Economia

Pedrosa: saída 'temporária' da TAP para proteger Barraqueiro

Humberto Pedrosa (novo acionista privado de referência da TAP) anunciou saída ‘temporária’ da companhia por temer que o ‘seu’ grupo Barraqueiro seja impedido de concorrer a concursos públicos.

O empresário Humberto Pedrosa decidiu abdicar, de forma «temporária», do cargo de presidente do conselho de administração da TAP - enquanto o seu filho, David Pedrosa, saiu do cargo de vogal (e de administrador executivo) -, na véspera de o Estado ter formalizado o acordo, anunciado a 2 de julho, para a aquisição da participação social da empresa que ainda pertencia ao acionista privado David Neeleman (através do consórcio Atlantic Gateway). O Estado paga 55 milhões de euros a Neeleman, passando a deter 72,5% da companhia aérea. Humberto Pedrosa, parceiro de Neeleman na ‘aventura’ Atlantic Gateway (que o empresário de dupla nacionalidade brasileira e norte-americana controlava), fica com uma participação direta de 22,5% na empresa. Os restantes 5% mantêm-se, como até aqui, divididos por trabalhadores da TAP.

E foi precisamente esta alteração societária que levou Humberto Pedrosa e o seu filho a abdicarem de todos os cargos que ocupavam na transportadora. Em causa, está o estatuto de gestor público que obriga ao cumprimento de um conjunto de critérios, e poderia, eventualmente, representar limitações que colidiam com as funções que Humberto e David Pedrosa desempenham no grupo Barraqueiro, que controlam. Pedrosa temeu, inclusive, que a sua relação com o Estado na TAP pudesse, a partir daqui, impedir que o grupo Barraqueiro continuasse a ser elegível para concursos públicos, apurou o SOL.

E embora a lei do estatuto de gestor público (de 2019) não faça referência a impedimentos para gestores com funções não executivas - como era o caso de Humberto Pedrosa -, o empresário português preferiu não arriscar e sair, antes que a situação esteja devidamente clarificada. «O motivo das renúncias prende-se com eventuais implicações, em avaliação, nas atividades desenvolvidas pelo grupo Barraqueiro, da prevista reorganização da participação acionista na TAP, SGPS do Estado Português», informou em comunicado.

 Apesar da renúncia, Humberto Pedrosa esclarece que esta saída é apenas «temporária» e que espera retomar, muito em breve, as funções que ocupava até aqui. «Após a clarificação do regime do setor público (...) retomaremos os nossos lugares» na TAP, afirmou o empresário, em declarações ao Jornal Económico.

Humberto Pedrosa é substituído por José Manuel Silva Rodrigues (antigo presidente do conselho de administração da Carris e quadro do grupo Barraqueiro), enquanto David Pedrosa cede o seu lugar a Alexandra Margarida Vieira Reis (que já trabalhava consigo e sobe agora à comissão executiva da companhia aérea).

‘Estou a fazer o que é melhor para a TAP’, diz Neeleman

Dois meses volvidos, o Estado oficializou a aquisição da parte que pertencia a David Neeleman, colocando o ponto final numa relação nem sempre pacífica. O acordo foi confirmado através de um comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) a meio da tarde desta sexta-feira. 

Em jeito de despedida, David Neeleman - o primeiro acionista privado na história da TAP - enviou uma carta aos trabalhadores da companhia aérea, onde refere que «sempre quis o melhor para a TAP». «Foi assim em 2015, quando me candidatei à privatização e acreditei quando mais ninguém acreditava, e é assim hoje quando concretizo o acordo com o Estado português para deixar de ser acionista da TAP. Infelizmente a pandemia covid, o seu impacto na indústria da aviação mundial não me permitiram continuar. A TAP precisa muito de estabilidade acionista por isso acordei sair. Estou, de novo, a fazer o que é melhor para a TAP», lê-se na missiva.

Durante os cinco anos de Neeleman na TAP, a companhia aérea cresceu, contando hoje com mais aviões, mais rotas e mais trabalhadores. As contas dos últimos dois anos ficaram, porém, muito aquém do esperado - com prejuízos de 118 milhões (em 2018) e 106 milhões (em 2019) -, precipitando (e acentuando) as divergências entre Governo e privados. Apesar dos resultados, Neeleman acredita que «todos os objetivos estratégicos acordados com o Governo» foram alcançados, afirmando-se «convicto de que os trabalhadores da TAP, que são o seu maior ativo, unidos no contexto da nova estrutura societária, saberão encontrar uma rota para a viabilidade e sucesso» da companhia.

O empresário deixou ainda agradecimentos «ao Humberto [Pedrosa] por ter sido meu parceiro e desejo a ele e a todos os trabalhadores da TAP, muito foco e resiliência para voltarem a reerguer a TAP, o que acredito ser possível». «Continuo a querer e a desejar, sempre, o melhor para a TAP», assegura. Neeleman confessa sentir «gratidão a todos os trabalhadores da TAP», deixando elogios à «sua qualidade técnica, capacidade de execução e paixão». Neeleman termina a carta dizendo que «tenho muito orgulho em ter feito parte desta equipa e deste projeto, em Portugal». «Um país fantástico, que continuarei sempre a promover, do qual gosto muito, onde fiz muitos amigos e onde sempre voltarei», conclui.

Norte-americana Korn Ferry seleciona futuro CEO

Entretanto, a Parpública escolheu a norte-americana Korn Ferry para conduzir o processo de seleção do novo CEO da TAP - cargo ocupado interinamente por Ramiro Sequeira -, confirmando a opção do Governo (anunciada pelo ministro Pedro Nuno Santos) em recorrer a uma empresa internacional especializada para escolher o melhor nome para a posição. 

A multinacional Korn Ferry, especializada em recrutar diretores e presidentes em todo o mundo, foi selecionada depois de um processo concursal que contou com propostas de mais três empresas.

A TAP continua a preparar o seu plano de reestruturação - a ser desenvolvido pela consultora norte-americana Boston Consulting Group -, e que terá de ser apresentado à Comissão Europeia até 10 de dezembro. 

O plano, que visa redimensionar a TAP à realidade atual e pós-covid-19, é uma exigência comunitária para viabilizar o empréstimo do Estado português à empresa no valor de 946 milhões de euros (e que pode chegar até aos 1,2 mil milhões de euros). 

Até ao momento, já foram pagos 499 milhões pelo Estado à companhia. Os restantes cerca de 450 milhões chegam até ao final do ano, através de prestações mensais.