Opinião

As vicissitudes da vacinação

Há um consenso generalizado sobre o fracasso da União Europeia na gestão da compra e distribuição das vacinas. E é mau que assim tenha acontecido.

Por Judite de Sousa

Jornalista

1. Haja respeito e compaixão. O processo de vacinação é difícil de concretizar, envolve milhões de doses, uma organização complexa e interesses múltiplos. 

A ciência divide-se sobre a eficácia e a aplicação da vacina da AstraZeneca com avanços e recuos sobre a sua continuidade. Um facto é louvável: os cientistas conseguiram em menos de um ano colocar no mercado vacinas de diferentes farmacêuticas, diversos custos para inevitavelmente travar a pandemia. Não sabemos se no fim do verão setenta por cento da população portuguesa estará vacinada, mas temos que ser positivos e acreditar que os piores tempos já terão passado, apesar das assimetrias nos desconfinamentos de diferentes países europeus o que nos suscita várias interrogações sobre as possibilidades turísticas nos próximos meses. 

Há um consenso generalizado sobre o fracasso da União Europeia na gestão da compra e distribuição das vacinas. E é mau que assim tenha acontecido. Em primeiro lugar pelos normativos da saúde pública. Não menos importante é o facto de se verificar que nos momentos decisivos Bruxelas falha. A forma leviana e economicista como o dossier foi conduzido reforça a convicção dos cidadãos sobre a incapacidade e a falta de respostas à altura da UE. O que temos? Um já significativo conjunto de países a comprarem diretamente à indústria e a adquirirem as vacinas russa e chinesa, igualmente validadas por algumas agências de acreditação. Mais uma desilusão que é eloquente sobre o modo como a Europa revela a sua inépcia quando se trata de mostrar unidade e capacidade de agir.

2. Fiquei chocada com as imagens emitidas numa televisão faz hoje uma semana. Passava-se em Loures. Um centro de vacinação; uma longa fila de espera de dezenas de pessoas na sua maioria com mais de oitenta anos esperando horas, ao sol, a sua vez para a toma da vacina. Aguardavam sem um lamento, alguns idosos apoiados em familiares mais jovens, evidenciando conformismo com a espera sofrida. Nem todos os centros de saúde estarão a funcionar mal e desorganizadamente. Mas o que vi fez-me pensar naquelas pessoas que deviam ser tratadas com respeito pelas instituições. Ao longo da pandemia viu-se como o Estado falhou muitas vezes no apoio aos mais indefesos. É uma vergonha que em alguns locais com as vacinas possa estar a acontecer o mesmo.