Opiniao

Um governo inocente

A bagunça que se vive nos hospitais públicos portugueses, e em particular nos serviços de urgência, não é um exclusivo destes tempos em que somos afligidos por um vírus vindo da China. Muito pelo contrário, assim que o frio aperta, todos os anos assistimos ao mesmo filme.

Por Pedro Ochôa

“Hospitais com urgências lotadas” – RTP; “Hospitais em ruptura, já se espera 12 horas” – Diário de Notícias; “Urgências hospitalares esgotadas” – RTP; “Caos nas urgências. Hospitais lotados” – Observador; “Hospitais lotados com horas de espera” – RTP; “Hospitais estão a esgotar a capacidade” – SIC Notícias.

Não, estas notícias não são recentes! São, respectivamente, de 2015, 2016, 2017, 2018, 2019 e 2020.

A bagunça que se vive nos hospitais públicos portugueses, e em particular nos serviços de urgência, não é um exclusivo destes tempos em que somos afligidos por um vírus vindo da China. Muito pelo contrário, assim que o frio aperta, todos os anos assistimos ao mesmo filme.

Naturalmente, e nisso acredito, o vírus veio agravar esta realidade típica dos dias de Inverno mais agrestes, mas os problemas vêm de trás e nunca foram resolvidos, apesar das sucessivas promessas dos vários ministros que se vão sucedendo ao leme do ministério da saúde.

Mas, neste último ano, a incompetência, a incúria e o desleixo de quem tem por obrigação zelar pelo garante dos necessários cuidados médicos às populações atingiu o patamar mais alto. Há meses que se sabia que uma terceira vaga do tal vírus iria atacar em força nesta época do ano, no entanto, mal-grado as vãs promessas de mais pessoal médico e de enfermagem, de mais camas, de hospitais de campanha, de ventiladores e de mais uma série de condições para se enfrentar com eficácia o previsível aumento de doentes hospitalares, não se fez rigorosamente nada!

As tais promessas não passaram do papel e constituíram-se em mais um engodo sem consequências. A nenhum dos actuais responsáveis políticos é atribuída qualquer falha numa inacção que tem custado a vida a milhares de portugueses.

Mas há culpados, claro. A culpa é do Passos, da Troika, do Cavaco, de Salazar, do Marquês de Pombal, de D. Afonso Henriques! Quiçá do próprio Viriato, porque se não se tem rebelado contra os romanos nada disto teria acontecido!

O (des)governo de Costa, em funções há quase seis anos, esse está inocente de todos os sucessivos erros, por omissão ou por má gestão, que levaram ao definhar do serviço nacional de saúde.

A ministra da saúde mantém-se de pedra e cal no seu posto, apesar das notórias provas de incapacidade que tem evidenciado no exercício das funções que, inexplicavelmente, lhe foram confiadas.

Arrogante, a roçar mesmo a má-educação; autoritária, porque incapaz de dialogar com civismo com os profissionais do sector; frágil, por se revelar incapaz na abordagem aos problemas resultantes de uma excessiva lotação de doentes nos hospitais; e sectária, porque a cegueira ideológica que a move fez com que só agora, depois de tanta gente ter perdido inutilmente a vida, achou por bem recorrer ao auxílio dos hospitais privados e aceitar a generosidade de países amigos.

A desculpa, para que não lhe tenha sido ainda apontada a porta de saída, é a de que em tempo de guerra não se mudam os generais.

Nada mais falso! É exactamente em tempo de guerra que os generais devem ser substituídos, caso se mostrem inaptos para a função de comando de que foram investidos, impedindo-se, assim, que conduzam as suas tropas para uma morte certa.

É precisamente isto que está a acontecer em Portugal: os portugueses estão a ser encaminhados para uma morte que bem poderia ter sido evitada, caso hoje tivessem governantes à altura dos seus pergaminhos.

Uns, ceifados pelo vírus, por fatalidade do destino ou porque não foram suficientemente protegidos.

Outros, porque lhes têm sido negados os cuidados médicos, com o pretexto de que estes são insuficientes para fazerem face ao vírus, não sobrando nada para a prevenção e tratamento de outras doenças, a maioria delas bem mais letais do que a que se importou da China.

E muitos, mas mesmo muitos, porque os constantes confinamentos, justificados com o argumento de serem a única medida possível para fazer face à sobrelotação dos hospitais, lhes estão a arruinar física e mentalmente, destruindo toda uma vida de trabalho que lhes ia garantindo o sustento.

Há um aspecto em comum a todos os intitulados especialistas e comentadores que se têm arrastado nas nossas televisões, quase em permanência, a defenderem as virtudes do confinamento total: ao fim do mês recebem o seu salário por inteiro, sem dependerem de uma actividade profissional encerrada ao abrigo de um estado de emergência mal explicado, que persiste em nos manter reféns dentro das nossas próprias casas.

E são apenas esses doutorados em sabedoria, com o silenciamento de qualquer voz que defenda uma abordagem diferente, que são auscultados pelos jornaleiros de serviço, estes bem mais comprometidos em espalhar o pânico entre os portugueses do que em os esclarecer, com verdade, de todos os contornos da doença que nos inquieta.

Por isso, a toda a hora, lançam-se números astronómicos de mortos e mostram-se filas de ambulâncias em espera para descarregar doentes nas urgências dos hospitais.

Sonegam-se, no entanto, dados que um jornalista honesto e íntegro teria a obrigação de investigar e informar. Todos os anos, quando as temperaturas baixam para níveis incomportáveis para quem não dispõe de rendimentos suficientes para manter o seu lar aquecido, as infecções gripais disparam exponencialmente, para usar uma terminologia agora em voga, e o número de mortos por doenças respiratórias cifra-se em largas centenas diárias.

Dias houve, em Invernos mais rigorosos, em que esse número atingiu as cinco centenas, não tendo a sociedade entrado em pânico generalizado e tendo havido, da parte de quem então dirigia o sector da saúde, um discurso de desagravamento da situação vivida.

Basta fazer-se uma pesquiza nos jornais de anos anteriores para se encontrar elementos comprovativos da realidade que descrevi.

Ambulâncias estancadas às portas dos hospitais também não são um exclusivo dos novos tempos. Trata-se, afinal, de mais um dos muitos problemas nunca solucionados pelo poder político.

E seria igualmente interessante que se investigasse a causa de se recorrer com tanta leviandade ao transporte de doentes rumo às urgências. O hospital de Santa Maria esclareceu que 85% dos enfermos que se encontravam em fila de espera, dentro das ambulâncias, para serem atendidos no serviço de urgências, nunca para ali deveriam ter sido encaminhados.

Uma gestão criteriosa do atendimento nas urgências teria, certamente, aliviado a pressão que se abateu sobre os hospitais públicos, não obrigando à adopção de medidas tão restritivas da nossa liberdade para fazer face à disseminação do vírus chinês.

A verdade é somente esta: estamos em prisão domiciliária não por culpa nossa, conforme os políticos nos querem fazer crer, mas sim em razão das deficiências destes.

Em Belém temos um hipocondríaco que já nos ameaça em manter, até ao Verão, neste regime de liquidação total da economia e de privação da liberdade.

Em S. Bento temos um populista que se move ao sabor do vento, orientando as suas decisões consoante as vozes que se fazem ouvir, conforme o demonstrou na questão das escolas. Primeiro, e bem, optou pela continuação do seu funcionamento, para a seguir, escassos dias depois, ordenar o seu encerramento, assim que se apercebeu de que muitos pais, tomados de pânico, se preparavam para proibir a ida dos filhos à escola.

Desculpou-se, para o efeito, com uma tal de variante inglesa que, por mero acaso, já por aí anda desde o final do ano passado.

A popularidade impõe-se ao sentido de Estado!

Por via deste desnorte governativo, o isento e credível The Economist já nos retirou da categoria de país totalmente democrático, catalogando-nos, agora, de democracia com falhas.

Esta despromoção tem como base a reversão das liberdades democráticas por causa da pandemia, mas também a redução dos debates parlamentares e a falta de transparência no processo de nomeação do presidente do Tribunal de Constas.

É o socialismo em marcha!

Finalmente, um esclarecimento: não sou negacionista.

Não nego a perigosidade do vírus chinês, apenas questiono a oportunidade da estratégia que visa o seu controlo.

Acusarem-me de ser negacionista porque ponho em causa um confinamento que nos vai deixar na miséria, é o recurso à mesma táctica com que me rotulam de fascista só porque discordo da governação socialista.

Na saúde, como na política, ainda há um meio-termo!