Internacional

Europa procura um pouco de normalidade

A Alemanha vai abrir gradualmente, a Áustria aposta em testes em massa e Castela-Mancha vai ter códigos QR. E cada vez mais franceses acorrem às esplanadas de Madrid.

Após a onda de confinamentos por toda a Europa, face à terceira vaga da covid-19, alguns países já tentam traçar caminhos para reabrir, debatem o que é essencial ou não para obter um vestígio de normalidade, à medida que a taxa de novos casos diminui. Na Alemanha, por exemplo, o confinamento foi estendido pelo menos até 14 de março, anunciou esta semana a chanceler Angela Merkel, mas o plano é reabrir gradualmente, particularmente em regiões com menos contágios, dando prioridade à reabertura de escolas, entre receios de um novo pico. «Vemos noutros países, como em Portugal, quão rapidamente a maré pode mudar», salientou Winfried Kretschmann, líder do executivo do estado alemão de Baden-Württemberg, em entrevista ao Der Spiegel.

Nos próximos dias veremos escolas e infantários na Alemanha a começar a reabrir, apesar da oposição de Merkel, que temia o alastrar de novas variantes da covid-19. Contudo, a chanceler acabou por ceder à pressão dos líderes de executivos regionais – já a reabertura de lojas não essenciais acontecerá apenas caso a taxa de contágios baixe, não havendo ainda acordo para a reabertura de hotéis, bares e restaurantes. 

Em Espanha, cujas restrições são uma manta de retalhos, ao serem deixadas, em boa parte, nas mãos das comunidades autónomas, o processo foi no sentido contrário. Um tribunal basco ordenou a reabertura de bares e de restaurantes na próxima semana, considerando não haver provas de que a medida continha a covid-19 – várias comunidades aproveitaram logo para levantarem restrições, outras vão recorrer da decisão, avançou o El Confidencial. 

Aliás, o executivo de Madrid, liderado por Isabel Díaz Ayuso, do Partido Popular (PP), apoiado pelo Vox e o Ciudadanos, não chegou sequer a fechar restaurantes ou cafés face à terceira vaga, obrigando-os apenas a fechar às 22h. Agora, até essa hora de fecho será estendida para as 23h, a partir de 18 de fevereiro, com uma «flexibilização» ainda maior das regras do setor caso «a situação epidemiológica o permitir», anunciou o n.º 2 da saúde madrilena, Antonio Zapatero, em conferência de imprensa, esta sexta-feira.

Nesse mesmo dia registaram-se mais dois casos da variante brasileira da covid-19 na capital espanhola, levantando preocupações numa altura em que a variante britânica já compõe mais de 20% das novas infeções em Madrid, segundo o El País.

É verdade que se nota uma significativa diminuição dos novos casos na capital, passando de uma incidência de 860 infeções por cada 100 mil habitantes ao longo de 14 dias, como se viu há duas semanas, para 669. Ainda assim, os números continuam bem acima dos 250, o valor tabelado com sendo de risco extremo pelo Ministério da Saúde espanhol – não espanta que os serviços de saúde madrilenos continuem à beira da rutura. 

Contudo, isso não impediu um número de turistas franceses de se dirigirem a Madrid, ao longo desta semana, fartos das restrições no seu país. Não que sejam particularmente duras. O Governo de Emmanuel Macron recusou os apelos a um novo confinamento – «é obviamente possível e desejável que nunca mais entremos outra vez em confinamento», garantiu o ministro da Saúde, Olivier Véran, citado pela RFI – e apostou em acelerar a vacinação, bem como num recolher obrigatório a partir das 18h, proibindo os eventos culturais e obrigando os restaurantes a entrar em regime de take-away.

No entanto, mesmo isso foi demasiado para os franceses que optaram por gozar a vida em Madrid. Aí, o número máximo de comensais autorizado em esplanadas até passou de quatro para seis na semana passada, além de poderem estar quatro pessoas à mesma mesa no interior de bares e restaurantes, e, a partir da próxima semana, a «flexibilização» pode ser maior. 

«Ver os restaurantes abertos foi um pouco chocante, porque em Paris está deprimente, todas as persianas estão descidas», contou Adrien Durand, um estudante da prestigiada Universidade de Sorbonne, à CNN, enquanto desfrutava da sua primeira refeição numa esplanada madrilena.

«Aqui há vida, tudo está a acontecer», acrescentou Clara Soudet, uma estudante francesa, à saída de um concerto na Gran Via, à conversa com um repórter da Al-Jazira. Clémentine Julien, outra estudante francesa, que aguardava a chegada de uma bebida num bar, concordou. «Reaprendi a viver como se fosse 2019», afirmou.

Já quem ficou em França a trabalhar pode dar por si sem uma das mais acarinhadas tradições francesas, o almoço de trabalho, talvez até regado com um bom vinho. Face ao risco de juntar funcionários à refeição em tempo de pandemia, cada vez mais empregadores pedem aos funcionários que almocem à secretária – uma prática desprezada, considerada reserva de trabalhadores explorados e ilegal no país, mas que o Governo francês pondera legalizar.

«Noutras culturas, é um pouco mais ‘cada um por si’ mas, em França, este é um momento de comer juntos, tirar tempo para estar com os colegas», explicou Romain Passelande, do site Les Petites Tables, dedicado a entregar refeições a preços baixos em Paris, à AFP. 

«Os franceses estão a debater-se com a maneira como a covid-19 limita a conversa de circunstância, até quanto a assuntos relacionados com o trabalho», lamentou o cientista político Stephane Rozes. E o almoço é o momento em que «as relações hierárquicas formais se dissolvem entre subordinados e gestores, e encoraja conversas mais horizontais».

Soluções alternativas 

Noutros pontos de Espanha procuram-se soluções diferentes que permitam reabrir a economia com menos risco de contágios. É o caso de Castela-Mancha, que reabriu a sua hotelaria, bares e restaurantes, mas apostou num sistema de códigos QR. Trata-se de um modelo que se vulgarizou em países como a Coreia do Sul ou a China – onde o seu sucesso no combate à pandemia foi manchado por receios de aumento da vigilância e de abusos da privacidade. 
Já em Castela-Mancha, a promessa é de que os dados ficarão exclusivamente nas mãos das autoridades locais, que só terão acesso a estes caso se verifique contacto com algum infetado. O código QR será guardado no telemóvel, e os mais de dois milhões de habitantes da região só poderão entrar em bares, restaurantes ou hotéis se tiverem a aplicação, fazendo um scanning do código QR à entrada de qualquer estabelecimento. Assim, caso tenha partilhado o espaço com alguém infetado, isso será rapidamente rastreado.

Este sistema de código QR não funciona de forma muito diferente de aplicações como o StayWay Covid, do Governo português, que não teve grande adesão, acabando por ser apagado por boa parte dos seus utilizadores, segundo a Lusa. O resultado foi muito semelhante com aplicações do género pelo mundo fora – no entanto, o facto de não se poder desfrutar de bares, restaurantes ou hotéis sem código QR em Castela-Mancha deverá contribuir para a adesão.
Já a Áustria também reabriu a semana passada, apostando fortemente em testes massivos, de tal maneira que se tornou obrigatório apresentar um teste PCR negativo à covid-19, feito há menos de 48h, para se poder entrar num salão de beleza, cabeleireiro ou tatuador – só crianças com menos de dez anos estão excluídas.

Poder-se-ia pensar que isso serviria de dissuasor para a maioria dos clientes. Contudo, aparentemente, muitos austríacos estão fartos de ver o cabelo crescer selvagem durante o confinamento – vários cabeleireiros notaram que, mal se soube da reabertura, foram inundados por reservas, segundo o Local. 

Além disso, face à preocupação de que o ensino à distância seja insuficiente, todos os alunos que forem testados podem regressar às salas de aula, ficando os restantes em ensino à distância. As crianças serão testadas com os chamados nasenbohrer-test, testes que não têm de ser feitos por profissionais e têm uma zaragatoa mais pequena – logo, são menos desconfortáveis mas mais ineficazes. Mesmo assim, entre os 1,8 milhões de testes que se pretende fazer em todo o país, já houve mais de 200 positivos só na capital e arredores, avançou esta quinta-feira o Kurier.
O objetivo desta reabertura, apesar do nível de contágios se manter relativamente elevado, é combater o «cansaço», explicou o chanceler austríaco, Sebastian Kurz. «Nas últimas duas semanas, o nível de contágios não baixou mais porque cada vez menos cidadãos seguem as diretrizes e querem novamente mais liberdade», defendeu, em entrevista ao Welt am Sonntag.