Sociedade

‘A ministra tem de ter mão no ministério’

Câmara de Sintra pede maior coordenação e ‘disciplina total’ na implementação das orientações para o outono/inverno. Basílio Horta fala de ‘caos’ nos centros de saúde do concelho.

Depois de queixas sobre as filas à porta dos centros de Saúde e a falta de condições para esperar debaixo de chuva, a Câmara de Sintra avançou no início do mês com a compra e instalação de telheiros em todas unidades do concelho, mas avisa que «não pode fazer mais» e lamenta que os problemas não estejam a ser resolvidos mais rapidamente.
Segundo os contratos disponíveis no Portal Base.gov, foi a primeira autarquia a fazê-lo, num investimento que ronda os 50 mil euros. «Perante o caos que se está a viver nos centros de saúde, tivemos de fazer ao menos isso», justifica ao SOL Basílio Horta, adiantando que já solicitou a intervenção da ministra da Saúde. O autarca junta-se aos apelos que se têm ouvido no setor da saúde para maior coordenação, sobretudo a nível regional. «Temos de compreender o enorme trabalho e a enorme responsabilidade que existe nesta altura e tenho pelo ministra da Saúde uma enorme consideração, mas tem de ter mão no Ministério, sobretudo a nível regional», apela, defendendo «disciplina total» no seguimento das orientações emanadas pela tutela para o outono/inverno.

A preocupação acentuou-se nas últimas semanas, à medida que têm estado também a aumentar os casos de covid-19 no concelho, mas já vêm de trás. Sintra é dos concelhos com maior falta de médicos de família e todos os anos enfrenta contrangimentos no acesso às urgências do Hospital Amadora-Sintra, um hospital projetado para servir 300 mil habitantes e que garante resposta ao dobro. Este ano, com a pandemia, Basílio Horta diz que o investimento feito pela autarquia na área da saúde vai superar os 50 milhões de euros e considera que sem a intervenção das câmaras a resposta à pandemia em áreas da competência da Saúde e Segurança Social seria uma ‘desgraça’. «A Câmara tem feito tudo dentro da sua área de competência. Não podemos fazer mais. Nos últimos anos já fizemos centros de saúde, alguns pagos na totalidade pela autarquia», afirma Basílio Horta, dando um exemplo concreto: «Na Agualva tínhamos o pior centro de saúde do país, disse-me na altura o anterior ministro da Saúde. Era num prédio de habitação, a partir de certo andar sem cobertura, e os médicos vinham à rua dar consulta. Era uma situação perfeitamente terceiro-mundista. Fizemos um centro de saúde e agora vemos com desgosto que há dezenas de pessoas na fila, porque não há pessoal administrativo, porque não atendem telefones. É perfeitamente inaceitável».

Reforço no Amadora-Sintra 
A situação no Amadora-Sintra, um dos hospitais que tem tido maior pressão na região de Lisboa, acentua a preocupação do autarca. Basílio Horta lamenta que ainda não tenha sido dado andamento a uma proposta feita em setembro à tutela,  no sentido de ser criada uma zona adicional de atendimento na urgência do hospital para este inverno. «Nós e a Câmara da Amadora propusemos financiar um acrescento das urgências, que custa um milhão de euros. São 75m2, é urgente começar a fazer isto, senão podemos estar à beira de uma situação caótica. Foi aceite pela direção do hospital, estava convencido que ainda em setembro se iniciava a construção, mas nada foi feito até hoje», diz Basílio Horta.

Contactado pelo SOL, o gabinete de comunicação do Hospital Dr. Fernando Fonseca explicou que um projeto dessa natureza depende de autorização do Ministério, uma vez que implica não só uma estrutura física mas a alocação de profissionais, cuja contratação depende de aval da tutela. Nesta altura, a urgência do Amadora-Sintra tem estado a 70% da procura, não se verificando sobrecarga, adiantou a mesma fonte. O projeto foi, no entanto, considerado bem-vindo perante o maior afluxo esperado para o inverno.

O SOL tentou perceber junto do Ministério se esta proposta de alargamento da urgência do Amadora-Sintra vai concretizar-se, já que o plano prevê estruturas de retaguarda na região, não tendo recebido resposta até ao fecho da edição. Relativamente às queixas sobre o atendimento nos centros de saúde, a ministra afirmou esta sexta-feira que a solução requer intervenções complexas e que estes são «problemas antigos do SNS que se agravaram no contexto da pandemia». Durante a semana, o presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo indicou que os problemas deste foro são pontuais e estão a ser resolvidos. 

O atendimento telefónico nos centros de saúde tem sido uma das preocupações e a ARS já distribuiu 500 telemóveis nos centros de saúde. Neste momento, todas as consultas devem ser marcadas por telefone. «O objetivo é que as pessoas telefonem, marquem as suas consultas e não haja aglomerações nem pessoas em filas de espera», disse o responsável.

Essa tem sido uma das dificuldade nos últimos meses, uma vez que as marcações online estão também limitadas neste período. Na semana passada, o presidente dos Serviços Partilhados no Ministério da Saúde, esta semana alvo de críticas depois de uma alteração informática que levou à redução das caixas de email de médicos de família, anunciou que seria lançado um projeto-piloto de centrais telefónicas digitais, mas não adiantou onde.