Pátio das cantigas

Os novos inquisidores

Os novos inquisidores aproveitam a pandemia para ‘enfunar as velas de um radicalismo bacoco, que se sente à vontade para elevar a fasquia perante uma sociedade anestesiada e um poder político incompetente e manipulador.

Está aberta a ‘época de caça’ aos passados, sejam os florões da Praça do Império, a estátua do padre António Vieira ou o Padrão dos Descobrimentos, seja, até, o que escreveu, há uma década, sobre o lobby gay, o novo presidente do Tribunal Constitucional. Os novos inquisidores aproveitam a pandemia para ‘enfunar as velas de um radicalismo bacoco, que se sente à vontade para elevar a fasquia perante uma sociedade anestesiada e um poder político incompetente e manipulador.

É um quadro confrangedor que recebeu, inclusive, o inesperado contributo de um deputado socialista, que já deu nas vistas em 2015, quando foi forçado a demitir-se de diretor de campanha do PS para as Legislativas, por causa de uns cartazes insensatos que forçaram o partido a pedir desculpa, coisa rara. 
O deputado em causa, Ascenso Simões, que vem do tempo de Sócrates e com idade para ter juízo, defendeu agora a demolição do Padrão dos Descobrimentos, segundo ele «um mamarracho» que, «num país respeitável, devia ter sido destruído». 

Num ‘artigo de opinião’ no Público, juntou ao disparate o lamento pela «bonomia» que acompanhou o 25 de Abril, que «foi uma festa» quando «devia ter havido sangue, devia ter havido mortos, devíamos ter determinado bem as fronteiras para se fazer um novo país». Uma frustração, portanto...
Quase meio século depois, este socialista – que confiou o seu voto nas presidenciais ao candidato comunista –, deve sentir-se inspirado em Otelo que, no ardor revolucionário, queria mandar os ‘fascistas’ para o Campo Pequeno.

Quando Ascenso Simões não se conforma com o Padrão dos Descobrimentos, sabe-se lá amanhã até onde poderá ir a sua sanha, entre a Torre de Belém e a Cordoaria, onde o seu correligionário Fernando Medina tencionou instalar o Museu das Descobertas, que passou, depois, a Descoberta e acabou em Viagem ainda sem poiso certo. 
O projeto (supostamente programático…) de Medina adormeceu algures, no fundo de uma gaveta qualquer. Sensível à vaga radicalizada, o edil ainda retomou o assunto numa entrevista ao DN, no verão passado, mas para revelar que o museu, quando avançar, será devidamente ‘amparado’ por «um memorial dedicado à escravatura», sem «nenhum complexo». 

Os complexos ficam reservados para o museu, que jaz no tinteiro, com a tinta seca. Uma história da Carochinha, que ilustra a paralisia diante da extrema-esquerda, cuja bênção lhe garante a maioria e a sobrevivência no Município.
Claro que se vivêssemos numa democracia estabilizada, plena e saudável, Medina teria outra atitude, e a ‘opinião’ do deputado Ascenso Simões, por mais abstrusa, contaria tanto como a do ‘ativista’ luso-senegalês Mamadou Ba, protegido do Bloco de Esquerda, para quem «é preciso matar o homem branco, assassino, colonial e racista», pretextando o mesmo ‘olhar alegórico’ de um escrevinhador que assinou uma peça no Teatro Nacional com «a Beleza de Matar Fascistas».

Ora, convirá não encolher os ombros como se nada tivesse acontecido ou fossem apenas meras ‘traquinices’ próprias de uma infantilização tardia. 

A cartilha seguida pelos devotos de modelos totalitários, refinou e virou-se para os racismos, fascismos, ou para o género e a sexualidade – com doutrinação dos mais novos e o compadrio do ministério da Educação. Ou, ainda, para outros temas fraturantes, como a eutanásia, aprovada no Parlamento – com recusa do referendo – apesar de mais de 16 mil mortos, vítimas da pandemia em menos de um ano. 

O esquerdismo radical, que entrou de rompante em casa do PS, tem-se dedicado a reabilitar a terminologia comum ao PREC. 

O espaço público voltou a ser contaminado por palavras gastas do ABC revolucionário, que são «infames pretextos para envenenar as relações sociais e políticas», para citar António Barreto no Público. 

A estes ‘julgamentos sumários’ não escapou sequer o presidente do Tribunal Constitucional, João Caupers, de quem foram desenterrar textos publicados num jornal on-line da Faculdade de Direito de Lisboa, nos quais se ‘permitia’ criticar o ‘lobby gay’, rejeitando «a promoção» das «ideias homossexuais». 

Tanto bastou – pasme-se – para ser quase crucificado na praça pública, com o Bloco de Esquerda a animar a festa e a exigir a sua renúncia, em coerência, aliás, com as ligações do partido a associações LGBT.
Pena que o juiz do TC, pressionado por esta ‘polícia de costumes’, tenha tentado justificar-se, minimizando os textos de que foi autor, como se não refletissem «necessariamente» as suas ideias. Mais valia estar calado. 
Há minorias que saíram do armário e se julgam ‘vanguardas iluminadas’, predestinadas para moldar o futuro à sua medida. Ora, como então escreveu Caupers, «nas sociedades democráticas são as minorias que são toleradas pela maioria – não o contrário». É bom que conste…