O centro-direita e o Chega

Qualquer pessoa do centro-direita (eleitor do PSD, CDS/PP, PPM, Iniciativa Liberal e Aliança) podia subscrever o manifesto “A clareza que defendemos”.

Por Luís Jacques

Engenheiro civil

O aparecimento do Chega e o seu crescimento nas sondagens é consequência de António Costa ter passado a linha vermelha que existia, a nível nacional e no governo, entre o PS e a extrema-esquerda (comunistas e bloquistas), quebrando o cordão sanitário que Mário Soares e os fundadores do PS tinham criado. É também consequência das agendas fracturantes da extrema-esquerda, permitidas e incentivadas pelos socialistas. Mas também é consequência dos partidos moderados do centro, nos últimos 25 anos, terem deixado de combater os temas que preocupam os portugueses, como:

– a corrupção;

– a nomeação de "Boys & Girls" socialistas, sem as qualificações necessárias, para cargos da Administração Pública e para as administrações das empresas públicas;

– o aumento significativo da subsídio dependência praticada pelo governo da geringonça, em vez de promover o investimento produtivo das empresas que crie novos empregos e que traga crescimento económico robusto que permita diminuir a pobreza e as desigualdades sociais;

– o não se terem feito as reformas, há muito tempo necessárias, do Estado, do sistema político e do sistema eleitoral;

– o mau funcionamento da justiça que é incapaz de, em tempo útil, julgar, condenar e prender quem cometeu crimes económicos e financeiros.

O Chega cavalga toda esta onda e se o centro-direita lhe der a mão, só o irá reforçar com transferência directa de votos.

Considero que os partidos do centro-direita devem defender as suas posições, sem receio de algumas poderem ser coincidentes com as do Chega, pois é a maneira dos eleitores saberem quais as diferenças de cada um dos partidos.

Eu também penso que é melhor não haver um acordo escrito com o Chega. Em Espanha o PP e o Ciudadanos governam três Comunidades Autónomas com o apoio parlamentar do VOX, mas penso que não há acordo escrito. A extrema-direita teve de decidir entre um governo do centro-direita ou da esquerda com a extrema-esquerda.

Não nos podemos esquecer das lições da história. Quando o PRD, em 1985, teve 18 % dos votos, a maioria à custa do PS, permitindo a Cavaco Silva governar com 29 % dos votos, Mário Soares percebeu que o crescimento do PRD iria retirar ao PS o papel de partido charneira. Quando o PRD cometeu o erro político de derrubar o governo PSD com uma moção de censura, apoiada pelo PS e PCP, o Presidente Mário Soares não chamou Vítor Constâncio para formar governo do PS com apoio do PRD e PCP, mas dissolveu a Assembleia da República e convocou eleições antecipadas. O PSD teve maioria absoluta!

Dito tudo isto, os socialistas, comunistas e bloquistas não têm autoridade moral para virem falar dos perigos da extrema-direita. E os perigos da extrema-esquerda que tem o poder de condicionar o governo socialistas com as suas políticas e as agendas fracturantes? Há 20 anos que não temos crescimento económico em Portugal e tivemos três recessões, sem contar com a recessão provocada pela pandemia.

Os extremos tocam-se. A extrema-esquerda vota com a extrema-direita, no Parlamento Europeu, contra as medidas defendidas pelos partidos moderados do centro-direita e do centro-esquerda e também votou contra a resolução do Parlamento Europeu que "condena veementemente os actos de agressão, os crimes contra a humanidade e as violações em massa dos direitos humanos perpetrados pelos regimes nazi e comunista e por outros regimes totalitários".

Na Grécia, a extrema-esquerda do Syriza aliou-se aos nacionalistas de direita Gregos independentes. Não me lembro das elites, dos intelectuais de esquerda e da generalidade dos jornalistas criticarem esta aliança.

Que eu saiba as elites, os intelectuais de esquerda e a generalidade dos jornalistas não ficaram preocupados por o PS de António Copsta se aliar a partidos que apoiam países que são contra a democracia e a liberdade. Mário Soares nunca se aliou ao Partido Comunista e aos radicais de esquerda.

O PS de Mário Soares aliou-se ao CDS de Freitas do Amaral, a quem a extrema-esquerda chamava fascista, e aliou-se ao PSD, na 2ª vinda do FMI, em 1983 e tinha maioria no Parlamento com o Partido Comunista.