Sociedade

Fizeram-se menos testes esta semana

Plano de operacionalização da testagem já foi entregue ao Ministério da Saúde e vai definir matriz de testagem nos concelhos e setores em função da incidência. Por agora, repete-se o que aconteceu na primeira etapa de desconfinamento. Testes dispararam no regresso às aulas após a Páscoa e baixaram nesta. Na próxima voltam a ser reforçados com regresso às universidades.

A testagem «massiva» em Portugal começa a descolar mas por agora apenas nas semanas de início de uma nova etapa se regista uma subida significativa dos testes, a que se segue uma descida. Na semana passada, o país tinha aliás subido no ranking de testagem da União Europeia, ocupando o 11º lugar entre os países com mais testes no relatório semanal do Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças. Mas ainda está longe do patamar dos países que mais testam, como Dinamarca e Áustria. E esta semana deve baixar de novo.

Nos últimos dias já não houve testes nas escolas como na anterior e nos primeiros dias da semana, os dados ontem disponíveis na página da Direção Geral da Saúde, o balanço mostrava uma redução de quase 40% nos testes feitos no país em relação aos primeiros três dias da semana passada. Entre segunda-feira e quarta-feira foram feitos ao todo 114 268 testes à covid-19 no país, entre testes PCR e testes rápidos de antigénio, o que compara com 186 mil testes feitos nos primeiros três dias de regresso às aulas após a Páscoa, o início da segunda etapa de desconfinamento.

O Nascer do SOL apurou que o plano de operacionalização da estratégia de testagem elaborado pela task-force criada para o efeito pelo Ministério da Saúde já foi entregue ao Governo e deverá levar a uma maior definição da periodicidade da testagem nos diferentes setores, consoante também a incidência. Atualmente está previsto que em municípios com mais de 120 casos por 100 mil habitantes exista uma testagem periódica em alguns contextos, mas mesmo essa regra prevista desde fevereiro não arrancou imediatamente nos concelhos de maior risco, tendo a testagem sido intensificada após a Páscoa. E a responsabilidade do Estado, empresas e demais entidades na oferta dos testes não está ainda definida.

 Ao mesmo tempo, alguns municípios avançaram com programas de disponibilização de testes gratuitos à população, como foi o caso de Lisboa, Oeiras ou Cascais, em parceria com a Associação Nacional de Farmácias, mas não existe uma resposta uniforme em todo o país.

 Questionada pelo Nascer do SOL sobre quando será apresentado o plano de operacionalização de testagem, a tutela não indicou uma data, referindo que se trata de um «documento enquadrador que visa, em síntese, contribuir para o controlo da epidemia da COVID-19 no nosso país. Sobretudo, através da promoção da testagem para SARS-CoV-2, designadamente na identificação precoce de casos assintomáticos de forma ativa, como resultado de uma testagem intensificada e dirigida, complementada com a criação de todas as oportunidades de testagem». O Ministério diz ainda que o trabalho é feito envolvendo os diferentes setores/ministérios. Uma das questões que tem sido mantida em aberto prende-se com o financiamento e aquisição de testes, que ao que o nosso jornal apurou poderá vir a ser partilhada entre ministérios e setores, incluindo empresas e operadores de eventos ou transportes. Já sobre a descida de testes esta semana, o Ministério reiterou que, no geral, «o país está a aumentar o número de testes», fornecendo dados globais para o período entre 5 e 11 de abril, a primeira semana da segunda etapa de desconfinamento após a Páscoa e não ainda os últimos dias. «Entre 5 e 11 de abril, foram realizados cerca de 350.000 testes em Portugal, em comparação com as duas semanas anteriores, respetivamente de 168.000 e 182.000 testes», referiu a tutela.

 

Periodicidade de testes nas escolas sem regras

Já questionado em concreto sobre qual será a periodicidade dos testes em contexto escolar, que na próxima semana arrancam no ensino superior com o regresso às universidades mas entretanto estão já em plena atividade até ao 3º ciclo, o Ministério da Saúde remeteu para a norma da DGS que em fevereiro definiu a estratégia de testagem. Na norma 019/2020 refere-se que os testes devem ser periódicos nos concelhos com incidência cumulativa a 14 dias superior a 120/100.000 habitantes mas não ficou definida a periodicidade com que devem ser realizados nas escolas ou locais de trabalho de maior exposição como o setor da construção e fábricas. Só nos casos de rastreios a populações vulneráveis, o que inclui Estruturas Residenciais para Idosos (ERPI), Unidades da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI), Instituições Sociais de Acolhimento e/ou Apoio Social e Centros de Acolhimento de Migrantes e Refugiados e estabelecimentos prisionais é referido que devem ser feitos testes de 14 em 14 dias a residentes, utentes e profissionais.

«Na prática o que temos assistido é que o grande volume das testagens tem sido na retoma da atividade letiva. Como testam toda a gente no início, os números de testes sobem, mas a ideia é que haja um alargamento da testagem de forma mais sistemática e estendendo a outras dimensões de atividades e às empresas», diz ao Nascer do SOL Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, que acrescenta que, por outro lado, neste momento não existe uma perceção de quantos auto-testes estão a ser feitos no país, dado não está previsto o reporte de resultados de testes negativos – é apenas recomendado que pessoas com resultados positivos ou inconclusivos contactem o SNS24. «Existe esta dificuldade na análise: não sabemos o total de pessoas que estão a usar estes testes». Segundo dados da Associação Nacional de Farmácias avançados ontem pelo Diário de Notícias, as farmácias já venderam 104 mil auto-testes, que neste período de 13 dias ultrapassaram os testes feitos na farmácia por profissionais. Além das farmácias, também as parafarmácias dos hipermercados estão a vender testes. o Infarmed, que recebe informação dos operadores e distribuidores, indicou ao Nascer do SOL que só na primeira semana foram colocadas no mercado 9497 embalagens de auto-testes, o que perfazia então um total de 237 425 testes.

Neste momento, mais do que uma questão de capacidade de testagem, que existe, há uma necessidade de «efetivar» a testagem, defende Ricardo Mexia. «É importante que avance de forma robusta. Nas escolas tem havido um número importante de casos, não que seja um número preocupante, mas provavelmente fazer os testes de forma regular permite identificar casos que de outra forma não identificaríamos», explica.

 

Tendência de crescimento acelera e RT diminui

Os últimos dias ficaram marcados por uma estabilização da situação epidemiológica, não sendo certo ainda até que ponto pode haver alguma influência da variação de testagem esta semana.

O relatório semanal do Instituto Ricardo Jorge, divulgado esta sexta-feira, mantém que todas as regiões dos países apresentam a média do índice de transmissibilidade a cinco dias acima de 1, exeto a região de Lisboa e Vale do Tejo, «sugerindo um aumento da incidência de SARS-CoV-2». O INSA assinala no entanto que entre os dias 8 e 11 de abril, portanto na primeira semana após a Páscoa, observa-se uma «redução acentuada do R(t), tendo passado de 1,08 para 1,01 (IC95% 0,97 a 1,04), sugerindo um desacelerar da tendência de crescimento da incidência de SARS-CoV-2». O relatório do INSA não cruza a informação epidemiológica com o número de testes realizados no país, que nessa semana bateram recordes. Este valor trata-se do último valor diário calculado, referente a 11 de abril. Na média a 5 dias, mantém-se assim um RT de 1,05 a nível nacional, agora com tendência a baixar.

Até aqui o RT estava a aumentar desde meados de fevereiro, nas últimas semanas a uma média de 0,01 por dia, segundo os cálculos feitos pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Esta semana, em declarações ao jornal i, o epidemiologista Manuel Carmo Gomes considerou que a epidemia estava com uma trajetória de crescimento exponencial, defendendo que a decisão desta quinta-feira sobre a terceira etapa do desconfinamento fosse adiada pelo menos uma semana para haver mais dados sobre o impacto das duas primeiras semanas de abertura das escolas, que deverão ser reforçados com o reporte de notificações e testagem da próxima semana. Também Óscar Felgueiras e Raquel Duarte, que elaboraram uma proposta de plano de desconfinamento para o Governo, defenderam que, por prudência, poderia haver um adiamento da decisão, por forma a ser possível avaliar com maior segurança a situação epidemiológica. O primeiro-ministro justificou não ter sido acatada essa sugestão com a necessidade de «previsibilidade» no desconfinamento, dando o exemplo de restaurantes que já se abasteceram para funcionar. António Costa afastou a hipótese de medidas intercalares, reiterando que as decisões serão tomadas a cada 15 dias, defendendo também a necessidade de manter a renovação de medidas articulada com a renovação do estado de emergência, que o Governo espera que seja o último.