Sociedade

Europa quase sem gripe até novembro

É muito cedo para tirar conclusões mas, até à última semana de outubro, as deteções de gripe na Europa tiveram uma quebra de 97% face ao mesmo período do ano passado, revelou o ECDC. No hemisfério sul, a época gripal foi praticamente invisível. Vai ser mais comum usar máscara nos invernos ‘normais’?

Atividade gripal esporádica, sem qualquer caso de gripe detetado pela rede-sentinela de médicos que reportam dados ao Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) e, até ao momento, nenhum caso grave a necessitar de internamento em cuidados intensivos: é este o último balanço do INSA, referente à semana de 9 a 15 de novembro. A época de gripe está apenas a começar e, como todos os anos, o balanço só pode ser feito no fim. Ainda assim, há um ano, nesta mesma 46.ª semana do ano, já tinham sido detetados 41 casos positivos para o vírus da gripe e já dois doentes tinham sido admitidos em UCI com doença grave. No ano anterior, quatro casos confirmados laboratorialmente nesta mesma semana e um doente internado em cuidados intensivos.

Depois de o hemisfério sul ter vivido um dos invernos com menos gripe de que há registos, os olhos viram-se agora para o hemisfério norte e, tanto na América como na Europa, os sinais são de abrandamento. A explicação? Ainda não chegou a altura de maior transmissão, que tende a tornar-se mais intensa quando o tempo arrefece, mas o distanciamento, a diminuição de contactos sociais e as máscaras, que passaram a fazer parte do dia-a-dia com a covid-19, poderão estar a ter efeito.

Num relatório publicado há uma semana, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC na sigla inglesa) divulgou a primeira caracterização do vírus influenza para esta estação. Os dados compilados a nível europeu ainda correspondem apenas ao balanço até à última semana de outubro, quando nunca é esperada muita gripe a circular, mas a quebra é significativa: «Este é o primeiro relatório para a temporada de influenza de 2020-2021. Na semana 44/2020, apenas foram reportadas 39 deteções de gripe em toda a região europeia da Organização Mundial da Saúde», assinalou o organismo europeu. «Isto representa uma queda de 97% nas deteções em comparação com o mesmo período de 2019, provavelmente devido à pandemia de covid-19 e às medidas introduzidas para combatê-la».

No ano passado, até à última de outubro, tinham sido reportados 1138 casos de gripe com confirmação laboratorial nos diferentes países. O ECDC destaca três fatores: por um lado, há uma diminuição nos centros a reportar dados, de 47 para 34; por outro, casos que são considerados síndromes gripais e não são confirmados como infeções por vírus influenza podem ser infeções com outros vírus, nomeadamente o SARS-CoV-2; e, em terceiro lugar, o papel das restrições devido à pandemia.

No Canadá, os especialistas falam de casos num nível excecionalmente baixo: no ano passado, até esta altura do ano, o país já tinha reportado 711 casos positivos para gripe e este ano foram 17, noticiou a CBC.

Nos Estados Unidos, a mesma constatação: a atividade de gripe sazonal mantém-se mais baixa do que o habitual, sintetizou ontem o Centro para o Controlo de Doenças (CDC), pedindo prudência na interpretação, porque a vigilância gripal pode estar a sofrer o impacto da pandemia.

 

Cautela é a palavra de ordem

Ana Paula Rodrigues, médica de saúde pública no Departamento de Epidemiologia e coordenadora da Rede Médicos-Sentinela do INSA, confirma ao SOL que o número de doentes cujas amostras positivas para a gripe tem sido reduzido, apesar de este ano estar a haver mais doentes testados para a gripe do que em anos anteriores, pois a vigilância da gripe foi reorganizada por causa da pandemia e das alterações nos atendimentos nos centros de saúde e hospitais, com amostras de doentes com sintomas respiratórios e que são atendidos nas áreas dedicadas a serem testados tanto para o SARS-CoV-2 como para o vírus influenza.

Ana Paula Rodrigues explica que até ao final da segunda quinzena de outubro, a atividade gripal em Portugal foi, assim, esporádica, com níveis não epidémicos, mas salienta que este nível de atividade é semelhante ao que se observou na maioria dos anos anteriores. A atividade epidémica de gripe, de maior transmissão comunitária da doença – os termos que a covid-19 acabou por tornar mais conhecidos –, inicia-se em média entre o final de dezembro e início de janeiro, assinala a médica, que admite que possa estar a haver um efeito preventivo das medidas da pandemia, mas deixa um outro alerta: continua a haver outros vírus respiratórios a circular, pelo que os vírus, e não só o SARS-CoV-2, continuam a ser transmitidos de umas pessoas para as outras. «É plausível que, nesta época, a epidemia de gripe possa ter menor intensidade do que aquela que se observaria se não estivessem instituídas as medidas de distanciamento físico e de etiqueta respiratória (que inclui o uso de máscara). No entanto, estamos a observar circulação de outros vírus respiratórios (além do SARS-CoV-2), o que reforça a necessidade de manter os sistemas de vigilância de gripe», afirma a responsável.

Filipe Froes, pneumologista e há vários anos consultor da Direção-Geral da Saúde para a gripe, considera também que ainda é cedo para tirar conclusões. Como vai ser o inverno da covid-19 a par de outras infeções respiratórias mantém-se como a grande incógnita, havendo o risco de coinfeções e de a gripe poder até, por baixar defesas, favorecer quadros mais graves de covid-19. «Temos tido ainda muito bom tempo, temperaturas elevadas e pouca chuva, associados a menor circulação. Sabemos que a utilização de todas estas medidas contribui muito para a diminuição de outros vírus respiratórios e isso já está documentado na época gripal do hemisfério sul, mas temos de esperar», diz.

É que, como há pouca atividade gripal e uma epidemia muito intensa de covid-19, a extensão do impacto das medidas na gripe não pode ser ainda calculada. Filipe Froes salienta, no entanto, que é possível ver as diferentes ‘defesas’ que existem contra um e outro vírus: «Na covid-19 temos quase todas as pessoas suscetíveis, ao passo que na gripe temos estas medidas, a vacina – que já foi feita por este ano por um milhão de pessoas – e ainda poderá haver alguma proteção conferida por épocas anteriores».

A confirmar-se o impacto das medidas anti-covid na mitigação da época gripal, podemos esperar invernos diferentes mesmo quando passar a crise pandémica? Os ‘ses’ e ‘quandos’ da pandemia ainda não permitem resposta certa sobre quando voltará a haver um inverno ‘normal’, mesmo diante do cenário de as vacinas começarem a ser distribuídas no início do próximo ano. Ao SOL, fonte oficial do ECDC diz que a esta altura não há ainda indícios de que as medidas de saúde pública e sociais possam começar a ser relaxadas e a recomendação feita aos países é para manter a guarda.

E, apesar de só este ano se terem generalizado, Ana Paula Rodrigues lembra, no entanto, que o uso de máscara e medidas de distanciamento físico também são adequados para a prevenção da gripe em períodos não epidémicos. «Em contextos não pandémicos, a utilização de máscara não é universal, mas sim recomendada para situações específicas como uso em unidades de saúde e uso por pessoas sintomáticas ou por pessoas imunodeprimidas», explica a médica, sublinhando que, da mesma forma, o distanciamento físico também é recomendado a pessoas com sintomas sugestivos de gripe. «Por exemplo, evitar abraços ou visitar os avós se tiver sintomas compatíveis com gripe de forma a evitar contagiar pessoas mais frágeis», exemplifica a médica. Já questões como a quarentena (isolamento profilático de contactos) não estão recomendadas nas epidemias de gripe, diz Ana Paula Rodrigues.

Ficarão os hábitos mais simples mais enraizados no futuro? Não ir trabalhar quando se tem sintomas – ou teletrabalho mais frequente –, evitar beijos, abraços, maior higienização das mãos e uso de máscara com menos pruridos na rua ou no cinema quando se está com tosse? Filipe Froes diz que serão lições e aprendizagens a tirar, com uma vantagem no caso da gripe: «O período de transmissão da gripe, ao contrário do que acontece no coronavírus, é sintomático. Portanto, se durante o período com sintomas gripais as pessoas usassem máscara, provavelmente diminuiriam muito o impacto da gripe na comunidade».

Na época de 2017/2018, o Instituto Ricardo Jorge estimou mais de 3 mil mortes atribuíveis à epidemia de gripe. O estudo BARI (Burden of Acute Respiratory Infections), conduzido pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia, concluiu que os internamentos no SNS associados a gripe custam em média 3 mil euros. «E são só os custos diretos com internamento», sublinha Filipe Froes.