Contra a corrente

Os índios

Hoje, permanecemos no nosso ‘território-reserva’ à espera de sermos ‘chamados’ para trabalhar nos países centrais da UE ou, então, preparados para recebermos cá os estrangeiros, cabendo-nos o papel de lhes ‘fazermos as camas’ e de os ‘servir à mesa’. Como os gregos, italianos do sul e outros que mais não são do que as ‘reservas’ (a mobilizar consoante as ‘necessidades da economia’) pelos chamados países centrais, designadamente a Alemanha, a França, Inglaterra…

Li há uns dias a descrição feita por um camarada meu de uma viagem que fez à África do Sul em 1973. Contava como, com estupefação e contra todas as suas crenças humanas, verificou que, naquele país, os negros estavam remetidos a ‘zonas de armazenagem sem recursos’, os bantustões, só podendo sair deles para as ‘zonas brancas’ mediante autorizações de trabalho devidamente controladas, devendo regressar diariamente aos seus respetivos ‘armazéns/depósitos’. A circulação e estada temporárias em zonas brancas eram reguladas por detalhados medidas de ‘separação’ (passeios, bancos de rua, casas de banho, etc.)

Nos EUA, só em 1964-65 foram reconhecidos aos ‘não brancos’ os respetivos direitos civis. Essa ‘igualdade civil’, porém, de pouco serviu para colmatar a ‘brecha de desigualdade’ económica, social, cultural, ambiental-territorial, formada por séculos de escravatura e ‘separação de facto’. Os índios haviam sido encurralados em ‘reservas’ sem recursos, inundadas de álcool e drogas, para que, ‘naturalmente’, se extinguissem; os negros, do mesmo modo, haviam sido encurralados em guetos iguais aos bantustões sul-africanos. Os ‘direitos civis’ permitiam que pudessem circular mas não mudar de sorte; continuaram a ficar nos depósitos-armazéns de mão de obra temporária acionada conforme as ‘necessidades da economia’. E, em primeiro lugar, para serem incorporados, para morrerem ‘em massa’, nas selvas do Vietname. Mesmo este sacrifício não lhes valeu de muito. Acima deles, mas também contidos em ‘reservas’ locais, só os hispânicos, deixados entrar, em condições desumanas, conforme as ‘necessidades da economia’ e das guerras imperialistas um pouco por todo o mundo. Irem para a guerra era (é) a forma de comprarem o BI de cidadãos americanos… E o que são o México (aquele do Muro) e aqueles pântanos humanos e políticos dos países da América Central senão as ‘mega reservas’ à disposição imediata do grande capital?

Israel, outro ‘povo eleito’, cercou-se de muros, continua a tomar as terras dos palestinianos e a enviar estes para as ‘reservas’ (de extinção, como as dos índios norte-americanos) nos países limítrofes e no território simbólico que lhes resta na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Também podem ir trabalhar em Israel mediante uma autorização bem controlada, como na antiga África do Sul. Agora, outras ‘tribos de índios’ irmãs dos palestinianos, resolveram avalizar toda a prática discriminatória de Israel. Tal como este país (que me habituei a simpatizar desde criança…), também esses ‘índios ricos’ da Arábia e outros desgraçados do Sudão, não terão um grande futuro. A História, nem que seja daqui a centenas de anos, porá tudo na devida ordem…

Também Portugal se foi transformando numa imensa ‘reserva’ (armazém/depósito de mão de obra) para outros países. No tempo de Salazar foram milhões viver em ‘bidonvilles’ na França e outros países da Europa. Os outros ‘índios’ (os trabalhadores, diga-se) que por cá ficaram, foram morar em ‘reservas’ nos bairros da lata da Amadora/Oeiras/Sintra e nos ‘bairros operários’ (alguns da ‘Fundação Salazar’) espalhados por todo o país. O mesmo aconteceu em quase todos os países da Europa com as ‘carradas de emigrantes’ que importaram (e continuam a importar) para embaratecer os salários ganhos durante a vigência do ‘Estado-Social’. Não, esses não são elementos ‘a integrar’, são simplesmente, como os ‘índios’, a ‘reservar’.

Hoje, permanecemos no nosso ‘território-reserva’ à espera de sermos ‘chamados’ para trabalhar nos países centrais da UE ou, então, preparados para recebermos cá os estrangeiros, cabendo-nos o papel de lhes ‘fazermos as camas’ e de os ‘servir à mesa’. Como os gregos, italianos do sul e outros que mais não são do que as ‘reservas’ (a mobilizar consoante as ‘necessidades da economia’) pelos chamados países centrais, designadamente a Alemanha, a França, Inglaterra…