre os seus métodos insólitos para o avanço da humanidade, dispara sem preâmbulos: «O que é que mata mais rapidamente: o vírus ou a fome? Sabe que uma puta não tem direito a nada, subsídio de desemprego, layoff, baixa, nada. Andam todos a discutir se se deve legalizar ou não a prostituição, mas viu por acaso algum político lembrar-se de nós quando mandaram encerrar todas as casas da noite e a pôr a polícia a chatear as mulheres que andam na rua? Então, esperavam que vivêssemos de quê?».

A dona da casa não é mulher para se deixar dominar por fúrias, ou então domina-as como em tempos dominou o sexo oposto. Sabe que vive numa sociedade onde o primeiro a chegar é o primeiro a servir-se: «Pergunte à Maria o que é adormecer sem ter sequer um bocado de pão duro para dar ao filho no dia a seguir».
A outra, que até aqui acompanhara a conversa de olhar fixo nas palmas das mãos que alisam a mesa como se fossem um ferro de engomar, sem levar uma única garfada à boca, parecia sair do seu casulo a ferros com o discurso empolgado da patroa.

A impertinência da mulher mais velha provoca-lhe rubor por cima de rubor. Maria sempre soube que a única forma de evitar acidentes de percurso era ficar à margem deles. Aprendeu cedo: a irmã mais velha, aos 16 anos, já estava agarrada às drogas – e, para pagar o vício, vendia o corpo até amanhecer, acabando por dormir em qualquer canto no antigo Casal Ventoso. Morreu de overdose e destroçou o pai que, no longo caminho que atravessou para tentar tirá-la do inferno em que caíra, não aguentou e seguiu-lhe o rasto pouco depois.

Maria fez tudo para seguir um caminho contrário. Aos 15 anos abandonou o liceu para cuidar da mãe – que, atingida pelo Alzheimer, se fechara sobre si própria. Claro que o resto da família, ela e a irmã Rosa, mais velha dois anos, não conseguia viver com a reforma de penúria da senhora, uma antiga operária fabril, e começaram a deitar a mão a tudo o que aparecia: «Trabalhei toda a vida como empregada doméstica e sempre me aguentei sem dever um cêntimo a ninguém. Agora, apesar de me ter divorciado, tinha a minha vida regularizada. Trabalhava em várias casas, tinha os dias todos ocupados e ganhava 800 euros por mês».

Aos 25 anos, Maria não esperava esta reviravolta na vida. As palavras saem-lhe cada vez com mais dificuldade, como se a língua estivesse dormente: «Com o covid, três senhoras, onde eu trabalhava o dia inteiro, com medo, dispensaram-me. Não tinha economias suficientes para manter a renda da casa, água, luz, comida. Passei fome para que nada faltasse ao meu filho que tem apenas quatro anos. Até que uma noite tomei uma decisão: entreguei o menino à minha irmã que vive em Palmela. Desde aí, nunca mais o vi. Não lhe consigo pegar, tenho nojo de mim própria».

‘É mais fácil os pobres ajudarem do que os políticos’

Madame Guida, que não a interrompera uma única vez e ouvira tudo sem se mexer – calculando que a tristeza a estava a demolir aos poucos e que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por derrotá-la –, levanta-se antes que rebente o choro convulsivo e envolve-a num embalo carinhoso. Enquanto protesta contra as aberrações e injustiças da vida, a patroa tenta apaziguar a dor da outra: «Tu tiveste foi muita coragem, filha. Depois, não digam que as mulheres só vêm para esta vida porque é ‘dinheiro fácil’. Tenho outra rapariga aqui na mesma situação. Trabalhava num cabeleireiro e ficou em layoff. Tem dois filhos… dois! Mas esta gente que está no Governo não sabe que as pessoas têm dívidas nos bancos, casas para pagar? Sabe: é mais fácil encontrar ajuda entre os pobres do que nesta canalha. Os pobres têm sempre para mais um. Foi o que aconteceu à Maria».

A história da jovem mulher passa a ser contada na terceira pessoa. Naquela noite em que decidiu entregar o filho à única família que lhe restava só lhe vinha à memória repetidamente as palavras da irmã que morreu de overdose: «O dinheiro fala mais alto, o dinheiro fala mais alto». Dois dias depois, meteu-se no autocarro em direção ao Alvito, em Monsanto. Um homem parou o carro à sua beira. Ela entra, ele segura-lhe na cabeça e direciona-a…

Pouco depois ela saía do veículo com dez euros na mão – e vomitou. Chovia. Do lado oposto, uma mulher, abrigada numa paragem do autocarro, percebera tudo e vai ao seu encontro: «Era uma rapariga que já trabalhou para mim, mas entregou-se às drogas, já nem dentes tem. Viu logo que esta era novata e que, com o corpo e cara que tinha, podia fazer muito mais dinheiro noutro lado e encaminhou-a para mim».

Madame Guida não é mulher para grandes esbanjamentos afetivos. Com muita experiência nos negócios da carne, no início não ganhou apego à rapariga, tentou apenas formá-la. Ensinou-a a entreter os homens enquanto avisava os clientes que tinha mais uma novidade disponível: «Todas as noites chorava. Telefonava do meu telemóvel para o filho e eu, que costumo dizer que não tenho coração, comovia-me. Vi logo que a rapariga não ia aguentar. Estou a ajudá-la a arranjar emprego. Para a semana, vai a uma entrevista para ver se fica como interna a cuidar de um idoso».

‘Levou um soco que lhe abriu a bocadura’

Maria, como se adivinhasse onde a conversa ia desembocar, desapareceu. À porta da cozinha, qual génio libertado de uma garrafa, assoma a cabeça de Chico, o segurança e companheiro da dona da casa: «Parece que o raio do homem adivinhava que ia falar nele… Olha, queridinho, tira dinheiro ali da cómoda e vai comer qualquer coisa fora. Vai lá, vai!».
Ele sai, ágil, e ela retoma o fio da meada: «Eu tenho feito tudo para arranjar à Maria os melhores clientes. Homens mais velhos, que já mal conseguem acender a vela. Aqui, quando os clientes marcam, pergunto sempre o que querem: se é bico, sexo normal ou anal. Tudo completo são oitenta euros. Eu fico com metade porque também entro com tudo: cama, roupas. Ontem, a Maria recebeu um cliente, aquele de que já lhe falei, que vinha bêbado. Tinha pedido sexo normal que é mais barato. A dada altura, ela começa a gritar, mandei lá ir o Chico e o desgraçado estava a forçá-la para ter sexo anal e a bater-lhe. Levou um soco que lhe abriu a bocadura toda. Ficou a dormir no bar. Foi um amigo que veio buscá-lo hoje de manhã».

Madame Guida aproveita o caso para esquadrinhar a fundo os tempos incertos que correm e lembrar que estamos todos na mesma nau: «Isto é a lei da selva e, com este vírus, há sempre quem se tente aproveitar da desgraça dos outros. Como agora há mais oferta do que procura, os homens querem pagar menos. É humilhante. E depois existem casos como este. Conheço um caso bem pior. Uma rapariga que já trabalhou para mim, bem bonita mas maltratada pelo vício, dado os hotéis estarem fechados por causa da pandemia, foi com um cliente para casa dele. No fim, o sacana não lhe quis pagar. Como ela sempre teve pelo na venta, puxou de uma naifa que tinha na mala e cortou-o. Está agora em Tires, acusada de tentativa de homicídio».

Cruzamos de novo o enorme corredor despido de adereços, desta vez em direção à saída. Madame Guida está abatida, como se voltasse cansada de uma longa viagem. No olhar turvo, adivinha-se que a única coisa que lhe resta naquele momento é uma enorme vontade de chorar. Mas não é essa a imagem que quer que retenham. E como se fosse feita à prova de qualquer erosão, termina com uma gargalhada: «Se estivesse cá ontem à noite, logo via a animação. Parecia um recreio. Era eles a guincharem por um lado e elas a fingirem por outro».