No Meio de Nós

A estranheza das coisas estranhas!

É estranho que seja estranho para as pessoas pensarem que os detentores de cargos públicos não precisem de revelar algo que pertença à sua vida privada para transparência dos cargos que ocupam. Estas pessoas, que são pagas com o nosso dinheiro, deveriam ser as primeiras a querer mostrar com transparência a sua liberdade em relação a tudo.

Nós vivemos num país democrático! Não vivemos numa ditadura. Não precisamos de andar escondidos. Os cristãos na antiga União Soviética andavam escondidos, celebravam escondidos, porque não havia liberdade de culto e de pertença a filiações religiosos. Não é o caso aqui!

Sim. Em Portugal não temos problemas em pertencer às organizações e associações ou religiões mais estranhas que possamos imaginar alguma vez. É por isso que não faz sentido que haja censura ao livre exercício da liberdade de cada um de se afiliar em qualquer que seja a associação.

Já ninguém acha estranho as associações que se formam com um único objetivo: pressionar os governos e as sociedades a mudarem o seu pensamento ou o seu comportamento em relação à causa que defendem. Quantas vezes vemos nos jornais associações que nunca imaginaríamos sequer que existissem no mundo, quanto mais em Portugal.

Também temos visto como estas associações trabalham para o progresso do bem comum das associações, mas principalmente para o bem comum da sociedade. É, por isso, normal que as entidades públicas as ouçam, as apoiem e as estimulem. É uma forma pública de manifestar a vontade de setores da sociedade muito salutar numa democracia. No fundo, é não deixar que o poder esteja apenas nos partidos políticos.

Faz todo o sentido que alguém que detém um cargo público e que pertence a estas associações e tem o poder de governar ou de legislar deva informar sobre a sua pertença. Isto é importante, principalmente, porque não estão a fazer nada de mal. Pertencem a uma organização, legal, legítima e reconhecida publicamente e, como tal, não devem de ter vergonha de o comunicar.

Se alguém pertence a uma destas organizações e não se sente confortável em declarar publicamente, vem-se-me à mente apenas uma pergunta: o que é que fazem nestas organizações de tão mal para não quererem que se saiba a sua filiação.

Estou profundamente convencido que qualquer organização da Igreja católica e qualquer católico que pertença a qualquer movimento ou organismo vivo da Igreja não terão, nunca, em caso algum, dificuldade em declarar que são católicos.

Estou também profundamente convencido que qualquer obediência maçónica e que qualquer membro que pertença a qualquer das lojas não terá, nunca, em caso algum, dificuldade em declarar que pertencem a estas organizações.

Estou ainda mais convencido que qualquer pessoa que pertença a qualquer associação de defesa dos direitos dos animais ou do ambiente ou das pessoas não terá, nunca, em caso algum, dificuldade em declarar a sua filiação associativa.

Aliás é para isso que serve qualquer uma das associações: para juntar as pessoas à volta de uma causa comum em benefício do próprio e dos demais!

Ora, o que é que pode justificar que alguém não queira tornar público algo que pertença ao domínio do privado, mas queira ocupar um lugar público pago com os impostos de todos.

Éevidente que vivemos numa democracia! E se vivemos numa democracia ninguém nos pode obrigar a declarar as filiações privadas que tenhamos, mas também ninguém nos obriga a concorrer aos cargos públicos que estão, como todos sabemos, sujeitos a escrutínio público.

Não querem prestar provas públicas da sua vida? Não concorram a lugares públicos!