Sociedade

Testes à covid-19 chegam ao mundo do 'faça você mesmo', mas em Portugal ainda não

Supermercados Aldi começam este sábado a vender testes rápidos à covid-19 na Alemanha. Empresa diz que, de acordo com as recomendações do Infarmed, testes não serão nesta fase vendidos em Portugal.


Depois das prateleiras com máscaras e álcool-gel, testes à covid-19 à venda no supermercado. É a realidade a partir deste sábado na Alemanha, depois de o regulador de medicamentos e dispositivos médicos do país ter aprovado três marcas de auto testes nas últimas semanas. No aspeto são como testes de gravidez. A logística um pouco diferente: um cotonete esfrega-se nas narinas, junta-se o reagente num tubo e, 15 minutos depois, se aparecer duas linhas está positivo. Segundo a imprensa alemã, a cadeia Aldi é a primeira a disponibilizar auto testes, mas as restantes estão no encalce. Serão vendidos nos Aldi para já em packs de cinco, com o custo de 25 euros e limitados a uma embalagem por pessoa.

Esta não é a única novidade em matéria de testagem na Alemanha, que esta semana anunciou o plano de desconfinamento. O país não tem estado entre os que mais testa na UE mas a cumprirem-se os números avançados pelo Governo deve começar a subir na tabela. Cada pessoa passa a ter acesso a um teste rápido gratuito por semana. Esta quinta-feira o ministro de Saúde alemão garantiu que o Estado tem já reservados 200 milhões de auto testes e 800 milhões de testes rápidos, isto depois de há menos de um mês Angela Merkel ter anunciado um investimento de 800 milhões de euros para reforçar a testagem, na altura apontando para a realização de 30 a 40 milhões de testes por semana. Isto além dos testes que passam a ser comercializados em grandes superfícies e farmácias, sem necessidade de prescrição. Segundo o Deutsche Welle, alguns especialistas alemães chegaram a defender a realização de dois testes rápidos por semana, o que implicaria 160 milhões testes, ideia aparentemente descartada.

O país é dos primeiros na Europa a avançar com a regulamentação de auto testes mas não é o único (o Reino Unido está também a avançar) e as estratégias de testagem têm estado a ser revistas em vários países. A Áustria, que desconfinou no início de fevereiro, avançou com uma das medidas mais extremas: foi o primeiro país europeu a impor testes para se poder ir ao cabeleireiro e agora prepara-se para abrir restaurante com a mesma regra, ainda que ontem as notícias austríacas dessem conta de hesitação no prosseguimento do plano de desconfinamento devido a uma subida das infeções, que de resto está a suscitar apreensão em vários países.

 

Quem testa mais? Chipre. Portugal continua a descer

Depois de semanas liderado pela Dinamarca, o ranking de testagem à covid-19 na UE tem sido liderado no último mês por Chipre. O relatório semanal do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), que analisa no número semanal de testes por 100 mil habitantes, mostra que na semana passada os cipriotas fizeram um recorde de 28 929 testes por 100 mil habitantes, o que dá um total de 343 mil testes numa semana numa população de 1,1 milhões de habitantes. A partir de 1 de março passou a ser obrigatório no país a realização de um teste rápido por semana por cada trabalhador para voltar ao trabalho presencial e segundo a imprensa nacional esta semana o Governo anunciou 55 pontos de testagem, que incluem postos de testes em igrejas. Alunos e pessoal escolar também têm de testar-se semanalmente. O país está com uma taxa de positividade de 0,6% e uma incidência cumulativa a 14 dias de 247,1 casos por 100 mil habitantes.

Em segundo lugar na tabela do ECDC surge a Áustria, com 17 778 por 100 mil habitantes na última semana e uma taxa de positividade de 0.9%. Seguem-se Dinamarca e Luxemburgo, também com mais de 10 mil testes por 100 mil habitantes por semana. A maioria dos países tem estado a aumentar o nível de testagem, independentemente do nível de incidência.

 

Estratégia nacional está a ser operacionalizada

Portugal, onde o número de testes baixou nas últimas semanas acompanhando a descida de casos, acabou por ir ficando cada vez mais para baixo na tabela. Na última semana baixou para 19o lugar, com 1837 por 100 mil habitantes, com 189 mil testes feitos na semana que acabou no último domingo. Note-se que o ECDC analisa apenas primeiros testes, que agora são também a maioria no país desde que deixaram de ser feitos testes para ter alta. Nesta última semana o país registou uma taxa de positividade de 3,9%, indicador que tem estado a melhorar ao longo das últimas semanas e que no pico de casos em janeiro chegou a passar os 20%. A Organização Mundial de Saúde recomenda que a taxa de positividade esteja abaixo de 5. Nos últimos dias tem vindo a estabilizar.

Depois de ter assumido como objetivo a massificação da testagem, ao longo das últimas semanas o Governo admitiu já várias hipóteses para aumentar a realização de testes, de testes oportunístico nos centros de saúde à realização de testes por pessoas assintomáticas sem prescrição. Para já uma mudança já em vigor foi terem sido alterados os critérios para testagem de pessoas que tiveram contacto com alguém infetado: até aqui apenas pessoas consideradas contacto de alto risco eram encaminhadas para teste pelo SNS24. A norma de testagem, revista pela Direção Geral da Saúde a 11 de fevereiro e entretanto já atualizada, prevê a realização de testes em estabelecimentos de ensino e nos locais com maior risco de transmissão em meio laboral, devendo ser periódicos nos concelhos com incidência cumulativa a 14 dias superior a 120/100.000 habitantes. A periodicidade não está definida e atualmente a maioria dos concelhos do país já está abaixo deste patamar, que na primeira versão da estratégia era de 480 casos por 100 mil habitantes. Atualmente apenas a região de Lisboa está com uma incidência cumulativa a 14 dias superior a 120 casos por 100 mil habitantes, não obstante poder haver concelhos no interior com menos população acima deste patamar. O Nascer do Sol procurou perceber se o patamar vai ser de novo revisto, tendo o Ministério da Saúde esclarecido apenas que a estratégia está a ser operacionalizada.

O grupo de trabalho que reviu a norma propôs que a testagem fosse regular em concelhos com menor incidência, o que na semana passada não foi para a frente. Agora o Governo criou um novo grupo de trabalho para operacionalizar testagem. Questionado pelo Nascer do SOL, o Infarmed não respondeu também se os auto-testes estão também a ser avaliados em Portugal. Já a cadeia de supermercados Aldi, que agora é a primeira a vender estes testes na Alemanha, indicou que, seguindo as recomendações do Infarmed, nesta fase não irá comercializar estes testes em Portugal. Mas a porta fica aberta:_«Caso estas recomendações se alterem, vamos estudar as opções disponíveis», disse fonte oficial da Aldi Portugal ao Nascer do Sol.

 Nas últimas semanas a garantia foi de que irão avançar os testes com saliva, mais cómodos do que as zaragatoas nas vias respiratórias, nomeadamente para as crianças. Um dos riscos associados aos testes rápidos de antigénio, que garantem resultados em 15 minutos, é terem uma menor sensibilidade. Na Alemanha, os novos auto testes têm uma sensibilidade de 80%, podendo ter assim 20% de falsos negativos. Por outro lado, a massificação implica capacidade para dar seguimento aos casos, quer no isolamento quer no rastreio de contactos.

 

Chegou o ‘faça você mesmo’

Reino Unido vai dar testes para alunos fazerem em casa

O Reino Unido publicou as novas regras de testagem no final de fevereiro. Os planos de desconfinamento passam pelo reforço de uso de auto-testes rápidos. Cerca de uma em cada três pessoas infetadas com o coronavírus não tem sintomas, lê-se na página do Governo britânico onde são apresentadas as novas regras. As escolas reabrem na próxima semana e os alunos do secundário, bem como as suas bolhas familiares, passarão a ter acesso a dois testes rápidos por semana para fazer em casa. Nas primeiras duas semanas os alunos vão fazer o teste na escola com supervisão e depois passarão a receber dois kits para fazer o teste em casa. Os alunos das escolas primárias não vão ser testados e mesmo para os mais velhos a testagem é voluntária, se os pais ou encarregados autorizarem. Também serão as escolas a fornecer os testes ao pessoal. Os resultados devem ser submetidos pelos próprios numa plataforma criada para o efeito no espaço de 30 minutos.

 

E famílias podem levantar kits com 7 testes

As famílias com crianças a estudar, também elegíveis para esta fase de testes no Reino Unido, deverão fazer o teste num local de testagem, nos seus locais de trabalho ou poderão pedir um kit de testagem online, numa página que já está disponível. Cada pessoa pode levantar no máximo dois packs com sete testes cada.

 

Bilhete de avião + teste

Ainda no Reino Unido, a British Airways anunciou esta semana que vai passar a vender auto-testes aos passageiros no momento de embarque, para ser mais fácil o regresso a casa, já que têm de apresentar um teste negativo com menos de 72 horas. Os kits estarão à venda a bordo por 33 libras e a companhia disponibiliza acompanhamento virtual para a realização do teste. Com um resultado negativo, é possível descarregar um certificado de apto para voar (fit to fly).

 

EUA ‘compram’ fábrica de kits

Nos Estados Unidos, a FDA autorizou o primeiro auto-teste no final do ano passado. Há duas semanas a empresa australiana Ellume anunciou um contrato de 230 milhões de dólares com a administração Biden. Vão construir uma fábrica que terá capacidade para produzir 19 milhões de kits por mês, 8,5 milhões de testes reservados para a administração norte-americana. O kit inclui uma app, que dá o resultado em 15 minutos no telemóvel. O kit custa 30 dólares e é preciso smartphone. Atualmente já há três marcas de auto testes autorizadas nos EUA. Antes algumas empresas já disponibilizavam testes por correio: a pessoa encomendava o kit, fazia a colheita e envia a amostra para ter o resultado.