Desporto

John Geddert. "O polícia mau, comparado com Nassar"

O antigo treinador de ginástica norte-americano cometeu suicídio após ser acusado de 24 crimes por tráfico humano, abuso sexual e maus tratos. É mais uma das rodas da engrenagem que cai no escândalo sexual em que se envolve o mundo da ginástica artística nos Estados Unidos.

O mundo da ginástica norte-americana tem sido abalado pelo astronómico escândalo que envolve maus-tratos e abusos sexuais a centenas de atletas. A situação chegou às bocas do mundo à boleia da série documental Athlete A, lançada através da Netflix em 2020, e tem como principal alvo a abater o médico Lawrence G. Nassar, que acabou condenado, em 2018, podendo a sua pena chegar aos 300 anos, por crimes de pornografia infantil e violação. A maioria dos abusos, relatam as vítimas, aconteceram no ginásio Twistars, em Dimondale, no estado norte-americano do Michigan.

Acontece que esse mesmo ginásio era propriedade de John Geddert, antigo treinador da modalidade que trabalhou lado a lado com Nassar durante décadas, o que lhe valeu uma investigação iniciada em 2018. Geddert foi o responsável por levar a equipa norte-americana feminina de ginástica ao ouro nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Com uma longa carreira, a começar nos anos 80, quando começou a trabalhar com Larry Nassar, Geddert foi um dos principais treinadores da modalidade no país, mas não escapou ileso ao escândalo sexual que assola o mundo da ginástica no país.

Após a sentença de Nassar, os olhos da justiça viraram-se também para o seu colega de longa data, e em 2018 foi iniciada uma investigação que lhe valeu a suspensão da Federação de Ginástica nos Estados Unidos, e que o obrigou a trespassar o ginásio Twistars para a mulher. Quase três anos depois, Dana Nessel, procuradora-geral do estado do Michigan, acusou Geddert de 24 crimes, entre eles tráfico humano, maus tratos e violação de menores.
O antigo treinador norte-americano, no entanto, não apareceu nos tribunais do Michigan, e acabou por ser encontrado morto dentro do seu carro, numa estação de serviço, onde se suicidou.
Um final pouco ‘glamouroso’ para um desporto onde, por trás de todo o brilho e a elegância, de todas aquelas piruetas e acrobacias impressionantes, se provou existir um antro de violações, abusos e centenas de histórias de violência, que duraram durante décadas e pouco a pouco têm surgido à superfície.

Cumplicidade nos abusos 

Apesar de Larry Nassar ser o principal alvo de toda a investigação que se tem realizado nos últimos anos, o envolvimento de John Geddert não fica atrás. Os relatos que se foram ouvindo são de violência e agressividade, pintando um quadro em que Nassar seria o  ‘polícia bom’ e Geddert o ‘polícia mau’. A impossibilidade de levar o antigo treinador a tribunal, fruto do seu suicídio, deixou algumas das vítimas furiosas, como foi o caso de Izzy Hutchins, que lamentou que Geddert tivesse novamente «a última palavra», e assim, confessa, «controla-nos e cala-nos a todos porque agora as pessoas sentem-se mal por ele».

A realidade é que, tomando em conta os diferentes relatos, o estilo de treino de John Geddert seria tudo menos ortodoxo, e a sua amizade com Nassar permitiu ao médico, acusam os tribunais norte-americanos, realizar centenas de abusos que se iniciaram há 40 anos. Era o esquema ideal, digno de um filme de Hollywood. John Geddert mantinha um estilo estrito, violento e agressivo de treino, e empregava no seu ginásio o médico Larry Nassar, que servia de confidente para as atletas, magoadas - física e verbalmente -, e vulnerabilizadas pelo tratamento do antigo treinador. Como tal, e com um pequeno quarto nas traseiras do ginásio, Nassar aproveitava-se, acusam os relatos, dos momentos de fragilidade das atletas, e procedia a abusar das atletas sexualmente. Um esquema, no mínimo, macabro.
John Geddert chegou ao auge da sua carreira nos primeiros anos do milénio, o que lhe valeu a nomeação para treinador da seleção nacional de ginástica. Resultado? Centenas de viagens pelo mundo, acompanhado por Larry Nassar, orientando e treinando as mais proeminentes ginastas norte-americanas do momento. Uma delas, McKayla Maroney, relatou em tribunal os acontecimentos durante o Campeonato Mundial de Tóquio, em 2011. Nessa competição, durante uma viagem de automóvel, Maroney contou ao então treinador que Nassar a tinha tocado de maneira inapropriada na sessão de tratamento da noite anterior, e, segundo relatos de outros passageiros, o mesmo não teve qualquer reação, negando depois ter ouvido os comentários da ginasta.

A história fica mais bizarra a cada página do relatório da investigação, e a amizade entre Geddert e Nassar figura como o elemento comum que permitiu décadas de abuso no mundo da ginástica norte-americana. A primeira vítima conhecida de Larry Nassar, Sarah Klein, antiga ginasta e atual advogada especializada em vítimas de abuso sexual, não poupou nas críticas a Geddert, afirmando que os abusos levados a cabo pelo antigo treinador eram «ainda piores» que os de Nassar, classificando-os como «um puro trauma».

Abuso, violação e violência são três palavras que as ginastas usam uma e outra vez para definir o estilo de treino de John Geddert, para além dos constantes insultos, agressões - como cuspidelas na cara ou empurrões - e até, em múltiplas ocasiões, sugestões às atletas para que se suicidassem. Como resultado, várias das jovens ginastas ouvidas em tribunal revelaram ter ficado com mazelas psicológicas devido aos abusos de Geddert. Distúrbios alimentares, ataques de pânico, depressão, ansiedade e outras consequências foram só algumas das referidas durante as várias investigações.

Bailey Lorencen, por exemplo, foi uma das centenas de jovens que treinou com Geddert, e explicou em tribunal que o antigo treinador, numa ocasião, não lhe permitiu interromper uma sessão, mesmo após ter fraturado um osso nas costas. Uma realidade semelhante à revelada por Makayla Thrush, também atleta militante no ginásio Twistars, que alegou que Geddert acabou com a sua carreira na ginástica após a ter empurrado contra o equipamento de treino, o que resultou em músculos do estômago rasgados, bem como um olho negro e outras mazelas físicas. Thrush acusou ainda Geddert de lhe ter dito várias vezes para se «ir matar», confessando que, após o acidente que acabou com a sua carreira, chegou mesmo a sentir essa vontade.

As acusações de fevereiro de 2021 não foram, no entanto, o primeiro encontro complicado de John Geddert com a lei. Em 2011, a polícia do Michigan já tinha investigado o antigo treinador, após a mãe de uma das atletas ter feito queixa de Geddert na polícia, quando o treinador a seguiu até ao parque de estacionamento do ginásio, gritando insultos e chegando a tentar agredi-la. Em 2013, ainda vivendo as glórias dos triunfos nos Jogos Olímpicos do ano anterior, foi acusado e investigado por maus tratos às jovens atletas no seu ginásio, onde, recorde-se, Larry Nassar era o médico de serviço. Os tribunais, naquele momento, acharam que haveria suficiente evidência para acusar oficialmente Geddert, mas foi permitido ao então treinador procurar acompanhamento e reabilitação. Na base desta investigação esteve a queixa de uma jovem ginasta de 11 anos, que revelou que, após ter falhado numa rotina, o treinador a seguiu para dentro dos balneários, proferindo insultos, e lhe torceu o braço. Na altura, a avó da vítima fez queixa na polícia, e terá recebido uma mensagem de Larry Nassar, em nome de Geddert, a pedir para largar as queixas. Não há, no entanto, registo de que o antigo treinador tenha sofrido qualquer punição, quer legal, quer da Federação de Ginástica, por estes acidentes.

John Geddert suicidou-se aos 63 anos de idade, numa movida que várias das vítimas acusam como «uma saída fácil» para o antigo treinador, e que é mais um espinho numa complexa e alarmante história de abusos e violência.l