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Marcelo, Costa e Rio

António Costa é um caso seríssimo na política portuguesa: ganhou as eleições autárquicas em Lisboa em 2007 sem maioria, ganhou-as de seguida com maioria absoluta em 2009 e 2013. Repito, três eleições autárquicas vencidas em Lisboa, abandonando o último mandato autárquico a meio, em abril de 2015, para se dedicar inteiramente a ser secretário-geral do PS e a vencer as legislativas de 2015. 

Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa e Rui Rio são as três pessoas mais sabedoras de política em Portugal neste momento. Podemos não gostar de um deles, de dois, ou de nenhum, não podemos, porém, duvidar da sua maestria no ofício político.

Vem a isto a propósito da frase cem vezes escrita e repetida esta semana de que Rui Rio não sabe, não adivinha, não calcula, o que vai acontecer ao PSD por causa da nova situação política dos Açores apoiada pelo Chega. 
Devo dizer que Marcelo, Costa e Rio são quem mais sabe, imagina e calcula em Portugal. Marcelo Rebelo de Sousa imaginou tornar-se Presidente da República a partir do comentariado, sem nunca ter tido um cargo executivo. Ramalho Eanes tinha a caução do papel na revolução; Mário Soares, pai da Democracia e ex-primeiro-ministro; Jorge Sampaio, ex-presidente da maior Câmara do país; Cavaco Silva, ex-primeiro-ministro. O percurso vitorioso de Marcelo Rebelo de Sousa é resultado de uma imaginação prodigiosa e singular. 

António Costa é um caso seríssimo na política portuguesa: ganhou as eleições autárquicas em Lisboa em 2007 sem maioria, ganhou-as de seguida com maioria absoluta em 2009 e 2013. Repito, três eleições autárquicas vencidas em Lisboa, abandonando o último mandato autárquico a meio, em abril de 2015, para se dedicar inteiramente a ser secretário-geral do PS e a vencer as legislativas de 2015. Fê-lo depois de ter defenestrado António José Seguro, o pobre homem que até havia ganho as eleições europeias de junho 2014, eleições apoucadas como ‘poucochinho’ por Costa que, em setembro de 2014, já lhe tinha ido roubar o PS, perante o silêncio cúmplice do partido.

Quarenta e um anos depois do 25 de abril, torna-se primeiro-ministro sem ter ganho as eleições. Foi António Costa o autor das novas páginas da história político-constitucional onde passaram a constar o PCP e o BE, depois de 41 anos de opróbrio e quarentena democráticas, numa solução que ele foi ensaiando e amadurecendo enquanto presidente da câmara de Lisboa. Volta a ganhar as eleições legislativas de 2019, livrando-se então dos parceiros PCP e BE como se havia livrado de António José Seguro: sem pingo de misericórdia. 

António Costa é de certeza o mais maquiavélico político português. Pior do que ele só mesmo Salazar. 
Rui Rio, por sua vez, ganhou três vezes a Câmara do Porto. Candidatou-se duas vezes à liderança do PSD, ganhou ambas, é presidente do partido há quase três anos, período durante o qual perdeu umas eleições europeias e umas eleições legislativas. Não obstante, tem agora um PSD sereno, pacificado, sintonizado com os portugueses e concentrado nas eleições autárquicas de 2021. 

Marcelo, Costa e Rio trabalham para o grande centro, para o português médio, aquele que não é nem um ás, nem um asno, aqueles 65% que decidem a vida democrática portuguesa, são esses milhões de portugueses que votam nestes três políticos. Os pequenos partidos, radicais, extremistas, prosélitos, são-lhes, por vezes, necessários, mas não passam (por enquanto) de breves notas de rodapé.