Falar baixinho

Saúde mental de algibeira

Não basta encher a boca para falar de saúde mental. O problema está à nossa frente e é cada vez mais preocupante


Se aqui há uns anos se achava que visitar um psicólogo ou psiquiatra era só para doidos varridos, em tempos mais recentes – e em especial com a pandemia – a saúde mental está na ordem do dia. Por causa dos confinamentos é até comum ouvir dizer em tom de brincadeira que se está a um passo da loucura, que só se aguenta isto com um ‘xanaxzinho’ ou que se vai reservar uma cama no serviço de psiquiatria mais próximo. Mas, longe destas brincadeiras, há quem se tenha visto mesmo forçado a recorrer a estes serviços.

Infelizmente muitos chegam já no limite – ou, pior, não chegam. Seja pelo preconceito que persiste em relação a recorrer a um psicólogo, por esta classe ser vista como um bando de charlatães que mandam uns bitaites, ou, simplesmente, porque praticamente não existem no nosso Sistema Nacional de Saúde, muitos continuam a ter de lidar com os problemas sozinhos. Apesar de sermos um dos países da Europa com maior prevalência de doenças psiquiátricas e maior número de ansiolíticos vendidos, temos apenas cerca de 2,5 psicólogos por 100 mil habitantes.

O facto é que, apesar de se falar muito do impacto psicológico que a pandemia tem para a maioria da população, e de como o apoio psicológico pode ser essencial neste contexto, a resposta a esta necessidade é ainda muito escassa e com contornos por vezes anedóticos. Por exemplo, em 2018 foi finalmente aberto um concurso para a colocação de 40 psicólogos em centros de saúde. Em 2021 continuam a ser feitas as entrevistas – interrompidas em 2020 devido à covid-19 – e a colocação será feita, na melhor das hipóteses, em 2022! Igualmente revelador é que, após três anos, dos 2528 candidatos, muitos ainda estão disponíveis, dada a escassez de emprego na área. Pela mesma razão, o apoio prestado por um profissional desta área através do SNS fica muito aquém do ideal. Em inúmeros hospitais, a procura de consultas de psicologia só é comparável à carência destes profissionais. Resultado: os utentes têm de esperar meses a fio para terem uma consulta, sendo que quem procura estes serviços geralmente está numa situação de sofrimento e angústia tão grandes que a demora será sentida como mais uma rejeição. E pior fica quando, após a primeira sessão, se apercebe que a segunda será passado um mês ou mais e que a duração de cada consulta é muito inferior ao esperado. Afinal, há que dar vazão à sala de espera e à agenda a rebentar pelas costuras.

Não basta encher a boca para falar de saúde mental. O problema está à nossa frente e é cada vez mais preocupante. Não é um privilégio estarmos sãos mentalmente, é essencial. Nem tem de ser motivo de vergonha sentirmo-nos ansiosos ou deprimidos ao ponto de não conseguirmos lidar com isso sozinhos. Uma vergonha, isso sim, é haver uma negligência tão grande nesta área da saúde que a maioria das pessoas ficam abandonadas à sua sorte e sem recursos para melhorar.