Sociedade

Canábis à beira mar plantada

Infarmed já deu mais três autorizações para cultivo de canábis para fins medicinais desde o início do ano. São agora oito projetos com luz verde do regulador, um mercado que cresceu nos últimos dois anos e quer marcar posição no mapa. Este ano já foram exportadas três toneladas de flor seca para uso terapêutico. 

Onde fica a maior plantação de canábis para fins medicinais da Europa? À luz dos últimos anúncios neste mercado, Aljustrel e Benavente podem vir a disputar o título. No início setembro, a Câmara Municipal de Aljustrel anunciou que tem atualmente a maior plantação – já a pensar também na expansão prevista pela empresa que se instalou nos últimos anos na freguesia de São João de Negrilhos, no coração do Baixo Alentejo. Mas em Benavente há também um projeto de grande envergadura em marcha – a concorrer para ser um dos maiores do mundo. Se os números ainda têm de ganhar forma, certo é que Portugal parece estar cada vez mais no mapa mundo da produção de canábis para fins medicinais – um negócio que descolou em 2014 com a primeira licença para cultivo, cativou nomes históricos da vida política nacional como Ângelo Correia e Jaime Gama e não tem parado de crescer.

Depois dos recentes anúncios, o SOL pediu um ponto de situação ao Infarmed, que confirmou que há atualmente oito autorizações para o cultivo do canábis para fins medicinais no país. São mais três que no início do ano. Para este ano as diferentes empresas indicaram ao regulador uma previsão de cultivar ao todo oito hectares, «não existindo ainda informação relativamente às quantidades colhidas, as quais serão apuradas no final do ano», informa o regulador. 
As plantações dos últimos anos já têm dado fruto – ou flor, no caso. «Confirma-se a exportação, durante o presente ano, de 3594 kg de flor seca de canábis para fins medicinais», adiantou ao SOL o Infarmed.

Sete distritos com canábis

Ainda de acordo com o regulador nacional do medicamento, ao qual as empresas têm de submeter anualmente pedidos de autorização para cultivo, produção e exportação de uma substância cuja plantação é de outra forma considerada ilícita – e só em setembro foram desmanteladas plantações em Almeirim, a maior de sempre, mas também em Miranda do Corvo e Santarém – neste momento há sete distritos com projetos: Beja, Braga, Coimbra, Évora, Lisboa, Setúbal e Faro. 

A de Aljustrel (Beja), já referida, foi a primeira no Alentejo. Pertence à canadiana Flowr Corporation, com as subsidiárias Holigen e RPK Biopharma, que formalizou já este ano uma parceria com a Terrace Global Inc. para financiar a expansão da plantação em São João de Negrilhos, anunciou também em setembro a empresa. Além disso, têm estufas e uma unidade de cultivo em Sintra, onde já tem certificação para avançar com o fabrico de produtos para o mercado europeu.

Em Aljustrel, a aposta é o cultivo ao ar livre e apontam agora para plantações de até 12 hectares de terra em 2020 para o cultivo de canábis medicinal para o mercado europeu, indicou em comunicado a empresa, números que não coincidem com os disponibilizados esta semana ao SOL pelo Infarmed, que explicou que a informação é submetida no início do ano pelas empresas e pode sofrer alterações.

A Câmara de Aljustrel também referiu que estão cultivados atualmente nove hectares e adianta que no próximo ano está previsto um crescimento exponencial: «Em 2021, a produção irá aumentar exponencialmente, uma vez que irá ser alargada a 40 hectares. O cultivo, esse, acontece preferencialmente em outdoor». 

A Flowr Corporation não foi a única empresa canadiana – o país que lidera o mercado mundial de canábis medicinal – a decidir escolher Portugal para expandir o negócio. A primeira foi aliás a Tilray, no top 3 das maiores neste mercado e que contou com o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Jaime Gama como consultor no início da operação em Portugal. A gigante apresentou publicamente as suas intenções de investir no país na primeira Web Summit em Lisboa, corria o ano de 2016, e pouco se ouvia falar por cá de plantações para fins medicinais. Inauguraria a sua unidade de produção de canábis em 2019 em Cantanhede (Coimbra) e anunciou este ano o início da exportação para Israel, prometendo novas latitudes para a canábis produzida em Portugal. Este ano somou à primeira autorização uma segunda para iniciar produção em Reguengos de Monsaraz (Évora), a segunda no Alentejo. 

A última canadiana a entrar na corrida ao ‘ouro verde’ em Portugal foi a VF 1883 Pharmaceuticals, que recebeu licença do Infarmed no início do ano e é a que está a instalar-se na Herdade do Porto Seixo, em Benavente. Segundo o Público, o município do Ribatejo já deu parecer prévio favorável para a instalação de 10 pavilhões de secagem, seis estufas e edifícios de apoio.

Início discreto 

Até ao virar desta década em Portugal plantava-se apenas papoila de ópio para a produção de medicamentos analgésicos, negócio que entretanto desapareceu – nos últimos anos, a epidemia de dependência de medicamentos opióides tornou um dos tópicos críticos da saúde, em particular nos EUA. «Atualmente não existe produção nacional de papoila de ópio para fins medicinais», disse ao SOL o Infarmed. Em 2016/2017, estavam previstos 600 hectares de cultivo no Alentejo.

A empresa Terra Verde, criada pelo israelita David Yarkoni com a participação também da britânica GW Pharmaceuticals, foi a primeira a ter licença para o cultivo de canábis no país, mercado que por outro lado veio conhecendo novos desenvolvimentos e indicações (o uso de canábis para fins medicinais seria legalizada em Portugal em 2018, e regulamentado no início do ano passado). Para trás ficava um início discreto do cultivo do país: esta primeira empresa nunca procurou holofotes e permaneceu de resto envolta em algum mistério, sem contactos além de email – o i também a tentou contactar em 2017, sem sucesso. O antigo deputado do PSD Ângelo Correia comprou 40% do capital no início de 2019, confirmou na altura à imprensa, e já no verão o negócio passou para mãos maiores.

A britânica EMMAC anunciou a compra de 100% da empresa e da plantação de canábis mais antiga do país – a sede é no Montijo – anunciando que com o negócio se tornava a maior empresa a operar no espaço europeu, juntando Portugal às operações no Reino Unido, Alemanha e Itália. Ângelo Correia confirmou na altura à revista Exame que ambos, ele e Yarkoni, tinham vendido as posições, mas continuavam ligados à empresa, não só através de uma posição acionista como enquanto administradores da EMMAC em Portugal. A EMMAC Portugal fora constituída como empresa no final de 2018

Com canadianas e agora um peso pesado britânico no mercado, há pelo menos mais duas empresas a operar nesta área em Portugal. A portuguesa Sabores Púrpura, empresa agrícola de Coimbra com plantações em Tavira. Em 2019 anunciou planos para criar até 750 empregos e, segundo o DN, quer agora expandir a atividade para Beja. Já a israelita Cann 10, com uma subsidiária portuguesa desde 2016, recebeu este ano a pré-licença para avançar com o cultivo e processamento de produtos medicinais, um projeto aguardado em Vila de Rei. Em julho, o presidente da Câmara Municipal indicou ao jornal Médio Tejo que se espera o parecer final do regulador. Da parte da autarquia está tudo pronto a receber este investimento de 10 milhões de euros pelo menos de 2018, escreve o jornal.

Perspetiva: continuar a crescer

A pandemia não travou o crescimento do mercado, pelo menos a nível global – por cá, não existe uma análise agregada e o Infarmed não facultou o nome das empresas licenciadas ou a exploração de cada uma. Uma análise da consultora BDSA, divulgada na semana passada, estima que o setor aumente este ano as vendas em 38%, atingindo os 19,7 mil milhões de dólares a nível global. Até 2025, prevê que o mercado possa mais do que duplicar para os 47 mil milhões de dólares, com um crescimento de 22% ao ano. 

Em Portugal continua a haver por agora mais pés plantados do que produtos à base de canábis nas farmácias. 
Há apenas um medicamento com autorização de introdução no mercado nacional, o Sativex, indicado como segunda linha no tratamento para a melhoria dos sintomas em doentes adultos com espasticidade moderada a grave devida a esclerose múltipla. 

Segundo a plataforma de informação do Infarmed, uma embalagem com três frascos nebulizadores de 10 mil custa 475 euros nas farmácias, sendo comparticipado em 37% pelo Estado sempre mediante receita médica, que tem de obedecer às regras previstas na lei. A prescrição de medicamentos e preparações à base de canábis pode acontecer em situações em que os tratamentos convencionais não produzem efeitos ou têm efeitos adversos.