Política a Sério

Um presente envenenado

Um eleitor que preenche o boletim de voto em casa pode ser coagido pela família a votar de determinada maneira (e a mostrar como votou). Além disso, uma pessoa pode votar por outra. Um vagabundo pode ser pago para votar neste ou naquele candidato.

O voto por correspondência permite fraudes, como afirmou Trump?
  É claro que permite.

Um princípio ‘sagrado’ da democracia é o voto secreto.

Porquê?

Para um eleitor poder votar de forma completamente livre, sem pressões e não temendo sofrer represálias pela opção que fez.

Por isso, cada cidadão vota isolado na cabina de voto.

Ninguém sabe como ele vota nem o pressiona para votar assim ou assado.

Ora, o voto por correspondência fere este princípio básico.

Um eleitor que preenche o boletim de voto em casa pode ser coagido pela família a votar de determinada maneira (e a mostrar como votou).

Além disso, uma pessoa pode votar por outra.

Um vagabundo pode ser pago para votar neste ou naquele candidato.

Os carteiros podem entregar numa casa mais boletins de voto do que o número de pessoas que lá vivem, utilizando boletins dirigidos a eleitores que morreram ou mudaram de morada.

Podem enviar-se votos fora do prazo com a cumplicidade de funcionários dos correios que coloquem nos envelopes o carimbo de um dia anterior (sobretudo se os resultados estiverem a evoluir desfavoravelmente para o candidato que se apoia).

No limite, podem falsificar-se boletins de voto. Se se falsificam notas, por que razão não se hão de falsificar boletins de voto?

Perguntará o leitor: mas isso só se descobriu agora? Era, aliás, a pergunta que fazia Vítor Rainho no último SOL.

Se as hipóteses de irregularidades são tão óbvias, como são permitidos os votos por correspondência nas eleições americanas?

A resposta é simples: é que esses votos nunca tinham alterado o resultado do voto em urna.

Eram sempre votos residuais.

Na noite das eleições, o Presidente era sempre conhecido.

O problema foi que, nestas eleições, esses votos passaram de residuais a decisivos.

Ou seja: aquilo a que se dava pouca importância – e que, por isso, não era necessário controlar com rigor – passou a ser o fator determinante  na definição do vencedor.

Daí, deveria ter sido objeto de um controlo muito mais apertado – ou mesmo de proibição – resolvendo-se o problema dos ajuntamentos nas salas de voto com o alargamento dos dias de votação.

 

Reconheçamos que o que se passou nos EUA foi, não direi suspeito – que é uma palavra demasiado pesada – mas estranho.

Primeiro, a lentidão da contagem dos votos.

Como se compreende que, em estados muito mais pequenos do que Portugal – onde a contagem se faz em poucas horas –, o escrutínio se venha a arrastar por dias e dias? Parece estarmos a assistir àqueles desafios em que o árbitro prolonga o jogo até uma equipa marcar...

Três horas depois de fechadas as urnas, Trump parecia ter ganho de forma concludente; mas passadas umas horas já a vitória de Biden era possível, e no fim surgia como grande vencedor.

E tudo em virtude dos tais votos por correspondência.

Também custa a entender a gigantesca disparidade de sentido de voto entre os boletins enviados por correio e os boletins depositados nas urnas.

Nas urnas, em cada cinco votos, três eram para Trump e dois para Biden; mas, por correio, eram quatro para Biden e um para Trump.

Os democratas alegam que tendencialmente votam mais por correspondência do que os republicanos. Mas alguém esperava que a diferença fosse tão esmagadora?  Os democratas serão todos medrosos, receosos de se deslocarem às assembleias de voto, e os republicanos todos corajosos?

Não haveria muita gente no eleitorado republicano, tradicionalmente mais conservador e idoso, com receio de ir para as filas nos locais de voto?

A brutal disparidade entre os votos presenciais, insuscetíveis de fraude e por isso inquestionáveis, e os votos por correio, passíveis de ser questionados, faz com que sobre estas eleições vá pairar sempre uma nuvem negra.

Até porque o número de votos no Partido Democrata foi anormalmente alto.

Trump, apesar de ter alargado o seu eleitorado em 7 milhões de votos (quando todos previam uma erosão), perdeu. E Biden ganhou com 73 milhões de votos, sendo que Obama obtivera apenas 66 milhões na sua primeira eleição e Hillary a mesma coisa. Isto dá bem ideia do verdadeiro dilúvio de votos democratas, boa parte deles enviados pelo correio.

Outra coisa surpreendente foi a atitude dos media.

Três cadeias de TV interromperam a transmissão de um discurso de Trump, alegando que estava a mentir. Ou seja: as televisões têm agora censores no seu interior, decidindo o que os telespetadores  podem ou não podem ver. Isto tem um nome: censura. Aliás, a censura aos tweets de Trump já era reveladora.

Nunca imaginei ver uma coisa destas na América.

E muitos jornalistas (cá e lá) aplaudem, não percebendo que amanhã poderão ser eles as vítimas.

Aliás, o que diriam os mesmos jornalistas se as coisas se tivessem passado ao contrário: se Biden estivesse claramente à frente nas urnas e, de repente, começassem a chegar votos por correio e os resultados se invertessem?

Não seriam eles que estariam hoje a levantar dúvidas sobre a legalidade desses votos?

Estamos no limiar de um novo mundo.

A situação é preocupante.

Não por causa de Trump, mas de uma coisa muito pior: o politicamente correto, que se transformou em ideologia global e única – e se arroga o direito de censurar opiniões contrárias.

Sucede, entretanto, que tudo tem um reverso.

E que a presidência ganha por Biden pode ser uma prenda envenenada.

A sua postura securitária pode levar muitos americanos a meterem-se em casa, como ele próprio faz.

Ora, sendo a sociedade americana  muito liberal, com muita gente em casa a economia cai a pique. Há, assim, o sério risco de se vir a inverter a curva de recuperação económica em que a América já se encontrava.

E, se isto acontecer, aumentarão os conflitos sociais. E com a desautorização da Polícia levada a cabo pelos democratas durante a campanha, os conflitos podem assumir proporções complicadas.

E tudo isto será agravado pelo facto de Biden ter uma presença frágil, e de ter ao seu lado na presidência uma mulher forte – Kamala Harris –, que nas primárias do Partido Democrata disse de Biden o que Maomé não disse do toucinho.

Para piorar as coisas, Biden não tem propriamente apoiantes: os votos que obteve não foram votos nele – foram votos contra Trump.

Enquanto Trump tinha – e tem – uma grande falange de apoio, Biden não tem.

A América vai passar um mau bocado.
   Se Trump levantava problemas por umas razões, Biden levanta por outras.

A sua fraqueza, o radicalismo da vice-presidente, a continuação das mortes pela pandemia (que não vai acabar milagrosamente de um dia para o outro), o previsível aprofundamento da crise económica, as perturbações sociais daí resultantes, os eventuais tumultos provocados pelos adeptos de Trump que se sentiram espoliados, o desgaste da autoridade – tudo isto compõe um cocktail explosivo.

Esta vitória de Biden pode tornar-se assim, para ele e para a América, um autêntico pesadelo.

Joe Biden ainda virá provavelmente a pensar como é que, aos 77 anos, se meteu numa tão grande alhada.