Cultura

O fantasma de Calígula regressa à superfície

Arqueólogos desvendaram palácio do infame imperador até aqui só conhecido através de fontes escritas. ‘O que a cultura romana produziu de mais extraordinário encontramos neste lugar’, sintetizou responsável.

O seu nome é sinónimo de despotismo, de promiscuidade, de terror arbitrário, de decisões absurdas. Suetónio, que no ano 121 da nossa era, durante o reinado de Adriano, escreveu Os Doze Césares, conta que Caio Júlio César Augusto Germânico (12 d.C.-41), mais conhecido por Calígula, experimentava um especial prazer em ameaçar aqueles com quem se cruzava. E cumpria as ameaças. Certa vez, segundo o biógrafo, perguntou ao ator Apeles, junto de uma estátua de Júpiter, qual deles era maior: o deus ou o imperador. A hesitação de Apeles foi o suficiente para despertar a sua cólera. «Mandou chicoteá-lo, e, enquanto ele gritava por misericórdia, elogiava a qualidade da sua voz, dizendo que era deliciosa mesmo quando gemia de dor».

Os episódios que testemunham o cinismo e a crueldade de Calígula multiplicam-se. Ficou célebre a forma como humilhou os mais altos dignitários políticos ao nomear cônsul o seu cavalo favorito.
Mas agora, graças a escavações recentes realizadas em Roma, Calígula fica também associado a uma das mais requintadas realizações da cultura romana: os Horti Lamiani.

Trata-se do palácio perdido do terceiro imperador, que os arqueólogos compararam à Domus Aurea, a mítica residência de Nero, que tinha um quilómetro de colunatas e uma sala com um teto em marfim pintado que reproduzia a abóbada celeste.

Sob um edifício do séc. XIX localizado na Praça Vittorio Emanuelle II, foram agora encontradas estruturas de alvenaria, entre as quais uma escadaria monumental, artefactos, joias e obras de arte. As paredes eram decoradas com requintadas pinturas feitas não com pigmentos ou tintas, mas através da conjugação de pedaços de mármore de diferentes cores.

Plantas de África, animais de circo

No exterior, fabulosos jardins estendiam-se por vários níveis da encosta do monte Esquilino. A diversidade de sementes identificadas aponta para uma espécie de jardim botânico, que juntava às plantas autóctones espécimes vindos de África e até do Oriente.

Mas o mais surpreendente – ou talvez não, tendo em conta a personalidade do proprietário – foram os ossos ali desenterrados, que apontam para a existência de um jardim zoológico privativo. Ao jornal italiano Il Messaggero, a arqueóloga responsável pelo projeto, Mirella Serlorenzi, descreveu como seria o cenário há cerca de dois mil anos. «Temos de imaginar animais correndo à solta neste lugar como se fosse uma paisagem idílica, mas também animais ferozes que serviam, como no Coliseu, para jogos de circo particulares».

Fantasmas e aparições

Construídos pelo importante comandante militar, administrador imperial e político Lucio Elio Lamia, os Horti Lamiani situavam-se na periferia da metrópole, sendo compostos pela residência e por extensos jardins. Na morte do primeiro proprietário, passaram para a posse do Estado. Calígula transformou-os no seu palácio, acrescentando-lhe o esplendor digno de um César. «A sua imaginação para gastos extravagantes suplantou a de todos os pródigos; inventou um novo tipo de banho e as mais estranhas variedades de comida e bebida». Banhava-se em óleos perfumados, «bebia pérolas dissolvidas em vinagre e oferecia aos seus convidados pães e acepipes feitos de ouro».

«Na construção dos seus palácios e villas», continua Suetónio, «sem olhar a despesas, não desejava nada mais ardentemente do que obter o impossível. Grandes estruturas eram erguidas em águas profundas e hostis, túneis escavados nas montanhas da pedra mais dura, planícies eram elevadas à altura de montanhas e escavações nivelavam os cumes das montanhas pelo chão. A velocidade com que estas medidas se concretizavam era incrível, uma vez que os atrasos eram punidos com a morte».
No palácio agora descoberto em Roma, havia «fontes, jogos de água» e até «uma caverna natural revestida de conchas, moluscos, ostras, corais», revelou Serlorenzi ao Il Messaggero.

Nas palavras da responsável pelas escavações, «o que a cultura romana produziu de mais extraordinário encontramos neste lugar».

Calígula viveu «vinte e nove anos e governou durante três anos, dez meses e oito dias», contabilizou Suetónio. No dia 24 de janeiro de 41, levantou-se mais tarde do que o habitual por estar indisposto devido aos excessos da véspera. Quando se dirigia a um grupo de novos atores, «jovens aristocratas asiáticos», um punhado de homens da guarda pretoriana liderados por Cássio Quereia aproximou-se dele e apunhalou-o. «Toma disto!». O seu cadáver seria levado precisamente, para os jardins do complexo agora desvendado, que ele tanto apreciava, e queimado numa pira. As cinzas foram depositadas debaixo de um pedaço de turfa e só mais tarde condignamente sepultadas pelas irmãs do infame imperador. Segundo Suetónio, «é consabido que, antes disto, os jardineiros eram perturbados por fantasmas e também na casa onde dormia não se passava uma noite sem uma aparição alarmante, até a casa ser destruída por um fogo».