Falar Baixinho

Um presente de Natal envenenado

Desde que apareceram os primeiros joguinhos eletrónicos que alguns pais se depararam com o reverso da medalha dessa distração.


Com a aproximação do Natal começam a surgir as dúvidas sobre os presentes a oferecer aos mais novos. Se até uma certa idade é mais fácil sabermos o que as crianças querem – até em demasia – quando a idade se começa a aproximar dos dois dígitos – ou, preocupantemente, bastante antes – por vezes é muito difícil imaginar alguma coisa que lhes encha as medidas. A não ser, claro, uma consola, um computador ou um telemóvel…

Depois de tantas súplicas feitas aos pais, até porque todos os amigos têm, o que os transforma nos piores pais do mundo, estes lá cedem, a imaginar, e bem, a felicidade que os pequenos sentirão ao desembrulhar aquela caixinha de surpresas cheia de jogos e com uma série de funcionalidades!

No início tudo parecerá fantástico! Os miúdos entusiasmadíssimos, horas a fio sossegados sem emitir quase um ruído. O presente perfeito que faz os pais pensarem por que resistiram durante tanto tempo. Como tudo teria sido diferente!

Sim, muito diferente mesmo. Até àquele dia foram anos muito especiais. Anos em que brincaram ao faz de conta, em que correram pela casa para gastar energia, que gritaram, pularam no sofá, inventaram as suas próprias brincadeiras, os seus jogos, cantaram, dançaram, desenharam, jogaram à bola, exploraram, brincaram, passearam, pediram e receberam atenção… Em que foram protagonistas e criadores do seu próprio divertimento ao mesmo tempo que cresceram com ele.

A entrada de uma consola em casa, na maioria das vezes, representa o fim desta idade de ouro. Certamente terá a ver com cada criança e também com os limites que lhe são impostos. Mas, geralmente, depois de provado o fruto proibido, já nada se lhe comparará.

Já foram mais do que muitos os pais que me disseram: ‘Eles agora gostam é de jogar Playstation. Passam o dia naquilo’. Como se fosse uma fatalidade e ao mesmo tempo orgulhosos por acompanharem os tempos modernos. Com o avançar da conversa confessam que a tal caixinha mágica afinal mais parece uma droga. Tudo o resto deixa de ser interessante e o pensamento está sempre no momento em que vão jogar. Esse é o objetivo do dia e da vida. Há quem falte à escola para jogar, há quem almoce e jante em frente ao ecrã, quem perca qualidade de sono, há quem tenha ataques de fúria e de agressividade quando perde ou é impedido de jogar e os jovens que chegam às consultas, sem nenhum objetivo de vida além do jogo, são cada vez mais.

As diferenças para o vício do jogo são poucas. Até porque o dinheiro também está envolvido nos jogos mais recentes, seja em compras que se fazem, campeonatos onde os melhores ganham um prémio em cash ou visualizações de vídeos a jogar que são colocados nas redes sociais e passam a render. Ou seja, como se não bastasse o vício do jogo em si, o dinheiro vem tornar tudo ainda mais aliciante.

Desde que apareceram os primeiros joguinhos eletrónicos que alguns pais se depararam com o reverso da medalha dessa distração. Mas hoje em dia há toda uma cultura gamer que roça a alienação – PCs, teclados, ratos, tapetes de rato e cadeiras pensadas para se ficar o dia inteiro em frente ao computador, cheios de leds, para se jogar às escuras – que se está a apoderar dos mais novos e a roubar-lhes o que têm de mais precioso: os neurónios, a imaginação, a criatividade, a relação com os outros, o movimento, a liberdade e o riso.

Não será por acaso que estudos revelam que esta é a primeira geração com um quociente de inteligência inferior ao dos pais.

filipachasqueira@gmail.com