Mente (In)quieta

Da sobrevivência coletiva ao esquecimento na bonança

Ninguém lutará por nós como sociedade se nós, sociedade, nos mostrarmos confortáveis com o sol ligeiro que, na bonança temporária, nos bate no rosto.

por Sofia Aureliano

1. Chegou a primavera. Custa mais cumprir. A máscara é mais pesada e espessa. O sol convida a quebrar a regra. O tempo que numa semana passa a voar é, a cada minuto, penosamente mais duradouro. A rotina abafa-nos, consome-nos, cansa-nos. As notícias nunca são boas, as palavras más repetem-se: internados, óbitos, infetados, confinamento, corrupção, fraude, desemprego, falência, incumprimento, escassez, coágulos, negociatas, ineficácia, contágio, incidência, covid…

E dentro de nós cresce o grito. Aquele que transformamos em raiva e expelimos à nossa volta. Ou aquele que contemos e silenciamos, deixando que nos corroa por dentro. Não seremos os mesmos depois desta pandemia. Já não somos os mesmos, no decorrer dela.

Por tudo isto é preciso que, em nós, se plante a força, a confiança, a esperança. Precisamos de ajuda e de comando para emergir.

2. O Barco. Pouco me importa o rótulo que me seja dado por proferir a frase “estamos todos no mesmo barco”. Idealista, ingénua, populista ou sonsa. A verdade é que estamos. Quer estejamos em manifestações na Praça do Rossio ou sentados em casa a ver a reportagem da manifestação com desdém e desaprovação.

Não é uma metáfora bíblica, mas também é de sobrevivência de que falo. De deriva e de rumo. De desnorte e de destino.

Precisamos de construir uma consciência coletiva de sociedade que, ignorando a diferença, se una por um propósito comum: a subsistência e a luta contra um inimigo único.

E não nos iludamos. Como espelho da comunidade, neste barco vão ter de caber todos. Os que acreditam que seguimos o rumo certo e os que nunca confiarão no capitão. Os que cumprem todas as regras e os que defendem a liberdade de não as cumprir. Os que tinham pouco e agora não têm nada e os que tinham muito e têm mais ainda. Os que se alimentam do pensamento sufocado e do sentimento aflito e os que não têm literalmente nada com que se alimentar. Os que querem trabalhar e não podem e os que, podendo, não querem fazer o seu trabalho. Os justos, os sérios, os corruptos, os infiéis, os honestos, os bem-intencionados, os ingénuos, os manhosos, as ovelhas e os lobos. Porque se todos não estiverem no barco, falhamos na construção da consciência coletiva. A missão não é cumprida, perdemos todos, e ninguém chega ao destino.

3. O paradoxo do direito a estar. Somos nós que temos de nos apertar para que haja espaço para quem não acreditamos que deva ter lugar neste barco. Para caber nele quem achamos que o contaminará. Quem trará novas doenças para o interior e se aproveitará dos corpos para se propagar. Os salteadores de trampolim, aspirantes a senadores, que sabemos que vão desestabilizar e abanar o barco e que o querem ver virado. Que têm como objetivo boicotar a missão e destruir o que ainda subsiste: as crenças, a fé, qualquer réstia de confiança, a (trémula e alegada) estabilidade. E temos de nos encolher para eles caberem?

Temos. Se não por solidariedade ou altruísmo (já ninguém nos pode exigir isso!), que seja por estratégia e habilidade.

Não nos cabe a nós decidir se alguém pode ficar de fora. E sabemos que, por princípio, à sobrevivência, todos têm direito. Por isso, cada ausência pesará demasiado (em nós e no barco) e, sem nos apercebermos, acabará por afundá-lo lentamente.

4. Contra o esquecimento na bonança. Quando a sobrevivência depender só de nós e não do espaço que ocupamos no barco, nem das decisões (boas ou más) de quem o comanda, façamos os nossos juízos, as nossas escolhas, e criemos as nossas jangadas para não naufragar em futuras intempéries.

Aí, podemos e devemos criar as regras de quem pode ou não entrar na nossa bolha.

Mas façamo-lo!

Porque tendemos, quando faz sol, a esquecer de como foi a tempestade. E com o calor no rosto raramente somos fiéis ao que nós próprios, antes, sentimos. Ninguém lutará por nós como sociedade se nós, sociedade, nos mostrarmos confortáveis com o sol ligeiro que, na bonança temporária, nos bate no rosto.

Até lá, em mar alto, gostemos ou não, com ou sem enjoos, seja ou não justo, bíblico ou profano, temos de engolir em seco, estender a mão ao próximo e suspender as inquietações. Porque, sim, estamos todos apertados no sacana do mesmo barco, com o grito cravado em nós e, quanto mais lutarmos contra rumar para o mesmo lado, mais difícil será sobrevivermos.

 

In Memoriam

Nem tudo é escuro e triste. Também há dias de luz e de festa. Hoje é o dia de aniversário do Zeca. Do Zeca Mendonça. Melhor amigo, confidente, conselheiro. Recordo-o aqui porque sei que esta é uma saudade partilhada por tantos que com ele se cruzaram. O Zeca está no coração de muitos e hoje certamente muitos o recordarão com especial saudade.

A sua palavra, o seu sorriso, a sua presença.

De lá de cima, o Zeca deve estar a olhar-nos divertido, à espera do fim desta história.

E a achar-nos uns tontos pela forma como nos levamos tanto a sério, sempre tão cheios de nós mesmos. Com insignificâncias e mesquinhices, desperdiçamos tempo precioso, como o tempo que gostávamos de ter tido para estar mais com ele.

Esqueçamos a raiva por momentos.

Hoje é um dia bom.

Hoje é o dia do Zeca.