Falar Baixinho

E se um dia me disserem para me atirar a um poço?

Concordo que tenha de usar máscara, de manter a distância, mas daí a ser multada por querer mudar de ares, pelo bem estar da minha família, pela  nossa sanidade mental, pela dos meus filhos?


Tenho sido bastante compreensiva, paciente, resiliente  e cumpridora em relação às várias restrições impostas pela covid-19. Mas a proibição de circulação entre concelhos nas férias da Páscoa, que foi, ainda para mais, alterada e alargada em cima da hora, foi a gota de água. Não só por mim, mas por todos cá em casa e sobretudo pelos mais pequenos.

Depois de um ano muito difícil, de um retorno à escola e à companhia dos colegas com uma série de limitações, regras e até sanções; de um Natal atípico, longe da família alargada, só com um contacto esquivo com os avós, o inevitável aconteceu e as escolas voltaram a fechar. Com uma particularidade: embora as aulas tivessem começado há cerca de duas semanas, as crianças entraram novamente de férias porque – apesar de ter sido um cenário previsto quase um ano antes – nada estava preparado para o ensino à distância. Claro que chamar férias a esses 15 dias é como comparar um estabelecimento prisional a um resort de luxo. Famílias fechadas em casa com filhos em roda livre e pais em teletrabalho assoberbados com as tarefas domésticas de todos, restrições a tudo o que podia ser motivo de divertimento fora de casa e ainda um tempo pouco atrativo... soa mais a tortura. Mas as famílias aguentaram. Não tiveram outro remédio. Como se isso já não fosse suficientemente difícil, a seguir veio a malfadada telescola: crianças horas a fio em frente a monitores, com uma catrefada de trabalhos e prazos para cumprir, pais enredados em toda esta jigajoga a somar ao teletrabalho e às tais tarefas domésticas... Bom, foi nessa altura que cá em casa decidimos que na interrupção escolar da Páscoa iríamos de férias: mudar de ares, mudar de casa, sim, mudar de concelho! Todos os dias não se falava de outra coisa e os mais novos já tinham apetrechado as suas mochilas de brinquedos para o dia da partida.

Qual não foi o meu espanto quando se começa a aproximar a altura e vejo a vida novamente a andar para trás. A pergunta que surgia na minha cabeça era: nós fizemos mal a alguém? Não, tínhamos só uma enorme vontade de sair, por tudo o que já referi e pelo facto de termos cinco crianças em casa, por aqueles quinze dias de férias forçadas terem obrigado não só à exclusão das férias do carnaval e à diminuição das férias da Páscoa, mas também a prolongar ainda mais o 3.º período já de si demasiado longo, ficando a acabar um mês mais tarde do que é costume! Ou seja, só dali a mais de três meses,  mais precisamente a 8 de julho, é que as crianças voltariam a ter férias.

Embora nos sentíssemos bastante merecedores de uns dias fora de casa, as autoridades fizeram saber que não iriam ser brandas e que estavam preparadas para aplicar coimas de 200 euros a todos os que arriscassem um bocadinho de liberdade, sem dó nem piedade das dificuldades financeiras que estes confinamentos têm criado em quase todos os lares.

Concordo que tenha de usar máscara, de manter a distância, de não me juntar da forma como gostaria da minha família e amigos de quem tenho tantas saudades. Mas daí a ser multada por querer mudar de ares, pelo bem estar da minha família, pela  nossa sanidade mental, pela dos meus filhos? E se um dia me disserem para me atirar a um poço?