Opiniao

Por qué no se callan?

Lembram-se da intervenção da mesma ministra a propósito (ainda) da Festa do Avante!? Do que era possível fazer e do que não era? «Não vamos proibir aquilo que está permitido, nem vamos permitir aquilo que está proibido», afirmou. Querem verdade de La Palice mais eloquente? E, afinal, quantos estiveram a assistir à conversa de Ricardo Araújo Pereira sobre Humor e Política? Não havia distanciamento a respeitar? As regras foram todas cumpridas?

Numa cimeira ibero-americana, realizada em 2007 em Santiago do Chile, o então Rei de Espanha, Juan Carlos, e o à data Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, protagonizaram um momento caricato. Com efeito, depois de uma altercação entre José Luiz Zapatero e Hugo Chávez, e insistindo este último em apelidar José María Aznar de fascista e acusando Madrid de estar por detrás do golpe de Estado contra si, em 2002, Sua Majestade perguntou-lhe por que não se calava…

Na realidade, nem um nem outro estão hoje no poder, sendo que Juan Carlos já conheceu melhores dias, teremos que convir…

Vem isto a propósito de inúmeras declarações de entidades oficiais, do Governo ou não, relativamente às quais dá mesmo vontade de lhes fazer a mesma pergunta que Juan Carlos fez a Chávez: por que raio não se calam? Por que razão insistem em fazer afirmações falsas, desprovidas de conteúdo, demagógicas, algumas ‘redondas’?

1. Começo pela ministra da Saúde, infelizmente na ‘berlinda’, tantas são as ocasiões em que aparece, por motivos óbvios, nos meios de comunicação social. Dizia há dias que entre janeiro e julho deste ano o número de médicos no SNS tinha aumentado; consultado o portal da transparência do próprio SNS, verifica-se, afinal, que há menos 582 (452 médicos internos e outros 130 não internos)…

Lembram-se da intervenção da mesma ministra a propósito (ainda) da Festa do Avante!? Do que era possível fazer e do que não era? «Não vamos proibir aquilo que está permitido, nem vamos permitir aquilo que está proibido», afirmou. Querem verdade de La Palice mais eloquente? E, afinal, quantos estiveram a assistir à conversa de Ricardo Araújo Pereira sobre Humor e Política? Não havia distanciamento a respeitar? As regras foram todas cumpridas?

No dia 25 deste mês, ainda a ministra da Saúde afirmava que o preço dos testes ao covid-19 pagos pelo SNS a privados baixava para 65 euros, justificando-se essa redução pela estabilização dos preços de mercado dos produtos utilizados, nomeadamente dos reagentes. Admitindo essa justificação como plausível (no início da pandemia é um facto que os preços das luvas, do álcool-gel, até do papel higiénico, subiram desmesuradamente), não será também uma razão para essa redução o acréscimo de encargos que o erário público terá que suportar atendendo ao progressivo e expectável aumento do número de testes realizados ao longo do tempo?

2. Algures em outubro do ano transato, um Projeto de Resolução (18/XIV) recomendava ao Governo que, quando ultrapassado o tempo máximo de resposta garantido para primeira consulta de especialidade no Serviço Nacional de Saúde, assegurasse aos utentes a liberdade de aceder a essa consulta em qualquer outro hospital à sua escolha, fosse do setor público, privado ou social. Já em fevereiro deste ano, ou seja, quase quatro meses mais tarde, o documento foi votado, tendo sido o projeto rejeitado pela esquerda, sem exceção. Como dizia esta semana Salvador de Mello, «a ideologia está demasiado presente na saúde e sobrepõe-se ao interesse do doente». Quem consegue refutar esta afirmação, mesmo sabendo que muitos dos portugueses não têm hipótese de recorrer a não ser ao SNS?

3. Ainda no dia 28 assistia a uma entrevista, na televisão, a Catarina Martins, em que se debatiam, entre outros temas, a aprovação ou não, pelo Bloco de Esquerda, do orçamento para 2021, qual a posição do partido relativamente ao contrato de venda do Novo Banco à Lone Star pelo Fundo de Resolução, etc. Abstendo-me de comentar o tema da aprovação do orçamento e as sucessivas alusões da entrevistada a ‘gangsterismo financeiro’ da banca, notei a referência à disponibilidade do Governo para não onerar o dito orçamento pela saída de qualquer verba para o Novo Banco. Pergunta: independentemente de se concordar com os milhares de milhões de euro pagos ao banco (poucos haverá que tenham a coragem ou ousadia de concordar), há ou não um contrato para cumprir? Quantos outros prejudicaram o Estado mas tiveram que ser honrados? Ou dá jeito ter esta posição pelos votos que dela poderão advir?

4. Fez-me lembrar um ex-PM português: «Para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança. As dívidas dos Estados são por definição eternas. As dívidas gerem-se». Certo, gerem-se, mas depois admirem-se com o aumento generalizado do endividamento e que alguns assobiem para o lado (em especial os grandes devedores da banca, que em regra continuam a não ser conhecidos nem penalizados)!

Por que não se calam estas vozes?