Desporto

Benfica. O último mandato do eterno presidente?

Luís Filipe Vieira formalizou na quarta-feira a candidatura à presidência do Benfica para o quadriénio 2020-2024, eleições às quais concorre a um sexto mandato. Aos 71 anos conta com 17 na liderança do clube da Luz: «Não vale a pena estar aqui a fazer promessas do que vamos fazer ou não vamos fazer. A obra está à vista e toda a gente a conhece». A aposta na vertente desportiva será prioridade.

Outubro de 2003: o novo estádio do Benfica viu a Luz do dia. Julho de 2006: lançamento do novo Kit Sócio, campanha de angariação de associados que conduziu o clube a uma marca inédita. Setembro de 2006: inauguração do Benfica Campus - Centro de Estágio e Formação dos encarnados no Seixal. Dezembro de 2008: arranque das transmissões regulares da então Benfica TV (atual BTV), projeto pioneiro e inovador que pretendia fazer chegar aos adeptos toda a informação sobre o clube. Janeiro de 2009: criação da Fundação Benfica, a instituição de solidariedade social das águias, que atua em diversas áreas da sociedade, com destaque para o apoio de crianças em contextos sociais adversos. Julho de 2013: nascimento do Museu Benfica – Cosme Damião. Maio de 2015: contrato de patrocínio com a Emirates, um dos grandes passos na internacionalização da marca Benfica - sete meses depois era anunciado um acordo com a NOS para a venda dos direitos de transmissão televisiva dos jogos do Benfica em casa a partir de 2016/17. Maio de 2017: conquista do inédito tetracampeonato. Julho de 2019: Benfica protagoniza a maior transferência de sempre de um jogador português com a venda de João Félix ao Atlético de Madrid (126 milhões de euros), batendo o recorde que pertencia a Cristiano Ronaldo. Já no último mês de setembro, o clube da Luz voltou a estar em destaque no mercado, desta vez com a saída de Rúben Dias para o Manchester City, por 68 milhões de euros, naquela que se trata da segunda maior transferência de sempre das águias e do campeonato português. Agosto de 2020: Regresso de Jorge Jesus ao Benfica, treinador que havia feito furor na sua primeira passagem pelas águias, tendo sido o comandante encarnado na conquista dos primeiros 50% do registo histórico das quatro vitórias consecutivas na Liga portuguesa.

Numa linha cronológica, os pontos acima mencionados representariam indiscutivelmente as grandes obras esculpidas por Luís Filipe Vieira nos 17 anos que conta na presidência do Benfica. Aos 71 anos, Vieira pretende ser reeleito para mais um mandato (até 2024), o seu último à frente do clube, diz. «Tenho 71 anos, tenho a quarta classe, não falo inglês. Estou aqui para anunciar que me recandidato à presidência do Benfica e também para dizer que este será o meu último mandato», afirmou, há cerca de duas semanas, durante a cerimónia de apresentação da sua candidatura. «Não é o fim de um ciclo, é a continuação de um ciclo de sucesso», assegurou. Um ciclo que conta já com quase duas décadas.

Presidência com o mandato mais longo

 

A 31 de outubro de 2003, Luís Filipe Vieira foi eleito o 33.º presidente do Benfica com uma votação histórica, ao registar 90,4 por cento dos votos nas eleições - o novo presidente batia assim o recorde anterior na posse de Manuel Damásio, que tivera 87% dos votos. Naquele ano, Vieira derrotou o principal rival Jaime Antunes, líder da lista B, que reuniu 14.087 votos (7,32%). O atual líder encarnado sucedeu assim a Manuel Vilarinho, o responsável pela chegada de Vieira ao clube no início do milénio, para assumir o cargo de diretor desportivo do futebol (2000-2003). Após ter sido eleito, no à data novo Pavilhão número 1 da Luz, disse: « Uma vitória com sabor especial, pela expressão dos números. Números que são o melhor sinal de que os sócios estão cansados de promessas vazias. É a vitória do trabalho, da coragem e, sobretudo, da seriedade». E continuou: «Quando aqui chegámos, encontrámos um clube em caos, quase falido. Com esforço e dedicação recuperámos a credibilidade. Hoje temos um clube financeiramente regenerado, uma equipa em crescendo e o melhor estádio do mundo». 

A nova Catedral tinha sido inaugurada cerca de uma semana antes: com capacidade para 65,647 espetadores, é o maior estádio de Portugal. Imponente e inovador, recebeu o estatuto de estádio cinco estrelas para a UEFA (categoria de Elite). Palco de referência a nível mundial, foi anfitrião de alguns dos principais eventos desportivos, com destaque para a final do Campeonato da Europa de 2004 e da final da Liga dos Campeões de 2014 e 2020 (este ano após as alterações no formato da prova na sequência da pandemia de covid-19). Fora do contexto desportivo, recebeu também a cerimónia das 7 Maravilhas do Mundo em 2007 e concertos de artistas internacionais, nomeadamente de Ed Sheeran, o músico britânico que no último ano teve lotação esgotada nos dois espetáculos que deu na Luz. No seu primeiro discurso de sempre enquanto dirigente máximo das águias, Vieira dirigiu-se a todos os benfiquistas, lembrando as «gloriosas» casas do Benfica e os sócios, «os melhores do mundo». «Serei a partir de segunda-feira o presidente de todos os benfiquistas, mesmo daqueles que não me deram o seu voto. Vamos esquecer divergências e dar as mãos para se construir um clube ganhador, à altura da sua história», rematou naquela madrugada de 1 de novembro de 2003.

A primeira grande vitória do novo presidente chegou menos de dois anos depois de ter sido eleito, com a conquista da I Liga na época 2004/05. Com o italiano Giovanni Trapattoni ao leme da equipa da Luz, o Benfica colocava um ponto final ao mais longo jejum de sempre no campeonato nacional - foram 11 anos sem conquistar o título (entre 1994 e 2005). Na sequência deste triunfo inédito, em 2006, Vieira lançou uma campanha de angariação de novos sócios, com o objetivo de aumentar as receitas das quotizações. Denominada ‘Kit Novo Sócio’, os encarnados subiram de 100 mil sócios pagantes para a marca dos 160 mil, número que valeu naquela altura a entrada no Guinness Book of Records como o clube com mais Sócios do Mundo. Apesar de ter liderado esta lista durante vários anos, o Benfica é atualmente o segundo clube do mundo com mais sócios (230 mil), superado apenas pelos alemães do Bayern Munique (293 mil).

«Levar o Benfica aos sócios» tem sido desde sempre uma missão defendida por Luís Filipe Vieira, com o sucesso do projeto inovador Kit Sócio a ser na grande maioria justificado pelos êxitos desportivos do clube da Luz. A partir de 2009/10, o Benfica apresenta-se para mudar o rumo da hegemonia no futebol português. Com Jorge Jesus à frente da equipa encarnada, as águias iniciavam o voo mais alto de sempre da história do clube. A conquista do inédito tetracampeonato foi a prova disso mesmo - Jesus venceu em 2013/14 e 2014/15 e Rui Vitória sagrou-se campeão em 2015/16 e 2016/17. Ainda com JJ no comando, as temporadas de 2012/13 e 2013/14 marcaram o regresso do Benfica às finais europeias, algo que não acontecia desde a derrota na decisão da Taça dos Campeões 1989/1990, frente ao AC Milan - nas últimas duas vezes, o Benfica também saiu derrotado dos jogos derradeiros da Liga Europa, primeiro frente ao Chelsea (1-2) e no ano seguinte ante o Sevilha (2-4 nos penáltis). 

Luís Filipe Vieira conta no total com sete campeonatos conquistados, uma vez que também venceu em 2018/19, já com Bruno Lage.

Promovido da equipa B, o jovem treinador tornou-se o grande rosto da mais recente época desportiva de sucesso dos encarnados, revelando também ter sido aposta de sucesso para promover a integração de jovens jogadores na equipa principal.

Made in Seixal: De Félix a Gonçalo Ramos

João Félix é o cabeça-de-cartaz desta lista, com o jovem avançado a protagonizar uma época brilhante, que culminou com a transferência milionária para o Atlético de Madrid. Mas Félix é apenas um dos casos de sucesso construído no Centro de Formação e Treinos do Seixal, que ao longo da última década tem tornado a formação do Benfica uma das mais reconhecidas no futebol mundial. Rúben Dias, Bernardo Silva, João Cancelo, Nélson Semedo, André Gomes, Renato Sanches e Gonçalo Guedes são mais alguns jogadores que atestam o valor da prata da casa. Em 2015, o Benfica Futebol Campus recebeu mesmo a distinção de Melhor Academia do Mundo nos prémios Globe Soccer Awards. «É um prémio para a visão que tivemos e para o forte investimento na formação. É um prémio para a vontade grande que temos de, cada vez mais, termos jovens formados no Seixal na nossa equipa principal, coisa que já não acontecia há décadas. O Benfica tem hoje grandes talentos devido ao grande investimento na competência. Cada vez mais vamos investindo em inovação. O grande sucesso que temos deve-se ao capital humano, ao investimento em inovação e à maneira como abordamos o mercado», afirmou o presidente do clube da Luz, após este reconhecimento. Neste sentido, de relembrar o caso do internacional sub-20 português Gonçalo Ramos. Há menos de duas semanas, o jovem de 19 anos renovou contrato com o Benfica por mais uma temporada, até 2025, ficando blindado por uma cláusula de rescisão de 120 milhões de euros. Com sete golos em quatro jogos neste arranque de época pela equipa B dos encarnados, Ramos tem sido assediado por vários clubes europeus.

Modalidades e Projeto Olímpico

Além do futebol, a liderança de Vieira tem também ficado marcada pela recuperação e reestruturação nas modalidades. O primeiro êxito do atual líder do clube da Luz até foi alcançado fora do desporto-rei, com o triunfo do voleibol em 2005 (14 anos depois do último título), no andebol em 2007 (18 anos depois), no basquetebol em 2009 (13 anos depois) e no hóquei em patins em 2012 (14 anos depois). A época de ouro foi confirmada em 2014/15, quando, ao título nacional do futebol, se juntaram os campeonatos de hóquei em patins (também campeão europeu), futsal (venceu UEFA Futsal Cup em 2010), basquetebol e voleibol. 

A aposta no feminino também salta à vista ao longo dos últimos cinco mandatos, com o Benfica a apresentar equipas seniores femininas nas cinco modalidades de pavilhão, râguebi, pólo aquático e futebol. Em setembro último, o clube da Luz fez história, já que pela primeira vez tem as equipas seniores femininas das cinco modalidades de pavilhão (basquetebol, andebol, voleibol, futsal e hóquei em patins) a competir na 1.ª divisão. «Recuperação financeira, orgânica e infraestrutural do SL Benfica foi determinante nesta caminhada», pode ler-se no site oficial dos encarnados.

Vieira promoveu ainda a criação do Projeto Olímpico em 2008, tendo arrecadado três medalhas em JO, por Vanessa Fernandes (2008) e Nélson Évora (2008) e Telma Monteiro (2016). Em março de 2018, Fernando Pimenta, vencedor da medalha de Prata nos Jogos de Londres (2012), também se juntou ao projeto Olímpico dos encarnados, tendo assinado contrato válido até dezembro de 2021.

O sonho tornado real e a internacionalização da marca

Fora de campo, há também vários marcos importantes na história de Luís Filipe Vieira ao serviço do Benfica. Inaugurado em 2013, a construção do agora Museu Benfica - Cosme Damião tinha sido uma das promessas de Vieira. Idealizado por alguns dos seus antecessores, só durante a sua presidência nasceu este espaço, que pretende preservar a história do centenário clube da Luz. Um ano depois do sonho ter sido tornado real, o museu das águias foi distinguido com o Prémio Museu Português, atribuído pela Associação Portuguesa de Museologia. Ainda antes, a 10 de dezembro de 2008, tinha nascido a atual BTV, à data denominada Benfica TV. Apesar das transmissões regulares só terem começado no último mês daquele ano, a primeira transmissão experimental foi feita cerca de dois meses antes, a 2 de outubro, com o jogo Benfica-Nápoles (2-0), da segunda mão da 1.ª eliminatória da Taça UEFA. O canal esteve disponível em todos os operadores por cabo, de forma gratuita, até 2013 - momento em que o crescimento da estação televisiva justificou a mudança para canal premium. A BTV tornou-se entretanto o primeiro canal de clubes a transmitir em direto os jogos realizados caseiros da equipa para o campeonato da principal equipa de futebol. Em dezembro de 2015, e de forma pioneira em Portugal, o Benfica renegociou os direitos da transmissão dos jogos da equipa de futebol com a NOS, e fez com que os clubes da Liga NOS revissem em alta os respetivos contratos de direitos televisivos que detinham com as várias operadoras a atuar no país. Em maio deste ano, a águia já tinha ido para voos mais altos, após ter fechado um contrato de patrocínio com a Emirates, companhia aérea do Dubai, que foi entretanto renovado. Este foi apenas um dos passos dados com o intuito de projetar o Benfica a nível mundial, colocando o clube numa elite restrita - além dos patrocínios e publicidades, as casas do Benfica (presentes nos cinco continentes) e as escolas de futebol do clube foram outros dois importantes pilares no crescimento e consolidação da marca, que está hoje entre as 50 mais valiosas do mundo (ocupa o 46.º lugar na tabela em 2020, segundo o estudo divulgado em julho último pela Brand Finance). Mais: O Benfica é o único clube português no top-50, num ano em que a sua marca caiu seis posições, estando neste momento avaliada em 114 milhões, depois de em 2019 ter ocupado a 40.ª posição. A Brand Finance considerou que o Benfica é um dos clubes europeus com «a fábrica de talentos mais profícua», realçando também a participação nos últimos 10 anos na Liga dos Campeões e a média de 50 mil adeptos presentes nos jogos em casa.

Vieira suspendeu na quarta-feira as iniciativas de campanha agendadas para as próximas duas semanas, face ao estado de calamidade decretado pelo Governo, devido à pandemia de covid-19.

«Em função do reforço das medidas decretadas pelo Governo no combate à covid-19, que entram em vigor à meia noite de hoje [quarta-feira], e face ao aumento de casos registados nas últimas 24 horas, a candidatura de Luís Filipe Vieira, dando cumprimento às novas diretivas decretadas, decidiu suspender todas as iniciativas de campanha agendadas», informou a candidatura do atual presidente benfiquista. Momentos antes, Vieira esteve em Vendas Novas a falar sobre o percurso dos últimos 17 anos: «Encontrei o Benfica há vinte anos nos escombros, quase desaparecido». Enquanto falava aos sócios, virou-se para a televisão que transmitia o Portugal-Suécia, com «cinco jogadores que passaram pela formação do Benfica [Rúben Dias, Nélson Semedo, Renato Sanches, Bernardo Silva João Félix]», reforçando o sucesso na aposta da formação - e sublinhando que o projeto do Seixal «não está acabado». «Quero dar continuidade ao que foi feito. Este projeto não pode parar», assumiu.

No dia anterior, numa ação de campanha na Casa do Benfica de Santarém, Vieira tinha tranquilizado os adeptos, garantindo que o clube estaria preparado para fazer frente ao contexto pandémico. «Em relação às eleições não há muito a adiantar, todos sabem o que temos feito. Hoje o Benfica é organizado, profissionalizado e está preparado. Temos a covid-19, é verdade, que nos cria grandes dificuldades, mas também seremos os que mais bem preparados estarão quando for para recuperar», disse. De resto, a meta para este sexto mandato continua a ser a mesma das últimas quase duas décadas: vencer. «O que posso assumir como compromisso é que terei sempre a mesma disponibilidade, determinação e vontade de fazer coisas novas. Tenho capacidade, com a minha equipa, de fazer coisas novas e inovar noutras. A vertente desportiva vai ser a principal, temos fome de ganhar, queremos ganhar no futebol e nas modalidades. Se já tivemos boas décadas, queremos mais e começar já a ganhar», confirmou.

«O fundamental para nós é a união do Benfica e, nestes 17 anos, o meu timbre foi ter a família benfiquista unida», concluiu.